Comandantes das Forças Armadas dos Estados Unidos advertiram o secretário de Defesa, Pete Hegseth, de que prolongar a guerra contra o Irã é “insustentável” e compromete a capacidade do país de manter operações militares em outras partes do mundo.
Os alertas estão em um relatório sigiloso preparado para Hegseth e revelado neste domingo (30) pelo jornal The Washington Post. O documento reúne avaliações dos chefes do Exército, da Marinha e da Força Aérea, além dos comandantes responsáveis pelas operações norte-americanas na Europa, na Ásia e na América Latina.
Segundo uma fonte que teve acesso ao relatório, a avaliação predominante entre os comandantes é que a guerra já exigiu recursos “demais por tempo demais”. Outra afirmou que o quadro apresentado pelos militares é “mais sombrio” do que as avaliações de risco normalmente encaminhadas ao secretário de Defesa.
O relatório foi concluído em 14 de agosto, duas semanas antes de os Estados Unidos retomarem os bombardeios contra o território iraniano. No domingo, o Comando Central dos EUA atacou a ilha de Larak, no Estreito de Ormuz, e provocou uma nova rodada de confrontos.
Após a retaliação iraniana contra bases norte-americanas na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos, Donald Trump prometeu voltar a atacar o país. “Vamos atingi-los com força. Haverá uma resposta”, declarou o presidente à Fox News.
Comandantes contestam Hegseth
Os chefes dos comandos norte-americanos na Europa, no Pacífico e na América Latina registraram formalmente sua discordância com a ordem de Hegseth para continuar cedendo tropas, navios e aeronaves à guerra contra o Irã. O principal comandante da Marinha fez o mesmo.
A manifestação foi registrada como uma “não concordância”. Isso significa que os militares cumprirão a decisão do secretário de Defesa, mas consideram que a permanência dos equipamentos e das tropas no Oriente Médio compromete suas demais obrigações.
Navios, aeronaves de vigilância e outros equipamentos foram retirados de diferentes regiões para sustentar as operações contra o Irã. Segundo o relatório, a transferência já limita missões e treinamentos e afeta inclusive a capacidade de defesa do território norte-americano.
O chefe do Comando do Pacífico, almirante Samuel Paparo, discordou da obrigação de manter continuamente no Oriente Médio um grupo de ataque formado por porta-aviões e destróieres. A retirada dessas forças também provocou preocupação entre aliados dos EUA na Ásia.
O único porta-aviões norte-americano dedicado permanentemente ao Pacífico foi enviado ao Oriente Médio para substituir outra embarcação que já estava mobilizada havia mais de 300 dias.
Os chefes do Exército e da Força Aérea aceitaram a prorrogação determinada por Hegseth, mas também advertiram que a medida representa um risco elevado para os Estados Unidos.
Apenas um quarto dos destróieres está disponível
A avaliação mais grave foi apresentada pelo chefe de Operações Navais, almirante Daryl Caudle. Ele informou a Hegseth que a Marinha não consegue manter o atual nível de participação na guerra porque não existe uma previsão para o fim das operações.
Apenas um quarto da frota de destróieres norte-americanos está disponível para uma nova mobilização, uma queda acentuada em relação ao período anterior à guerra. A continuidade das operações também compromete a manutenção dos navios e reduziria ainda mais a capacidade da frota diante de outro conflito.
A Marinha enviou dezenas de embarcações ao Oriente Médio para bombardear o Irã, defender instalações norte-americanas das respostas iranianas e sustentar o bloqueio aos portos do país. Missões de navios e tripulações foram prorrogadas por vários meses.
Em uma declaração recente, Caudle classificou essas extensões como “muito desafiadoras para nossos marinheiros”.
A guerra também consumiu parte considerável dos estoques de interceptadores Patriot e do sistema de defesa THAAD, além de mísseis de longo alcance Tomahawk. Cerca de 25% da frota norte-americana de drones MQ-9 Reaper foi perdida durante os seis meses de confrontos.
Bases dos Estados Unidos no Oriente Médio também sofreram prejuízos de bilhões de dólares. O Pentágono reconheceu 18 militares mortos e 756 feridos desde o início da guerra, em 28 de fevereiro.
Tropas podem permanecer até 2027
A ordem emitida por Hegseth determina que parte das forças mobilizadas continue no Oriente Médio até setembro e que outras unidades permaneçam na região até 2027. O Comando Central mantém mais de 50 mil militares em alerta há meses para a possibilidade de novos ataques contra o Irã.
Integrantes da 82ª Divisão Aerotransportada, mobilizados em março, poderão completar um ano fora de suas bases. Esses militares seriam usados em uma eventual invasão terrestre do território iraniano.
Unidades da Força Aérea responsáveis pelos bombardeios e outras operações permanentes também devem continuar na região até 2027. O mesmo poderá ocorrer com equipes responsáveis pelos sistemas Patriot.
Antes mesmo do início da guerra, o presidente do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, havia informado à Casa Branca que os Estados Unidos não possuíam munição nem apoio suficiente de seus aliados para sustentar uma campanha militar prolongada.
O governo Trump ignorou os alertas e iniciou os ataques ao lado de Israel. Seis meses depois, o Irã não capitulou, o Estreito de Ormuz permanece sob controle iraniano e a guerra consome recursos retirados das operações norte-americanas em outras regiões.
Em resposta ao Washington Post, o porta-voz do Departamento de Defesa, Sean Parnell, afirmou que as decisões sobre a duração das mobilizações consideram as avaliações de risco, as prioridades definidas por Trump e as recomendações dos comandantes. O Pentágono não comentou as divergências registradas no documento sigiloso.