O balanço que sobreviveu ao tempo: a trajetória de Branca di Neve, por Daniel Costa

O balanço que sobreviveu ao tempo: a trajetória de Branca di Neve

por Daniel Costa

Você sabe a cor de Deus?
Quem sabe não revela
Em vez do apartheid, aperta a mão do negro
O negro tem direito de viver
Negro é amor, negro é a paz, não quer a guerra
O negro também é a esperança desta terra
A Cor de Deus (Luiz Carlos Xuxu, Branca di Neve, Mazinho Xerife)

É consenso entre os pesquisadores da música popular em suas diversas variantes que, apesar da aparente simplicidade, ela carrega uma complexidade estética e social que o olhar apressado e a tendência ao consumo imediato frequentemente ignoram. Partindo dessa premissa e seguindo a provocação do músico e compositor Maurício Pereira sobre as “complicações da música simples”, é possível analisar a trajetória de Nelson Fernando de Moraes, o Nelsinho da Bela Vista, mais conhecido como Branca di Neve, como um caso exemplar dessa densidade oculta sob a superfície do sucesso comercial. Nascido em São Paulo em 1951, Branca di Neve construiu sua carreira na confluência do samba com o rock, num movimento que se tornaria característico da produção musical paulistana. Sua trajetória é marcada por uma dupla condição: a de músico de primeira linha, tanto no palco quanto em estúdio, e a de artista que alcançou as paradas de sucesso nacional. Antes de gravar seu primeiro disco solo, passou pelos Originais do Samba e acompanhou nomes como Jorge Ben, Baden Powell, Toquinho e Nara Leão.

Com seu balanço e estilo, Branca di Neve foi um dos principais expoentes do samba-rock, estilo que representava uma diluição do samba tradicional para torná-lo acessível a um público mais amplo. Cabe dizer que diluição, aqui, não significa empobrecimento, mas sim um processo que transformava elementos da tradição do samba em uma linguagem contemporânea em diálogo com a black music norte-americana. O samba-rock, uma das matrizes do que depois seria chamado de pagode paulistano, carrega a contradição da indústria apontada por Pereira: ela tenta ao máximo manter as coisas como estão, mas só sobrevive se houver invenção. A invenção de Branca di Neve estava em sua capacidade de modernizar a linguagem do samba incorporando elementos do pop, do jazz e do funk. Sua voz, que em alguns momentos remetia a Luiz Melodia, somada aos sopros swingados do estilo, criava uma sonoridade única. O samba-rock representava a possibilidade de atualizar o samba sem perder sua essência, tornando-o palatável para um público jovem e urbano já acostumado com os ritmos do rock e do funk.

O cantor levava essa proposta a sério em todos os aspectos de sua apresentação. A beleza do visual que ele e sua banda construíam combinava com o som, numa estética que remetia aos conjuntos e cantores norte-americanos. A banda Mandela trajava batas com notas musicais estampadas no peito, criando uma identidade visual que reforçava a mensagem musical. Esse cuidado com a imagem não era superficial; tratava-se de uma estratégia para afirmar a dignidade do sambista num contexto midiático que frequentemente o subalternizava. A performance de Branca di Neve na televisão revelava uma consciência estética que ia além da música. Ao contrário da maioria dos sambistas, que na época não caprichavam nas roupas quando apareciam na televisão, Branca di Neve optou pelo uso de smoking ou blazers bem cortados. Essa escolha não representava mero capricho; era uma afirmação de dignidade e uma referência política à luta contra o apartheid na África do Sul. O cantor compreendia que a aparência no palco e na televisão era parte integrante da mensagem artística, e que um artista negro vestido com elegância desafiava os estereótipos que frequentemente acompanhavam os sambistas na mídia.

Essa dimensão política se explicita na composição “A Cor de Deus”, composta em parceria com Luiz Carlos Xuxu e Mazinho Xerife, trazida acima na epígrafe e dedicada ao bispo Desmond Tutu. A letra da canção, que em vez do apartheid propõe apertar a mão do negro e afirma seu direito de viver, mostra a preocupação de um artista negro com as lutas diaspóricas, ecoando o tema do racismo e da resistência que perpassa também sua releitura de “Nego Dito”, composição de Itamar Assumpção. A canção foi apresentada ao bispo Tutu em sua visita à Bahia em 1987, organizada por entidades do movimento negro como o Olodum.

A relação de Branca di Neve com “Nego Dito” merece atenção especial. Itamar, um dos expoentes da Vanguarda Paulista e um dos artistas chamados de “malditos” da MPB por não se encaixarem no padrão das rádios comerciais e das gravadoras, compôs a música como uma releitura ficcional de sua própria trajetória. A letra apresenta um personagem que se apresenta como Benedito João dos Santos Silva Beleléu. “Benedito” pode ser uma referência ao santo negro da Igreja Católica, padroeiro da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Penha. “João dos Santos Silva”, nome e sobrenomes comuns no Brasil, aponta que existem vários Nego Dito no país. “Beleléu”, gíria que pode significar fracasso, representaria um personagem sem possibilidade de sucesso.

Ao regravar a canção, Branca di Neve transformou seu sentido original. A roupagem completamente diferente alterou a percepção da faixa, que ganhou uma dimensão de afirmação da identidade negra por meio do ritmo e do balanço. A versão de Branca di Neve para a canção ainda viria a aparecer no disco póstumo Branca Mete Bronca Volume 2, lançado em 1989, pouco após sua morte. O álbum conta ainda com “Fico Louco”, outra composição de Itamar Assumpção, que também seguiu um caminho bem diferente da versão original.

Para compreender plenamente a obra de Branca di Neve, é necessário situá-la no contexto da cidade de São Paulo e de suas transformações culturais. Em meados das décadas de 1960 e 1970, quando o artista começou sua carreira, o samba enfrentava dificuldades para tocar nas rádios paulistanas. Uma das únicas trincheiras do gênero nessa época era o programa “O Samba Pede Passagem”, apresentado pelo radialista Moisés da Rocha. Foi nesse programa que o samba paulistano encontrou um espaço de resistência, permitindo que novas gerações de sambistas fossem ouvidas.

Branca di Neve aprendeu a tocar violão inspirado no balanço de Jorge Ben, enquanto tocava surdo no final da década de 1960, aos 18 anos, em conjuntos que se apresentavam na noite paulistana. Essa experiência inicial foi fundamental para desenvolver sua técnica e seu estilo. Na década de 1970, fez parte do Trama Trio e passou a acompanhar o cantor Bebeto. Nessa época, tornou-se muito requisitado para gravações em estúdio por causa de seu modo de tocar surdo, cuja batida tinha o som de um contrabaixo, algo que poucos ritmistas conseguiam.

O bairro do Bixiga, onde nosso personagem cresceu, era um território de intensa efervescência cultural. As ruas do bairro concentravam uma população negra que encontrava no samba uma forma de sociabilidade. Era no Bixiga, no boteco que ficava diante da quadra do Vai-Vai, que Branca di Neve costumava aparecer de violão em punho, cantando para uma roda de compositores e simpatizantes da alvinegra do carnaval paulistano. Foi nesse ambiente que, num domingo de 1985, ele cantou pela primeira vez dois versos de um samba-rock: “Você sabe a cor de Deus? quem sabe não revela”, garantindo que iria gravar um LP. A maioria dos presentes não levou a sério, porque era comum na época sambista prometendo disco que nunca se tornava realidade. Meses depois, ele estourava nas paradas com o álbum Branca Mete Bronca!, lançado pela Continental.

Essa relação com o Bixiga e com o Vai-Vai é um aspecto fundamental de sua trajetória. Ele era frequentador assíduo dos ensaios da escola e das rodas de samba na região, mantendo laços estreitos com a comunidade.

O álbum de estreia sumiu das lojas rapidamente, com várias canções tocando nas rádios, principalmente no programa “O Samba Pede Passagem” e no “Sambalanço”, da rádio Manchete. O hit “Boca Louca”, composição de Zelão, então cobrador de ônibus da extinta CMTC e compositor de memoráveis sambas-enredo ao lado de Ideval Anselmo, levou nosso personagem ao programa Perdidos na Noite, apresentado por Fausto Silva e gravado no Teatro Zaccaro, localizado na Rua Rui Barbosa. O sucesso do disco era fruto de um trabalho cuidadoso de construção de repertório, que incluía composições de outros expoentes do samba-rock como Bedeu, Luis Vagner e Marku Ribas, além de compositores como Waldir da Fonseca e Antonio Marcos.

A morte de Branca di Neve, aos 38 anos, em agosto de 1989, interrompeu uma trajetória ascendente. O acidente vascular cerebral impediu que ele pudesse terminar o segundo álbum, Branca Mete Bronca! volume 2, que seria lançado postumamente pela Continental.

Apesar do fim precoce, sua influência permaneceu viva. Sua contribuição para o samba vai além de suas composições e gravações. Branca di Neve representa uma ponte entre diferentes momentos da música popular brasileira, ligando o samba tradicional dos anos 1960 e 1970 ao pagode e ao samba-rock que explodiriam nos anos 1980. Sua capacidade de incorporar elementos do pop, do jazz e do funk ao samba, sem perder a essência do gênero, antecipou um movimento que se consolidaria na década seguinte no chamado pagode paulista.

A história de Branca di Neve é também a história de uma resistência musical em São Paulo. Como bem observou Itamar Assumpção, Branca di Neve era um artista “mais preto” que ele, numa brincadeira que apontava para uma verdade profunda: sua música era uma expressão autêntica da experiência negra paulistana. Ao contrário de muitos artistas que buscavam se adaptar ao gosto do mercado, ele reforçou sua identidade e origem. Essa afirmação se dava não apenas no conteúdo das letras, mas também na própria forma musical, na escolha dos instrumentos, no balanço, construindo uma sonoridade inconfundivelmente negra e inconfundivelmente paulistana, ao mesmo tempo em que dialogava com outros ritmos.

Branca di Neve ocupa um lugar ambíguo na história da música brasileira: nem o sucesso comercial pleno, apesar de ter estourado nas paradas, nem o reconhecimento acadêmico posterior. Sua obra, como a de outros artistas “malditos” ou marginalizados, desafia a classificação quase automática dos algoritmos. O fato de que continue sendo redescoberta e celebrada décadas após sua morte a mantém como um capítulo fundamental dessa história, um exemplo da riqueza que se esconde nas complicações da música simples.

Daniel Costa é historiador, jornalista, compositor e integrante do G.R.R.C. Kolombolo diá Piratininga.

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