Como Dolly Parton ajudou a financiar vacina contra a Covid

Dolly Parton. Foto: Valerie Maco /AFP

Dolly Parton não será lembrada apenas pelas músicas que se tornaram clássicos e pelo carisma que a transformou em um dos maiores nomes da música americana. A cantora também construiu um dos mais importantes legados filantrópicos do mundo do entretenimento.

Ao longo da vida, Parton financiou projetos de educação, pesquisa médica e assistência a comunidades afetadas por tragédias. Entre suas iniciativas está uma doação de US$ 1 milhão ao Vanderbilt University Medical Center, em Nashville, que ajudou a financiar pesquisas que contribuíram para o desenvolvimento da vacina contra a Covid-19 da Moderna.

A contribuição ocorreu em 2020, quando a pandemia avançava pelo mundo. Parte do dinheiro foi destinada a uma das primeiras etapas dos testes da vacina da Moderna. O estudo posteriormente apontou uma eficácia de aproximadamente 95% na prevenção da Covid-19 sintomática.

Parton também usou sua própria música para incentivar a vacinação. Em uma versão especial de seu clássico “Jolene”, ela trocou o nome da personagem por “vaccine” e cantou: “Vacina, vacina, vacina, vacina, estou implorando, por favor, não hesite”.

Ao receber a própria vacina, ela ainda brincou: “Tenho idade suficiente para tomar e sou inteligente o suficiente para isso”.

A biblioteca que nasceu da história do pai

Mas a principal marca da filantropia de Dolly Parton está na educação.

A cantora nasceu em uma família pobre, uma das 12 crianças de um casal que vivia em uma pequena casa de apenas um cômodo nas montanhas do Tennessee. Seu pai, Robert Lee Parton, era agricultor de tabaco e não sabia ler nem escrever.

Foi justamente a história do pai que inspirou o projeto mais ambicioso de Dolly: a Imagination Library.

Criado em 1995 pela Dollywood Foundation, o programa começou distribuindo gratuitamente livros para crianças de até cinco anos no condado de Sevier, onde Parton cresceu. A iniciativa rapidamente se expandiu e passou a atender crianças nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Irlanda e Austrália.

Segundo a organização, mais de 332 milhões de livros já foram distribuídos.

A ideia era simples: fazer com que toda criança tivesse livros em casa.

“Todos os filhos deveriam crescer em uma casa cheia de livros”, defendia Parton.

A cantora costumava dizer que o pai se orgulhava mais da biblioteca do que de sua própria carreira. Para ela, oferecer um livro pelo correio tinha um significado especial porque fazia a criança sentir que alguém estava pensando nela.

Durante a pandemia, Parton passou a ler alguns dos livros da Imagination Library em vídeos publicados no YouTube, alcançando crianças que muitas vezes sequer sabiam quem ela era.

Dolly Parton também financiou hospitais e pesquisas

A filantropia de Parton não ficou restrita aos livros.

Em 2007, um show beneficente organizado por ela arrecadou US$ 1 milhão para a construção de um novo hospital e centro de tratamento contra o câncer em Sevier County. O complexo passou a contar com o Dolly Parton Center for Women’s Services.

Anos depois, a cantora doou mais US$ 1 milhão ao hospital infantil Monroe Carell Jr. Children’s Hospital, da Vanderbilt University, depois que sua sobrinha foi tratada de leucemia na instituição.

Mais tarde, realizou outra doação de US$ 1 milhão para financiar pesquisas em doenças infecciosas pediátricas.

“Eu amo crianças. Nenhuma criança deveria sofrer”, afirmou Parton ao anunciar uma dessas iniciativas.

Dinheiro para vítimas de incêndios e enchentes

Parton também usou sua influência para ajudar vítimas de desastres naturais.

Depois dos incêndios devastadores que atingiram Sevier County em 2016, a cantora organizou um teleton que arrecadou mais de US$ 13 milhões. Artistas como Kenny Rogers, Chris Stapleton, Reba McEntire e Cyndi Lauper participaram da mobilização.

Parton ainda prometeu pagar US$ 1 mil por mês, durante seis meses, para cerca de 900 famílias que haviam perdido suas casas.

Em 2021, quando enchentes devastaram comunidades do Tennessee, ela voltou a atuar na arrecadação de recursos, ajudando a levantar cerca de US$ 700 mil.

Educação também para os próprios funcionários

A preocupação de Parton com a educação se estendeu aos trabalhadores de seu parque temático, o Dollywood.

Em 2022, foi anunciado que todos os funcionários do parque — inclusive trabalhadores sazonais e de meio período — poderiam ter 100% dos custos de mensalidades e livros pagos caso decidissem continuar os estudos.

A Dollywood Foundation também mantém um programa de bolsas para estudantes do ensino médio, com bolsas de US$ 15 mil para jovens que desejam seguir seus sonhos acadêmicos e profissionais.

A proteção da águia americana

Até a conservação ambiental entrou na lista de iniciativas associadas a Parton.

O parque Dollywood abriga um dos maiores santuários do mundo para águias-carecas que não podem ser devolvidas à natureza. O trabalho de reabilitação e reprodução é administrado pela American Eagle Foundation.

A águia-careca, símbolo nacional dos Estados Unidos, foi retirada da lista de espécies ameaçadas em 2007, depois de décadas de esforços de conservação.

Um legado que vai muito além da música

Em 2022, Dolly Parton recebeu a Carnegie Medal of Philanthropy, reconhecimento concedido a grandes filantropos, em homenagem ao impacto de seu trabalho.

Sua trajetória filantrópica combina grandes doações com projetos simples e diretamente ligados às comunidades: um livro chegando pelo correio, uma família recebendo dinheiro depois de perder a casa, uma criança tendo acesso a um hospital ou um estudante conseguindo continuar os estudos.

A contribuição para a pesquisa da vacina contra a Covid-19 é apenas uma parte desse legado.

Dolly Parton transformou sua fama e sua fortuna em uma rede de iniciativas que atravessa educação, saúde, pesquisa científica, assistência social e conservação ambiental.

Como ela própria resumiu certa vez: “Quando eu terminar, poderei descansar em paz sabendo que fiz o meu melhor”.

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