Nazareth/ Pixinguinha/ Villa-Lobos/ Jobim (4), por Walnice Nogueira Galvão

Nazareth/ Pixinguinha/ Villa-Lobos/ Jobim (4)

por Walnice Nogueira Galvão

Havia outros traços que se destacavam na personalidade de Villa-Lobos. A exuberância de seu estro refletia-se na cabeleira revolta e no olhar coruscante. Logo se tornaria celebridade no país. Foi importantíssimo porque, sendo um músico clássico como quem mais o fosse, faria uma ponte com o popular, reatando com a tradição de chorão. Proclamaria sem cessar sua admiração por compositores populares como Ernesto Nazareth, Pixinguinha e outros.

E o que dizer de Tom Jobim? Que encheu de beleza a alma de várias gerações? Quem teve o privilégio de ser seu contemporâneo viveu o fastígio da bossa nova, em que todo dia, ou quase todo dia, surgia uma linda canção que daí a pouco todos trauteavam, e trauteiam até hoje.

Do trio consagrado como inventor da bossa nova, dois vinham da cultura clássica. Tal era o caso de Vinícius de Moraes, poeta da segunda geração do Modernismo, e Tom Jobim, pianista de formação erudita. João Gilberto entrou com a inovadora batida de violão. Entre tantas hipóteses, Roberto Menescal acrescenta mais esta, inédita: a batida-mãe  decorre da adaptação do batuque estridente do tamborim.

Dois de três, já se vê. E todos eles com forte impregnação do jazz, que ajudou muito ao facilitar a recepção dos matizes da bossa nova, quando começou a ter alcance mundo afora. Como é sabido, “Garota de Ipanema” é campeã planetária de gravações, logo em seguida aos Beatles. Atribui-se a Tom Jobim o comentário mordaz: “Mas eles eram quatro…”. Ele também compunha música erudita, vide Brasília: Sinfonia da Alvorada, em parceria com Vinicius de Moraes.  Nasceu para a fama quando compôsa trilha sonora de Orfeu do Carnaval, peça de Vinicius encenada no Teatro Municipal do Rio, com cenários de Oscar Niemeyer.

Lindas melodias, delicadeza de toque, minimalismo e intimismo, sofisticação, harmonizações dissonantes na medida certa…  É o que evidencia “Desafinado”, manifesto de uma nova estética: qualidades que sobressaem em Tom Jobim. Sua autoria não só da música mas também da  letra de “Águas de março”, uma obra-prima em qualquer cancioneiro, comprova que se trata de um poeta altíssono.

Ele é sem dúvida alguma a estrela musical da bossa nova e parceiro de todos os outros músicos. Discípulo confesso de Villa-Lobos, muitas vezes estamos ouvindo Villa-Lobos e achando que é Tom Jobim, ou vice-versa. Com formação de pianista clássico, ganhava a vida tocando em bares e boates. Foi ali, no Beco das Garrafas, em Copacabana, cadinho da bossa nova, que Tom começou. A estampa de bom moço ajudava, pois era bonito e distinto, com boas maneiras, reservado – um pouco o perfil da própria bossa nova.

Mas como, ora direis, uma seleção como esta destes quatro, tão limitada? E maestros como Radamés Gnatalli ou Camargo Guarnieri? E, no outro extremo do espectro, compositores populares fecundos como Lamartine Babo? Ninguém discute que eles são excepcionais, e uma glória para qualquer país. E não só eles, uma quantidade de outros músicos, eruditos e profissionais – felizmente. Gente melômana está ali, no Brasil. Veja-se Lamartine Babo, que além de grande compositor era uma figura fascinante, aliás algo usual entre eles. Além de compor marchinhas e sambas etc., ele também compôs os hinos de todos os times de futebol do Rio, peças para teatro de revista, e tudo o mais em que o leitor estiver pensando. Trabalhador infatigável, não se sabe como encontrava folga para ser boêmio, e saía todo carnaval animadíssimo, fantasiado de viúva, com mitenes, meias pretas, véus, enfim a parafernália completa. Levantamento exaustivo de vida e obra encontra-se em Tra-la-lá, de Suetônio Valença, recentemente reeditado.

O nome de Tom Jobim tem sido homenageado de vários modos. Foi enredo de escola-de-samba, e nada menos que da Mangueira, a matriarca. Destacam-se a Escola de Música do Estado de São Paulo, o Aeroporto do Galeão e o Instituto Tom Jobim, no Rio de Janeiro. Este último administra seu acervo e os de muitos outros músicos, cuidando de digitalização e divulgação. Por sua vez, a Escola dá cursos de instrumentos, composição, canto e regência.

Vamos combinar então que os quatro “píncaros” são exemplares de uma multidão de outros talentosos músicos?

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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