Os EUA já dispõem de doutrina, comando, inteligência e acesso regional para transformar um incidente de fronteira em pretexto para uma ação contra a soberania brasileira.
Por Reynaldo Aragon
Washington construiu uma guerra de duas portas: a pública sanciona, vigia e criminaliza; a secreta transforma organizações em alvos militares. A soberania brasileira pode ser atingida antes que um soldado cruze a fronteira. Basta uma decisão presidencial que converta PCC ou Comando Vermelho em inimigo militar dos Estados Unidos.
A lista secreta que transforma crime em alvo militar
Um relatório oficial de 31 de julho expõe o mecanismo que Washington mantém fora do debate público. A designação como FTO ou SDGT não transforma uma organização em alvo militar. Sob a Southern Spear, somente grupos classificados como Designated Terrorist Organizations, ou DTOs, podem ser submetidos a ataques. Essa categoria é atribuída pelo presidente dos Estados Unidos. A lista completa, as atividades dos designados e a missão operacional permanecem sob sigilo.
PCC e Comando Vermelho entraram no regime público de contraterrorismo em 5 de junho. Não há prova de que estejam na relação militar, nem meio público de verificar que estejam fora. A decisão pode ocorrer em segredo, sem conhecimento da sociedade brasileira e sem consulta ao Estado em cujo território essas organizações atuam.
A classificação como DTO não autorizaria, por si, um ataque dentro do Brasil. Colocaria, porém, as duas facções no universo de alvos de uma campanha já letal. A guerra silenciosa não começa com uma invasão, mas quando Washington assume o poder de definir secretamente um inimigo militar dentro do espaço soberano de outro país.
A designação pública já opera como força material. Bens sob jurisdição norte-americana podem ser bloqueados; apoio material torna-se crime; integrantes e representantes ficam sujeitos a restrições migratórias. Bancos e empresas, sob risco de sanção, passam a excluir relações diretas, indiretas ou apenas suspeitas. Num sistema ancorado no dólar, nos pagamentos transnacionais e em plataformas sediadas nos Estados Unidos, Washington projeta sua lei muito além de suas fronteiras. O Estado converte a infraestrutura privada do capital em dispositivo de coerção, vigilância e produção de informação.
Nada disso autoriza automaticamente um ataque. Mas sanções, investigações e controles de conformidade geram dados financeiros, comunicações, vínculos pessoais e rotas logísticas que podem alimentar a inteligência. Esse acervo pode sustentar a decisão presidencial que abre a segunda porta: a inclusão secreta como DTO. Não há prova de que PCC e Comando Vermelho tenham cruzado essa linha. Há, contudo, uma engrenagem capaz de levá-los da repressão financeira à seleção militar. Um regime torna a organização economicamente tóxica e informacionalmente visível; o outro pode transformá-la em alvo. Antes do ataque, vem o dossiê. A lei não contém a força. Organiza o terreno para seu emprego.
A engrenagem já produz cadáveres. Entre abril e junho, a Southern Spear atingiu pelo menos 19 embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental; 56 pessoas morreram ou foram dadas como mortas. O relatório oficial não identifica as vítimas nem apresenta, caso a caso, as provas que sustentaram os ataques. Registra oito embarcações militares, um esquadrão de patrulha P-8, a 22ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais e US$ 820,9 milhões em custos acumulados. Depois de décadas de interdição não letal nas mesmas águas, o ataque letal tornou-se método. A fronteira entre polícia e guerra foi atravessada.
A máquina ganhou escala hemisférica em 4 de agosto, quando o Comando Sul ativou a JTF-WHEM. O novo quartel-general exerce comando e controle tático e operacional e integra inteligência, vigilância, reconhecimento, planejamento e coordenação multinacional. Desde agosto de 2025, a Agência de Inteligência de Defesa já havia reorientado sua coleta para rotas de drogas, migração, instabilidade política e econômica, influência de potências externas e redes de contraterrorismo. O mesmo território passa a ser observado como fonte de crise e organizado como espaço de operação.
Oito dias depois, Pete Hegseth definiu a Southern Spear como a primeira campanha militar sustentada contra DTOs no hemisfério e anunciou que a JTF-WHEM continuaria localizando e matando “narcoterroristas”. Aos integrantes da A3C, cobrou acordos para presença de tropas, acesso a bases e sobrevoo. Está formada uma divisão regional do trabalho de guerra: países periféricos fornecem território, consentimento, forças locais e cobertura política; Washington concentra inteligência, comando, seleção de alvos e poder de fogo. O imperialismo contemporâneo não precisa ocupar cada país. Basta controlar a rede que decide onde está o inimigo e quando ele pode ser eliminado.
O método já foi testado em terra. Em 3 de janeiro, a Operação Absolute Resolve mobilizou mais de 150 aeronaves lançadas de vinte bases e forças especiais para entrar em Caracas e capturar Nicolás Maduro. Washington descreveu a incursão como apoio à aplicação da lei federal. Acusação criminal, inteligência antiterrorista e poder de guerra foram fundidos para retirar um chefe de Estado de seu território e levá-lo aos Estados Unidos.
Em maio, a Estratégia de Contraterrorismo dos Estados Unidos declarou que a operação provou que o Corolário Trump já é realidade no hemisfério. O documento afirma que Washington atuará com governos considerados “dispostos e capazes”; quando não forem, fará o que julgar necessário, sobretudo se os acusar de cumplicidade com os cartéis. A cooperação tornou-se opção subordinada ao julgamento norte-americano.
O Equador abriu a rota do consentimento. Em 3 de março, forças equatorianas e norte-americanas iniciaram operações contra DTOs dentro do país; em agosto, Hegseth classificou a ação como a primeira operação cinética combinada com um integrante da A3C. Quito autorizou a presença, portanto não foi uma ação contra o Estado equatoriano. O precedente é outro: um aliado pode converter seu território em plataforma de uma campanha dirigida por Washington.
Venezuela e Equador não são casos idênticos. Juntos, porém, formam um repertório completo: agir sem consentimento ou obtê-lo de um parceiro. A soberania torna-se condicional, respeitada quando se alinha e contornada quando resiste. A fronteira já não impede a guerra. Apenas determina por qual porta ela entrará.
Em torno do Brasil, a arquitetura é mais flexível que uma fileira de bases. A Colômbia ingressou na A3C. Hegseth afirma que Bogotá autorizou operações militares conjuntas; o governo colombiano condiciona a cooperação à Constituição, à soberania e ao direito internacional. Áreas de atuação e regras de engajamento continuam desconhecidas. No Paraguai, o SOFA oferece o marco jurídico para a atuação conjunta, enquanto o 7º Grupo de Forças Especiais conduz treinamentos apoiados por US$ 11 milhões. Na Argentina, um centro regional financiado por Washington integra dados sobre organizações criminosas e cita expressamente PCC e Comando Vermelho. A Bolívia retomou a cooperação antidrogas com os Estados Unidos, amparada por até US$ 20 milhões, e lançou separadamente com o Brasil o plano Fronteiras Seguras, cuja comunicação oficial já chama as facções de “narcoterroristas”.
Essas iniciativas possuem governos e alcances distintos. Não provam uma operação coordenada contra o Brasil. Criam, porém, corredores verificáveis de inteligência, interoperabilidade e acesso junto à Amazônia, ao Pantanal e à Tríplice Fronteira.
O Brasil participa do PANAMAX e coopera militarmente com os Estados Unidos, mas não integra a A3C. Também não há prova de base permanente ou plano de ataque dirigido ao país. O que diminuiu foram as barreiras jurídicas, logísticas e informacionais para movimentar forças ao redor de seu território. A projeção contemporânea dispensa ocupação: precisa de sobrevoo, comunicações seguras, inteligência compartilhada e um governo disposto a consentir. O risco não está num cerco de bandeiras, mas numa rede de permissões. Quando acesso, dados, classificação e comando convergem, a distância entre cooperação e operação pode reduzir-se a uma ordem presidencial.
O próprio Itamaraty retirou o risco do terreno da especulação. Em resposta oficial à Câmara, advertiu que a designação pode produzir medidas unilaterais e extraterritoriais contra pessoas e empresas brasileiras, mesmo quando sua ligação com as facções seja indireta ou involuntária. Pode penalizar atividades lícitas, elevar custos financeiros e chegar ao uso da força militar. Uma decisão de Washington alcança o direito interno e a soberania nacional.
Num país em que organizações criminosas constrangem territórios e cadeias econômicas, a amplitude do conceito de “apoio material” desloca o risco para baixo. Trabalhadores, moradores e pequenos negócios podem ter de provar que não colaboraram com quem os coagiu. Bancos podem cortar contas, crédito e contratos para reduzir sua exposição. A periferia paga primeiro. A sanção concebida em Washington converte-se em disciplina de classe no Brasil.
Isso não absolve as facções. Elas devem ser desmanteladas no dinheiro, nas armas, nos presídios, na lavagem e na corrupção, sob a lei brasileira. A disputa é sobre quem define o crime e comanda a força. Se uma decisão presidencial secreta pode converter uma organização que atua no Brasil em alvo militar, Washington se apropria de uma atribuição elementar do Estado brasileiro: decidir como a violência em seu território será enfrentada. O alvo estratégico deixa de ser apenas a facção. Passa a ser a soberania do Brasil sobre o próprio conflito.
O gatilho provavelmente não se apresentará como guerra. Poderá surgir como ataque contra agentes de um país vizinho, embarcação destruída, drone abatido ou chacina próxima à fronteira. Atribuído rapidamente ao PCC ou ao Comando Vermelho, o episódio seria seguido por inteligência norte-americana indicando dirigentes, armas ou infraestrutura no lado brasileiro. Um governo parceiro pediria apoio; a JTF-WHEM forneceria vigilância, planejamento e localização. Brasília seria pressionada a agir ou conceder acesso. A recusa poderia ser convertida em prova de incapacidade, indisposição ou cumplicidade. Perseguição transfronteiriça, ataque de precisão ou incursão curta apareceriam então como respostas inevitáveis, executadas antes que a diplomacia e o direito alcançassem a operação.
Não existe evidência de uma false flag preparada contra o Brasil. A fabricação integral de um acontecimento deve permanecer onde a prova a mantém: no campo das possibilidades. O cenário mais plausível é a captura política de um fato verdadeiro ou sua atribuição precoce e manipulada. Washington não precisaria inventar os mortos. Bastaria controlar o significado de suas mortes.
O terreno decisivo seria o tempo. A primeira narrativa definiria o culpado; o sigilo impediria a verificação; a urgência comprimiria a soberania brasileira. Nesse modelo, o casus belli não precisa ser descoberto. Pode ser produzido pela administração do incidente.
O Brasil não pode esperar o incidente para descobrir que perdeu a iniciativa. O Itamaraty deve exigir de Washington esclarecimento formal sobre a presença de PCC ou Comando Vermelho na lista militar secreta. O Congresso precisa controlar o compartilhamento de inteligência e qualquer presença operacional estrangeira. Com os vizinhos, Brasília deve propor um pacto que proíba perseguições e ataques transfronteiriços sem consentimento expresso, imponha investigação forense conjunta e vede respostas militares antes da apresentação das provas.
Nas fronteiras, o país necessita de comando permanente que integre Polícia Federal, Receita, Abin e Forças Armadas, com orçamento protegido, radares, satélites, drones e rastreamento aéreo e fluvial. A legislação brasileira já atribui às Forças Armadas ações preventivas e repressivas contra delitos transfronteiriços e estabelece limites para o trânsito ou a permanência de forças estrangeiras. O que falta é transformar competência jurídica em capacidade contínua. Soberania exige inteligência controlada pelo país, dados auditáveis e força submetida à Constituição.
Nada disso autoriza importar a guerra permanente para dentro. As facções devem ser golpeadas no dinheiro, nas armas, nos presídios, na lavagem e na corrupção, sem converter favelas, periferias e populações negras em território inimigo. Se o Estado reproduzir contra seu povo a doutrina que denuncia em Washington, trocará a soberania externa por uma guerra colonial interna. Terá sido derrotado antes do primeiro ataque.
Não há prova pública de que Washington tenha ordenado uma operação contra o Brasil. Há algo suficientemente grave: doutrina hemisférica, classificação militar secreta, campanha letal, inteligência reorientada, comando operacional, coalizão, acesso regional e precedentes terrestres. Entre essa arquitetura e o território brasileiro faltam uma decisão política e o acontecimento capaz de legitimá-la. Essa distância já não é geográfica. É presidencial.
Soberania não começa depois da explosão. É a capacidade de produzir inteligência própria, controlar fronteiras, desarmar as facções sob a lei brasileira e impedir que outro Estado capture a narrativa de um incidente. Se o Brasil não puder determinar o que aconteceu em seu território, abrirá espaço para que Washington determine o que pode fazer dentro dele.
A guerra silenciosa já se move pelas fronteiras. O Brasil está na mira não porque o ataque esteja comprovado, mas porque os meios para realizá-lo estão montados e agora alcançam conflitos brasileiros. O momento de fechar os pontos cegos é antes que uma potência estrangeira os transforme em coordenadas.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>