A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva não esperou o programa em bloco deste sábado (29) para entrar em campo. Já na sexta-feira (28), primeiro dia oficial de veiculação de inserções, o comitê disparou uma peça de 30 segundos que resume, em ritmo acelerado, a estratégia central da reeleição: transformar Flávio Bolsonaro (PL) em sinônimo do que há de pior na família política mais conhecida do país. A peça mostrou a “ficha policial”, sirenes ao fundo e o carimbo final “Flávio, o pior dos Bolsonaros”.
O maior acerto da peça está em isolar Flávio dos irmãos: ao chamá-lo de “o pior”, sugerindo uma gradação, uma hierarquia moral dentro da própria família, o que é fragiliza o candidato que depende da transferência de votos do pai. Terceiro, cria um slogan repetível — desses que grudam no ouvido e se espalham.
A frase de encerramento “Não dá para confiar nesse sujeito” completa o efeito. Não é uma acusação jurídica — é um julgamento moral, que é o que de fato decide eleições. O eleitor não precisa entender os detalhes do Banco Master ou da rachadinha; basta concluir que o homem na tela não é confiável.
O secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, afirma que o conteúdo foi produzido a partir de “registros da polícia, da Justiça e da imprensa”. Ou seja: não é invenção, é curadoria de fatos documentados.
A ficha policial e a viralização pelo forró
O dossiê criminal lista acusações em sequência: funcionário fantasma em Brasília aos 19 anos, denunciado por lavagem de dinheiro na rachadinha da Alerj, homenagem ao miliciano Adriano da Nóbrega, pedido de R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro. Um padrão de comportamento.
A segunda inserção registrada no TSE adapta o hit de 2016 conhecido como “Osmarzinho”, um forró que viralizou na campanha do Piauí contra um candidato homônimo. A escolha reaproveita uma melodia já testada e aprovada no imaginário popular nordestino. Transforma acusação grave em refrão cantarolável: “Quem pediu para Daniel Vorcaro R$ 61 milhões para fazer o filme do pai? Foi o Flávio Bolsonaro”. E cria um produto culturalmente autônomo — que pode circular fora do horário eleitoral, em redes sociais, festas, carros de som.
O jingle ainda menciona Eduardo Bolsonaro, “fugindo” nos Estados Unidos, e os depósitos na loja de chocolates — outro episódio clássico do repertório anti-Bolsonaro. A campanha entendeu que o forró, mais que um gênero musical, é um veículo de memorização. E que uma acusação cantada gruda mais que uma acusação lida.
Três peças, três funções
A campanha não se resume ao ataque. O TSE registra três inserções distintas, cada uma com função específica. A primeira é a ficha policial, a segunda é o jingle e a terceira é Lula em voz serena, falando de futuro, educação, saúde, fim da escala 6×1. A tríade permite alternar conteúdos sem saturar o eleitor com negativismo.
A distribuição de tempo também favorece o petista: Lula terá 433 inserções ao longo dos 35 dias de primeiro turno, contra 339 de Flávio . São 94 inserções a mais — quase uma por dia — para fixar a narrativa do “pior dos Bolsonaros”.
O contragolpe
A estreia das inserções sinaliza que a campanha de Lula não subestimará a força das redes bolsonaristas, quando demorou a reagir a ataques em 2022. Agora, o comitê age preventivamente — e com repertório amplo.
A aposta é clara: se Flávio tentar se apresentar como alternativa moderada e familiar — como tentou em seu programa de estreia, falando de esposa, filhas e “quem manda em casa” —, a candidatura de Lula o desmontará antes que a narrativa se consolide.