
O ex-funcionário da Meta Arturo Béjar relatou a um júri na Califórnia que sua filha, então com 14 anos, passou a receber pedidos de sexo e imagens íntimas de desconhecidos depois de criar uma conta no Instagram. “Ela começou a receber pedidos de sexo e fotos de partes íntimas de pessoas que ela não conhecia”, disse. “Achei isso chocante.”
Béjar depôs em um processo movido por procuradores-gerais de quatro estados dos EUA contra a empresa de Mark Zuckerberg. A ação acusa a Meta de desenhar Facebook e Instagram para estimular o uso compulsivo entre jovens e de coletar dados de usuários com menos de 13 anos, em violação de regras federais de privacidade.
O ex-engenheiro trabalhou seis anos com ferramentas de segurança infantil no Facebook e afirmou que só dimensionou as ameaças enfrentadas por adolescentes após a experiência da filha. Ela mantinha uma conta pública no Instagram, onde publicava sobre carros, segundo o relato apresentado no tribunal.
Durante sua passagem pela empresa, Béjar disse que executivos conheciam os “danos significativos” sofridos por jovens nas plataformas, mas não adotaram mudanças ou recursos com impacto mensurável. “Os jovens, em particular, estavam sofrendo danos em taxas elevadas e não estavam recebendo a atenção, a investigação, o apoio ou a reparação de que precisavam”, testemunhou.

Meta nega irregularidades e questiona testemunha
A Meta negou irregularidades e afirmou que aprimora continuamente ferramentas de proteção a crianças. A companhia também classificou como “absurdas” as penalidades defendidas pelos estados, que podem variar de US$ 193 bilhões a US$ 1,4 trilhão caso a Justiça aceite as acusações.
Brian Stekloff, advogado da Meta, questionou Béjar sobre sua atuação anterior na companhia e perguntou se ele havia conseguido resolver todos os problemas de segurança enquanto trabalhava no Facebook. “O dano não é uma equação matemática que se resolve para chegar a zero”, respondeu o ex-funcionário.
Stekloff também destacou que Béjar permitiu que a filha mantivesse a conta pública mesmo depois de ele conhecer os riscos das redes sociais. O ex-consultor respondeu que acompanhou os episódios de abuso com a adolescente. “Meu papel como pai era apoiá-la para lidar com isso”, afirmou.
Béjar entrou no Facebook em 2009 como gerente de segurança, deixou a empresa em 2015 para cuidar dos filhos e retornou em 2019 como consultor da equipe de bem-estar da plataforma. Ele saiu definitivamente em 2021, ano em que a ex-gerente de produto Frances Haugen divulgou documentos internos sobre os efeitos das plataformas da Meta sobre jovens, especialmente meninas com problemas de autoimagem.
Antes do julgamento em Oakland, a Meta tentou impedir o depoimento de Béjar, sob o argumento de que ele usou aplicativos com mensagens que se apagam automaticamente para falar com ex-funcionários sobre o caso. A juíza distrital Yvonne Gonzalez Rogers rejeitou o pedido na véspera do início da audiência.
O processo reúne os procuradores-gerais da Califórnia, Colorado, Kentucky e Nova Jersey. A acusação informou aos jurados que pretende chamar outros seis ex-funcionários da Meta, além do CEO Mark Zuckerberg e do chefe do Instagram, Adam Mosseri.