
Os europeus aumentaram suas reservas de dinheiro em espécie mesmo com a expansão dos pagamentos eletrônicos. Dados do Banco Central Europeu (BCE) apontam mais de 31 bilhões de cédulas de euro em circulação, ante 24 bilhões pouco antes da pandemia de covid-19, em 2019. Especialistas relacionam o movimento ao temor de guerras, ciberataques, apagões e desastres naturais. Com informações de G1.
O valor total das notas em circulação passou de 1 trilhão de euros em 2016 para 1,6 trilhão de euros em 2026. O montante equivale a cerca de 5 mil euros por habitante da Zona do Euro. Em 2025, a cédula de 50 euros liderava a circulação, seguida pela de 100 euros.
Philip Lane, economista-chefe do BCE, descreveu um comportamento que contrasta com a redução do uso de cédulas nas compras: enquanto menos pessoas pagam em espécie no cotidiano, cresce o volume guardado em casa como reserva para emergências.
O BCE considera o dinheiro físico parte da preparação dos países para conflitos, crises de saúde, desastres e interrupções de energia ou de serviços digitais. “A demanda por dinheiro em espécie durante crises — como a crise financeira de 2008, a crise da dívida soberana europeia e a pandemia de COVID-19 — ressalta a sua importância, especialmente em tempos turbulentos”, afirmou Piero Cipollone, integrante do conselho executivo da instituição.

Países recomendam dinheiro para 72 horas de emergência
Em 2025, cidadãos da União Europeia receberam a recomendação de manter água, alimentos, rádio de pilha e outros itens essenciais para pelo menos 72 horas. Alemanha, Holanda, Áustria, Finlândia e Suécia também orientaram as famílias a guardar entre 70 e 100 euros, valor destinado a compras básicas caso aplicativos, cartões e serviços online fiquem indisponíveis.
A professora Olive McCarthy, da Universidade de Cork, na Irlanda, aponta que as cédulas também atendem idosos, pessoas sem acesso pleno ao sistema bancário e vítimas de violência doméstica cujos gastos são controlados pelo agressor. Lane defende uma legislação que preserve redes de caixas eletrônicos em todas as áreas comerciais da União Europeia.
Euro digital avança no Parlamento Europeu
O projeto de criação do euro digital avançou no Parlamento Europeu e aproximou o bloco da adoção da legislação até o fim de 2026. A proposta prevê uma moeda eletrônica pública, emitida e garantida pelo BCE, com funcionamento semelhante ao Pix. Parlamentares críticos alegam riscos à privacidade e temem uma redução do papel das notas e moedas, mas a presidente do BCE, Christine Lagarde, afirma que as duas modalidades terão curso legal.
O BCE também pretende reduzir a dependência europeia de empresas estrangeiras de pagamento, como Visa, Mastercard e PayPal. Segundo Lagarde, 60% dos pagamentos com cartão no bloco utilizam infraestrutura controlada por capital estrangeiro. “Dependemos predominantemente de redes americanas, mas também, às vezes, chinesas, para organizar pagamentos. Precisamos de uma solução europeia porque queremos ser soberanos em termos domésticos”, disse.