Israel busca ampliar ocupação mesmo após trégua, e Hesbolá reage

Apesar do anúncio de um cessar-fogo de 10 dias entre o Líbano e “Israel”, mediado pelos Estados Unidos, o exército desse último país divulgou um mapa que sugere a continuidade e a expansão de sua presença militar no sul do Líbano. O documento, publicado poucos dias após a trégua ser implementada, apresenta uma chamada “linha de defesa avançada” localizada entre cinco e 10 quilômetros dentro do território libanês, abrangendo diversas aldeias que já foram alvo de ataques e estão parcialmente desocupadas devido à ofensiva israelense.

Conforme as informações divulgadas, a nova linha se estende da costa, em Ras al-Bayyada, até Shebaa, na extremidade leste, abrangendo uma grande área no sul do país. O exército de ocupação alegou que cinco brigadas, juntamente com forças navais, atuam ao sul dessa linha para desmantelar a infraestrutura do Hesbolá e prevenir ataques contra localidades ao norte da fronteira. O ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que residências utilizadas pelo Hesbolá na fronteira seriam demolidas e que qualquer estrutura considerada uma ameaça às tropas deveria ser eliminada imediatamente, mesmo durante o cessar-fogo. Ele não apresentou, evidentemente, nenhuma evidência da alegação de que o Hesbolá utiliza residências civis.

Segundo relatos israelenses, a faixa inclui pelo menos 55 vilarejos. O pesquisador libanês Ahmad Baydoun indicou que a área é ainda mais extensa, abrangendo cerca de 70 localidades, incluindo povoados ainda habitados, como as aldeias cristãs de Rmeish, Debl e Ain Ebel, além da cidade sunita de Shebaa.

O mapa divulgado pelo porta-voz em árabe do exército israelense, Avichay Adraee, vai além das terras e inclui até áreas marítimas relacionadas ao campo de gás de Qana, que, segundo o acordo de fronteira marítima de 2022, pertence ao Líbano. Baydoun observou que a delimitação informada pelo exército de ocupação abrange completamente essa zona. O campo foi anteriormente estimado em até 100 bilhões de metros cúbicos de gás, com um valor projetado entre US$20 bilhões e US$40 bilhões.

A tentativa de impor essa nova faixa de ocupação ocorre após o exército israelense não conseguir alcançar seu objetivo anterior de avançar até o rio Litani. Diante desse insucesso, passou a defender o fortalecimento de uma zona militarizada no sul do Líbano, acompanhada da destruição em massa de residências, prédios públicos e estradas. Desde o início de março, quando “Israel” ampliou sua chamada zona de segurança e recomeçou os bombardeios em Beirute e outras cidades, os ataques resultaram na morte de quase 2.300 pessoas, mais de 7.500 feridos e mais de um milhão de deslocados, conforme afirmam autoridades libanesas.

O jornal Haaretz noticiou que as forças de ocupação têm utilizado veículos de engenharia e trabalhadores civis para demolir vilarejos inteiros. Katz chegou a afirmar que os habitantes dessas localidades não poderão retornar. Desde o início do cessar-fogo, soldados israelenses têm continuado a armar bairros inteiros com explosivos, destruindo edificações e divulgando imagens da devastação.

A resposta do Hesbolá foi dada no campo. No domingo (19), combatentes da Resistência atacaram um comboio israelense composto por oito veículos blindados que se dirigiam de Taybeh para o antigo posto de Al-Salaa, próximo a Deir Seryan. Segundo comunicado da Resistência, o alvo foi atingido por uma série de artefatos explosivos previamente instalados na localidade. As explosões ocorreram em duas ondas, entre 15h40 e 16h40, e resultaram na destruição de quatro tanques Merkava, que foram vistos em chamas antes que as forças israelenses retirassem os blindados, às 18 horas.

A operação aconteceu enquanto as violações da trégua por parte de “Israel” se tornaram recorrentes. O próprio deslocamento da coluna blindada constituía uma atividade militar que a ocupação continuava a realizar no sul do Líbano, apesar do acordo anunciado dias antes. A ação da Resistência mostrou que o Hesbolá mantém condições de enfrentar novas incursões e não aceita que o cessar-fogo sirva como pretexto para a consolidação da ocupação.

As baixas israelenses aumentaram desde que a trégua entrou em vigor. No sábado, um reservista foi morto e outros nove militares ficaram feridos em uma explosão causada por um artefato improvisado em Kfar Kila. No domingo, outro soldado israelense perdeu a vida e mais nove ficaram feridos, um deles em estado grave, em uma nova explosão dentro de área ocupada no sul libanês. No dia anterior, outro reservista já havia morrido e três soldados foram feridos em Jebbayn. Relatos israelenses afirmaram que, entre sábado e domingo, 36 militares foram mortos ou ficaram feridos.

Diante dessa situação, o Hesbolá reafirmou que o cessar-fogo não pode ser um ato unilateral. O secretário-geral da organização, xeique Naim Qassem, afirmou que a Resistência está pronta para responder a qualquer agressão e que a trégua deve significar a cessação total dos ataques israelenses, a retirada completa das tropas de ocupação, o retorno da população deslocada às suas aldeias e o início da reconstrução. Ele também ressaltou a importância de defender a soberania libanesa, preservar a unidade interna do país e evitar interferências externas.

Artigo Anterior

Estadão destaca Temer e enfatiza anseio por uma terceira via

Próximo Artigo

Agências pagas por universidades para monitorar alunos pró-Palestina

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!