O Irã avalia atacar instalações militares dos Estados Unidos na Europa caso Donald Trump volte a atacar o país, enquanto Washington aumenta a pressão econômica sobre Teerã e as negociações permanecem travadas.
A possibilidade de levar a resposta iraniana para além do Oriente Médio foi relatada por duas fontes próximas ao governo do Irã ao Financial Times. Segundo elas, os planos dependem das próximas ações dos Estados Unidos e incluem alvos no sul e no sudeste da Europa.
A sinalização ocorre no momento em que Trump aumenta a pressão sobre Teerã. Nesta quarta-feira (19), o presidente norte-americano anunciou o que chamou de “guerra econômica” contra o Irã e prometeu impor consequências a países que continuarem oferecendo apoio financeiro ou logístico à República Islâmica.
Trump afirmou que Washington prepara uma operação de isolamento econômico em escala inédita e disse que governos cujas instituições financeiras, empresas ou estruturas públicas contribuam para manter a economia iraniana em funcionamento poderão ser alvo de medidas dos Estados Unidos.
Ele não detalhou quais sanções serão adotadas nem indicou quais países pretende atingir.
A China, principal compradora do petróleo iraniano, está entre os países potencialmente atingidos pela nova ofensiva econômica norte-americana. Pequim defendeu uma saída diplomática para a guerra e advertiu contra novas medidas de pressão econômica.
Bases dos EUA na Europa
Segundo o Financial Times, militares iranianos analisam a possibilidade de atingir ativos norte-americanos em países como a Bulgária. Em julho, o governo búlgaro autorizou aviões de reabastecimento dos Estados Unidos a operar a partir da base aérea de Bezmer.
O Chipre também aparece entre os locais estudados. A ilha abriga a base britânica de Akrotiri, utilizada por forças ocidentais e chegou a ser atingida por um drone em março. Autoridades do ocidente atribuíram o episódio a forças aliadas ao Irã, embora não tenham apontado um lançamento direto do território iraniano.
As forças iranianas também estudaram atingir cabos submarinos de fibra óptica no Estreito de Hormuz em caso de uma nova escalada militar.
A Guarda Revolucionária já havia advertido no mês passado que qualquer instalação estrangeira utilizada para lançar ataques contra o território iraniano passaria a ser considerada alvo militar.
Uma das fontes ouvidas pelo FT afirmou que Teerã prepara alternativas para responder caso Trump cumpra declarações anteriores de atacar infraestrutura civil iraniana. O presidente norte-americano chegou a dizer que os EUA poderiam destruir uma ponte ou uma usina elétrica do Irã a cada ataque contra navios no Estreito de Hormuz.
Outra fonte afirmou que, em caso de uma nova agressão dos Estados Unidos, o Irã poderia deixar de concentrar sua resposta no Oriente Médio e passar a atingir alvos norte-americanos também na Europa.
“Se os EUA forem longe demais, o Irã se defenderá a qualquer custo, irá além da região e atingirá também a Europa”, afirmou ao jornal.
Negociações paralisadas
A nova escalada ocorre depois do fracasso do memorando firmado em junho entre Washington e Teerã. O entendimento previa medidas para reduzir as hostilidades, reabrir plenamente o Estreito de Hormuz e abrir caminho para um acordo mais amplo.
O acerto entrou em colapso em julho, após novos confrontos e acusações mútuas de descumprimento. Desde então, as tentativas diplomáticas não conseguiram produzir um acordo para normalizar a navegação pelo estreito e avançar nas demais negociações.
Trump afirmou na terça-feira (18) que não havia negociações em andamento ou programadas com o Irã. A declaração, porém, entrou em choque com informações divulgadas por integrantes de seu próprio governo sobre a continuidade dos contatos diplomáticos.
Em Teerã, a falta de resultados abriu mais espaço no comando político e militar para setores que defendem uma resposta mais dura aos Estados Unidos. O líder supremo, aiatolá Mojtaba Khamenei, promoveu na semana passada dirigentes dessa ala para cargos centrais na estrutura de segurança iraniana.
Entre eles está Mohsen Rezaei, ex-comandante da Guarda Revolucionária, nomeado para um dos postos mais importantes da área de segurança. A mudança ocorre enquanto diminui a influência de dirigentes ligados diretamente à negociação com Washington.