Economista confirma: Flávio Bolsonaro é contra o fim da escala 6×1

Há frases que dispensam interpretação. Elas se denunciam sozinhas, como um réu confesso que, ao tentar se defender, apenas agrava a própria sentença. “O cara tem que ter liberdade para trabalhar o quanto ele quiser.”

A autora é Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e coordenadora do plano econômico de Flávio Bolsonaro. O palco: o 25º Fórum Empresarial Lide, no Rio de Janeiro, templo do empresariado brasileiro criado por João Dória. A plateia: donos de capital. O assunto: a escala 6×1, essa engrenagem que mói corpos de domingo a domingo e devolve ao trabalhador, num dia qualquer da semana, o tempo exato de dormir, comer e se preparar para recomeçar.

Para Daniella, reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanais — com dois dias de descanso — é “populismo”. É “ficção”. É “inócuo na realidade atual das famílias brasileiras”.

O que não é ficção, ao que parece, é a realidade da atendente de farmácia que acorda às cinco da manhã, pega dois ônibus, trabalha dez horas em pé e volta para casa às dez da noite, seis dias por semana, para ganhar um salário mínimo que mal cobre o aluguel. Essa realidade, para a coordenadora econômica do bolsonarismo, não merece correção. Merece “liberdade”.

A ‘liberdade’ do mais fraco

Daniella Marques fala sobre o programa de governo de Fávio Bolsonaro no 25º Fórum Empresarial Lide. Foto: Divulgação

O argumento central de Daniella é de uma sofisticação retórica que beira o cinismo. “O problema não é a 6×1. O problema é a falta de liberdade do cidadão para discutir o seu contrato com o empregador, sem o Estado interferir.” Traduzindo: o problema não é a exploração; o problema é a lei que impede a exploração absoluta.

A “liberdade” que a ex-presidente da Caixa defende é a do trabalhador desprotegido, sem sindicato forte, sem legislação trabalhista, sentado à mesa de negociação com o patrão — sozinho, sem alternativa, sem poder de recusa.

“Deveríamos ter todas as jornadas permitidas, cabendo ao trabalhador e ao empregador decidirem.” Todas. Inclusive, presume-se, a de sete dias sem folga. Inclusive a de doze horas diárias. A “liberdade” de escolher entre a exaustão e a fome.

Não é novidade. É a velha cantilena do liberalismo de botequim, reciclada com vocabulário de MBA, o mestrado de empreendedorismo: “ampliar liberdade” significa, na prática, desregulamentar até o osso. O Estado que “interfere” na jornada é o mesmo que impede que o trabalhador seja literalmente consumido pela máquina produtiva. Chamar proteção de “interferência” é chamar cinto de segurança de “restrição à liberdade do motorista”.

A cara de pau de quem defende o insuportável

Daniella chama o fim da 6×1 de “debate populista”. Vale examinar o uso da palavra. Populismo, no dicionário político, é apelar ao povo com promessas fáceis. O que há de “fácil” em conceder a um ser humano o direito de descansar dois dias por semana? O que há de “populista” em dizer que ninguém deveria trabalhar seis dias consecutivos sem folga, numa época em que a tecnologia já automatizou boa parte do trabalho braçal?

Populismo, na verdade, é o inverso: é chamar de “custo enorme” o direito ao descanso. É tratar a saúde física e mental do trabalhador como externalidade contábil. É dizer, num fórum de empresários, que “quem produz não vai ter condição” de arcar com a humanidade de seus empregados. A frase revela a cosmovisão: o trabalhador não é sujeito de direitos; é insumo. E insumo não descansa. Insumo se deprecia e se substitui.

O ajuste que não toca nos de cima

No mesmo discurso em que defende a 6×1, Daniella promete “combater privilégios” e “supersalários”. Fala em reduzir ministérios, digitalizar processos, cortar despesas operacionais. Propõe um “Conselho de República” para discutir o excesso remuneratório do Judiciário. Tudo muito bonito no papel.

Mas quando perguntada sobre a regra de reajuste do salário mínimo — que indexa aposentadorias e benefícios —, a resposta é um monumento à evasiva: “A política é que vai decidir.” Quando questionada sobre a estabilidade dos servidores, idem: “Isso está sendo discutido.”

Ou seja: para o trabalhador da base, a “liberdade” de negociar sozinho e a manutenção da jornada exaustiva. Para o andar de cima, a promessa vaga de que “o Estado vai olhar para si mesmo”. Sem números. Sem estimativas. Sem impacto fiscal calculado. O plano econômico de Flávio Bolsonaro, apresentado por sete PhDs e uma ex-presidente da Caixa, ainda não consegue responder à pergunta mais básica: quanto custa?

O espelho de Paulo Guedes

A lista de nomes que reforçam a equipe econômica de Flávio é reveladora: Alexandre Messa, Alexandre Ywata, Myrian Prado, Andrei Spacov, Arilton Teixeira, Eduardo Cavendish Carvalho e Vladimir Kühl Teles, muitos deles egressos da desastrosa gestão de Paulo Guedes no governo Jair Bolsonaro. O mesmo Guedes que chamou servidores de “parasitas”, que defendeu a “passada da boiada” regulatória, que viu na pandemia uma “oportunidade” de reformas.

O bolsonarismo econômico não mudou de ideia. Mudou de embalagem. Onde Guedes era brutal, Daniella é “técnica”. Onde Guedes era explícito, Daniella é “liberdade”. O conteúdo é o mesmo: o trabalhador como variável de ajuste, o Estado como obstáculo, o mercado como tribunal supremo.

A presença desses nomes sinaliza a intenção de retomar a cartilha de austeridade seletiva e desregulamentação trabalhista que marcou o governo anterior. Enquanto critica a atual política econômica de Lula, acusando-a de fazer “expansão de caixa” e questionando “quem paga a conta”, a equipe de Flávio evita a todo custo detalhar como lidará com as despesas obrigatórias.

O contraste que condena

Enquanto Daniella fala em “ficção” no Lide, o governo Lula apoia uma PEC que reduz a jornada para 40 horas semanais e extingue a 6×1. O presidente, candidato à reeleição, transformou a bandeira em eixo de campanha. A proposta tramita no Congresso com relatoria aliada ao Planalto. Não é promessa de palanque: é projeto de emenda constitucional em andamento.

O contraste é o que torna a fala de Daniella tão politicamente tóxica. Não se trata de uma divergência técnica sobre modelos de jornada. Trata-se de uma escolha civilizatória. De um lado, a ideia de que o descanso é um direito. Do outro, a ideia de que o descanso é um “custo enorme” que “quem produz” não pode pagar. De um lado, o trabalhador como cidadão. Do outro, o trabalhador como “o cara” que precisa de “liberdade” para ser explorado.

O veredito das ruas

Daniella Marques pode achar que a 6×1 é um “debate inócuo”. Mas as ruas, as redes e as pesquisas dizem o contrário. O fim da escala 6×1 é uma das pautas de maior adesão popular no Brasil de 2026. Não é “populismo”: é demanda concreta de milhões de brasileiros que não aguentam mais viver para trabalhar. Chamar essa demanda de “ficção” é, no mínimo, um ato de desconexão. No máximo, um ato de crueldade.

A coordenadora econômica de Flávio Bolsonaro encerrou sua participação no Lide dizendo que “não há moral de Brasília para discutir nenhuma medida estruturante em relação a qualquer programa, se não cortar na própria carne”. A frase é boa. Pena que a “carne” que ela se recusa a cortar é justamente a mais óbvia: a da jornada desumana que esmaga, todos os dias, quem sustenta com o próprio corpo o lucro que os donos do Lide celebram em seus fóruns.

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