O senador Flávio Bolsonaro (PL) continua sem mostrar ao país o destino dos R$ 134 milhões negociados para financiar Dark Horse, filme de promoção política de Jair Bolsonaro. Nesta quinta, 20, completam-se 93 dias desde que o candidato da extrema direita prometeu apresentar uma prestação de contas detalhada da produção.
O compromisso foi assumido em 19 de maio, depois da divulgação dos áudios que revelaram a negociação de US$ 24 milhões (aproximadamente R$ 134 milhões), com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, que está preso. Flávio deu prazo de 30 dias para a entrega das informações.
“Pedi à produtora para que se organizassem para fazer uma prestação de contas das despesas de todo mundo, de forma transparente”, afirmou o senador diante de jornalistas.
Na mesma ocasião, Flávio disse ter solicitado que os valores investidos por Vorcaro fossem separados e colocados à disposição das autoridades após o lançamento do longa. Nada disso aconteceu publicamente.
O prazo venceu em 19 de junho. Passados outros 61 dias, o relatório detalhado, as notas fiscais, os contratos, os extratos e os comprovantes de pagamento continuam sem aparecer.
Nada dos contratos
A Go Up Entertainment chegou a anexar a um inquérito policial em São Paulo uma perícia privada contratada pela defesa da proprietária da produtora. O documento declara que Dark Horse custou aproximadamente R$ 75 milhões, dos quais R$ 54,2 milhões teriam sido gastos nos Estados Unidos e R$ 20,9 milhões no Brasil.
O laudo, porém, não identifica quem recebeu o dinheiro, não detalha os serviços contratados e não apresenta as notas fiscais ou os contratos que permitiriam conferir as despesas. Também não informa quem abasteceu o fundo norte-americano usado para financiar a produção.
Há ainda uma diferença que Flávio nunca explicou. A perícia afirma que o orçamento inicial do filme era de aproximadamente R$ 89,7 milhões. O candidato, no entanto, negociou com Vorcaro R$ 134 milhões. Por que pediu ao banqueiro quase R$ 45 milhões a mais do que o orçamento aprovado?
Quando a antiga pré-campanha foi questionada sobre o vencimento do prazo, tentou transferir a responsabilidade para a produtora. Afirmou que o assunto deveria ser tratado exclusivamente com a Go Up e que não teria relação com Flávio Bolsonaro. A promessa, porém, foi feita pelo próprio candidato.
41 notas fiscais e apenas três conhecidas
A falta de transparência não se limita ao filme. Conforme levantamento publicado pelo Estadão, a Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia emitiu pelo menos 41 notas fiscais entre 2021 e 2025.
O escritório foi aberto em abril de 2021 e funciona, formalmente, no endereço da mansão do senador no Setor de Mansões Dom Bosco, em Brasília. A atividade de advocacia foi apresentada pelo próprio Flávio como uma das fontes de renda usadas para pagar o imóvel.
Das 41 notas, somente três vieram a público. Todas têm o mesmo valor: R$ 500 mil.
Duas foram emitidas em 7 de abril de 2025 para a Copenhagen Consultoria e Assessoria e canceladas no mesmo dia. A terceira foi emitida dois dias depois para a Contábil Correa, sem registro de cancelamento.
A Copenhagen, criada com capital social de apenas R$ 40, recebeu R$ 58 milhões do Banco Master e é apontada como uma empresa usada na estrutura financeira de Daniel Vorcaro. A companhia não tinha sede própria nem site e estava registrada no mesmo endereço da Contábil Correa.
As duas empresas também estão ligadas ao contador Rogério Lourenço Novo, diretor da Copenhagen e único sócio da Contábil Correa. Foi dele que o escritório de Flávio Bolsonaro recebeu os R$ 500 mil.
Ao responder à reportagem sobre as notas, Flávio afirmou que prestou assessoria jurídica à Contábil Correa. Disse ainda que a contratação pela Copenhagen não avançou e, por isso, as duas notas foram canceladas. Também alegou que desconhecia qualquer ligação das empresas com o Banco Master.
O candidato, entretanto, não mostrou o contrato, não explicou qual trabalho realizou para receber meio milhão de reais e não apresentou relatórios, pareceres ou qualquer documento produzido pelo escritório.
Do escritório ao filme, as perguntas se acumulam
As notas fiscais ampliam as dúvidas sobre a verdadeira extensão da relação entre Flávio Bolsonaro e o universo empresarial de Daniel Vorcaro.
Quando foi abordado pelo Intercept Brasil, em 13 de maio, Flávio negou que o banqueiro tivesse financiado Dark Horse. “De onde você tirou essa informação? É mentira”, respondeu, antes de rir e ir embora.
Horas depois, áudios, mensagens e documentos mostraram que ele havia negociado pessoalmente os US$ 24 milhões. Pelo menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, foram transferidos em seis operações entre fevereiro e maio de 2025.
Parte dos recursos percorreu uma estrutura internacional: saiu da Entre Investimentos e Participações e chegou ao Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas e ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro.
Um contrato obtido pelo Intercept também apontou Eduardo como produtor-executivo, com atribuições relacionadas ao orçamento e à gestão financeira do filme.
A perícia privada da Go Up afirma que o Havengate aportou US$ 13,3 milhões na produção, mas não revela quem colocou dinheiro no fundo. Também não explica como os valores foram distribuídos nem por que a negociação conduzida por Flávio era muito superior ao custo declarado do longa.
Caso está nas mãos da Polícia Federal
Diante das contradições, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou em 23 de julho a abertura de um inquérito pela Polícia Federal. O pedido partiu da própria corporação e recebeu parecer favorável da Procuradoria-Geral da República, que identificou elementos suficientes para uma investigação formal.
A apuração busca esclarecer a origem e o destino dos recursos enviados ao exterior e verificar se todo o dinheiro foi efetivamente empregado no filme. A Polícia Federal também investiga se parte dos valores pode ter custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Flávio e Eduardo negam irregularidades.
O PT já havia acionado a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e outros órgãos para apurar possíveis crimes envolvendo a produção. A rede de empresas, fundos, contratos e personagens ligados a Dark Horse também levantou suspeitas de lavagem de dinheiro, ocultação de beneficiários e uso eleitoral da cinebiografia.