Entenda os mecanismos que regem as dívidas do Brasil e dos EUA

A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões em agosto de 2026, segundo dados do Departamento do Tesouro norte-americano. O valor representa mais que o dobro do registrado no início de 2017 e consolida o país como o maior devedor do planeta em termos absolutos. A relação dívida/PIB americana chega a 125,8%, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).Apesar do volume impressionante, a estrutura financeira global permite que o custo de financiamento americano continue moderado. O juro real de 10 anos (TIPS) gira entre 2,35% e 2,41%, garantindo que o pagamento líquido de juros comprometa apenas 3,3% do PIB dos EUA, evidenciando o privilégio de emitir a moeda de reserva internacional.

A comparação com o Brasil e a assimetria do sistema

No Brasil, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) atingiu 81,9% do PIB em junho de 2026 (R$ 10,81 trilhões), segundo o Banco Central, nível bem inferior ao norte-americano. No entanto, o custo de carregar essa dívida é desproporcionalmente mais elevado.

A taxa de juros implícita da dívida – custo médio real pago pelo Estado sobre o estoque de papéis – chegou a 13,2% em 12 meses. Títulos indexados à inflação (NTN-B) oferecem taxas reais entre 6% e 8%, enquanto o gasto com juros nominais alcança até 8,8% do PIB, o triplo do peso observado nos EUA. Para agravar o quadro, quase metade da Dívida Pública Federal está atrelada à taxa Selic (em 14% ao ano), transferindo continuamente recursos públicos para o setor financeiro.

O desafio da rolagem e o torniquete financeiro

Um ponto crítico é a necessidade constante de refinanciar (rolar) os títulos que vencem. No Brasil, o Tesouro precisa rolar de R$ 140 bilhões a R$ 150 bilhões por mês. Em agosto de 2026, um único vencimento de NTN-B somou R$ 257 bilhões. Concentrado em papéis de curto prazo e na Selic (LFT), o governo fica refém de rentabilidades elevadas cobradas pelo mercado, que exige taxas reais acima de 8% para títulos longos.

Nos EUA, a rolagem soma US$ 9,7 trilhões em 2026. Beneficiada pelo status do dólar como moeda de reserva mundial e pela profundidade do mercado de títulos, a dívida norte-americana tem prazos médios maiores (5,9 anos contra 4 anos do Brasil) e custos nominais incomparavelmente mais baixos.

Os limites da austeridade e o contexto global

O debate fiscal dominante na política econômica impõe um torniquete sobre os investimentos públicos e os serviços sociais para conter a dívida, sem questionar o custo do financiamento.

Segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI), para estabilizar a dívida em relação ao PIB seria necessário superávit primário no orçamento de 2,1% ao ano, podendo chegar a 4% com juros altos. Ou seja, considerando essas projeções e a atual meta inflacionária, o Estado ficaria paralisado para fazer frente às necessidades de investimentos para induzir ao crescimento do próprio PIB.

Leia mais: Dívida dos EUA ultrapassa US$ 40 trilhões e mais que dobra em menos dez anos

Não é o tamanho, é a estrutura do custo da dívida

Projeções do FMI para 2026 mostram que o Japão lidera o endividamento (204% do PIB), seguido por Itália (138%), EUA (125,8%), França (118%) e China (107%). O Brasil surge com 96,5% na metodologia FMI. Ou seja, o Brasil não está entre os países com maior dívida relativa.

O problema central não é o tamanho da dívida em si, mas o preço que se paga por ela. Enquanto economias avançadas com dívidas muito maiores conseguem se financiar a juros reais baixos ou moderados, o Brasil enfrenta um dos custos reais de endividamento mais elevados entre as grandes economias.

Perspectivas

Enquanto nos EUA o debate orbita o volume absoluto da dívida, no Brasil o entrave é o preço do financiamento. Os juros reais elevados transferem riqueza coletiva para rentistas e limitam o papel indutor do Estado. Superar essa vulnerabilidade exige rever a política monetária, mudar a indexação da dívida e combater o oligopólio financeiro.

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