
Parlamentares chilenos do Partido Nacional Libertário apresentaram um projeto de lei para criar o chamado “Museu da Verdade”, iniciativa que busca estabelecer uma narrativa sobre os anos anteriores ao golpe militar de 1973 e confronta o papel do Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago. Com informações de Folha de S.Paulo.
A sigla foi fundada pelo deputado ultradireitista Johannes Kaiser. Seus integrantes dizem que o novo espaço deve abordar “a crise econômica, desabastecimento e violência política” durante o governo do presidente socialista Salvador Allende, entre 1970 e 1973.
O Museu da Memória e dos Direitos Humanos foi criado no governo da ex-presidente Michelle Bachelet para documentar crimes e violações cometidos pela ditadura de Augusto Pinochet, que durou de 1973 a 1990. Com apoio dos Estados Unidos, Pinochet derrubou Allende em um golpe e instalou um regime de repressão, tortura e desaparecimentos que matou ao menos 4.000 pessoas.
Pinochet chegou a ser preso em Londres, em 1998, e retornou ao Chile em 2000. Ele enfrentou acusações por uma série de crimes, mas morreu em 2006 sem receber condenação.

Projeto amplia disputa sobre a memória da ditadura no Chile
O cientista político Cristóbal Rovira Kaltwasser, da Universidade do Chile, afirma que a discussão está ligada à formação da direita chilena. “A direita chilena é peculiar porque suas origens remontam à ditadura de Pinochet. Durante a transição, esses partidos se modelaram, mas sempre existiram eleitores e lideranças que não concordaram com essa moderação”, disse.
Kaltwasser aponta o presidente chileno, José Antonio Kast, fundador do Partido Republicano, como símbolo de uma ala que rejeitou essa moderação. Em 1989, Kast fez campanha pelo “Sim” no plebiscito que buscava manter Pinochet no poder e, como parlamentar, se opôs a pautas como aborto, casamento LGBTQIA+ e reformas constitucionais.
Na avaliação do pesquisador, a ascensão de Kaiser deslocou o debate político ainda mais à direita e tornou Kast relativamente mais palatável, embora suas posições programáticas não tenham mudado. Kaltwasser comparou o estilo de ruptura de Kaiser ao do ex-presidente Jair Bolsonaro e ao do presidente argentino Javier Milei, em contraste com o tom mais comedido de Kast.
O deputado Diego Schalper, da Renovação Nacional, partido de centro-direita que sustenta o governo Kast, defendeu que o Museu da Memória trata de fatos ocorridos entre 1973 e 1990, mas argumentou que seria preciso “contar a história toda”. Para ele, o golpe de 11 de setembro de 1973 ocorreu em meio a “violência política generalizada”.
Questionado se classifica o regime de Pinochet como ditadura, Schalper respondeu: “Sem dúvida, mas esse não é o ponto.” Ele também afirmou que condena violações de direitos humanos, mas entende que o governo Allende não respeitou a Constituição.
Kaltwasser considera improvável que o projeto reúna votos para aprovação no Congresso. Para o professor, a proposta faz parte de uma “disputa cultural” para deslocar os limites do que setores da direita consideram aceitável debater publicamente.
Mais de três décadas após o fim da ditadura, o pesquisador cita que mais de 40% dos eleitores votaram pela permanência de Pinochet no plebiscito de 1988. Pesquisas, segundo ele, ainda apontam que cerca de 30% da população chilena mantém uma visão positiva sobre o regime militar.