A China avisou que reagirá caso o governo de Donald Trump leve adiante a ameaça de impor sanções contra empresas e bancos chineses que mantêm relações comerciais com o Irã.
Pequim classificou as medidas como ilegais e afirmou que adotará “todas as medidas necessárias” para proteger seus interesses.
A resposta foi dada nesta terça-feira (25) pelo porta-voz do ministério das Relações Exteriores chinês, Lin Jian, depois que o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, anunciou uma nova etapa da guerra econômica contra Teerã.
“A China deixou clara em muitas ocasiões sua firme oposição a sanções unilaterais ilícitas, que não têm base no direito internacional nem autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas”, declarou Lin.
Segundo o porta-voz, a guerra econômica e a política de “pressão máxima” não oferecem uma saída para o conflito.
“Ao contrário, servem apenas para alimentar as tensões e provocar o transbordamento dos riscos, o que perturbará a ordem econômica e financeira mundial e prejudicará os direitos e interesses legítimos de outros países”, afirmou.
Lin defendeu a redução imediata das tensões e a retomada das negociações. Ao mesmo tempo, advertiu que Pequim não aceitará prejuízos provocados pelas medidas norte-americanas. “A China fará tudo o que for necessário para salvaguardar firmemente seus direitos e interesses”, disse.
Trump tenta isolar o Irã
Bessent anunciou na segunda-feira (24) uma operação destinada a cortar as relações econômicas do Irã com o restante do mundo. ]O governo Trump pretende obrigar países, bancos e empresas a interromper negócios com Teerã sob o risco de serem excluídos do sistema financeiro baseado no dólar.
“Nosso objetivo é cortar cada linha econômica vital que sustenta esse regime até que Teerã fique sozinho”, declarou o secretário. Segundo ele, os Estados Unidos já identificaram empresas e instituições que mantêm negócios com o Irã e estabelecerão prazos para que rompam essas relações.
A primeira lista anunciada por Washington atingiu mais de 60 pessoas, empresas e navios, entre eles companhias de menor porte localizadas na China continental e em Hong Kong. O governo Trump, porém, evitou aplicar sanções contra os grandes bancos chineses, apesar da participação dessas instituições no financiamento do comércio de petróleo iraniano.
Questionado sobre essa cautela, Bessent reconheceu o risco de uma crise de grandes proporções. “Por que eu iria querer explodir o sistema financeiro global?”, respondeu. Em outra declaração, contudo, afirmou que “ninguém está fora do alcance das sanções dos Estados Unidos”.
A China é o principal destino do petróleo exportado pelo Irã, e uma ofensiva contra grandes bancos e empresas chinesas poderia provocar uma resposta de Pequim e desestabilizar os mercados mundiais.
China tem instrumentos para responder
Os Estados Unidos utilizam o domínio do dólar e sua posição no sistema financeiro internacional para ameaçar empresas estrangeiras que negociam com países sancionados.
A China, no entanto, reduziu a vulnerabilidade de parte do comércio com o Irã ao realizar pagamentos em yuan e recorrer a refinarias privadas com pouca exposição ao mercado financeiro norte-americano.
Conhecidas como teapots, essas refinarias compram petróleo iraniano com desconto e produzem gasolina e diesel voltados principalmente ao mercado interno. Como muitas realizam poucas operações internacionais em dólar, Washington tem maior dificuldade para pressioná-las.
Mesmo após sucessivas rodadas de sanções, a China recebeu em média cerca de 1,2 milhão de barris de petróleo iraniano por dia ao longo de 2026, segundo dados da empresa de monitoramento Kpler.
O volume caiu nos últimos meses devido ao bloqueio norte-americano aos portos e navios do Irã, mas o comércio não foi interrompido.
Pequim também dispõe de instrumentos de retaliação. Durante a guerra comercial, o governo chinês restringiu a exportação de minerais críticos utilizados pelas indústrias tecnológica, energética e militar dos Estados Unidos.
Uma nova ofensiva contra empresas chinesas poderia levar à retomada dessas medidas.
O risco de confronto ocorre às vésperas de um encontro previsto para setembro entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping. Os dois governos tentam preservar uma trégua comercial, enquanto Washington pressiona Pequim a abandonar um de seus principais fornecedores de petróleo.
Para a China, a saída para a guerra não está no cerco econômico defendido por Trump. “A tarefa mais urgente é promover a redução das tensões e retornar ao diálogo e à negociação o mais rápido possível”, afirmou Lin.