
Um relatório técnico-pericial da Polícia Federal afirma que funcionários do Banco Master usaram dados de clientes, planilhas, Microsoft Word, programas de edição de PDF e códigos para montar documentos apresentados como lastro de créditos consignados atribuídos à Tirreno Consultoria. A investigação aponta que a estrutura buscava dar aparência de legitimidade a operações negociadas com o Banco de Brasília (BRB).
A PF investiga R$ 7,15 bilhões em cessões de crédito que considera fictícias entre a Tirreno e o Master. Para os investigadores, a Tirreno atuava como empresa de fachada para formalizar os ativos, enquanto o banco teria vendido ao BRB carteiras sem lastro.
O relatório se baseia, entre outros elementos, em uma apresentação interna de 30 slides apreendida na área de tecnologia do banco. O arquivo, chamado “Investigações internas – Banco Master”, registra tarefas realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025 para produzir documentação sobre a cessão de créditos consignados.
Segundo a perícia, a operação começou com a extração de dados reais de clientes dos sistemas internos, inclusive do CredCesta. Em julho de 2025, o analista Vinicius Lucas Trentino reuniu CPFs e informações cadastrais em uma planilha enviada a Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office.

Procurações em massa e assinaturas reaproveitadas
A investigação identificou a geração de 2.700 procurações em lote em 20 de junho de 2025. Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, vinculou um modelo de procuração no Word a uma planilha, com o uso da ferramenta de mala direta.
Funcionários da área de tecnologia também desenvolveram programas em C# para separar páginas de assinaturas de documentos originais em PDF, afirma a PF. Um arquivo enviado internamente reunia 1.833 PDFs com páginas de assinatura isoladas de termos de consentimento, que poderiam ser incorporadas a novos conjuntos documentais.
A perícia encontrou divergências entre datas escritas nas Cédulas de Crédito Bancário e os registros criptográficos de assinaturas digitais. Em um dos exemplos, a CCB trazia a data de 21 de janeiro de 2025, mas o certificado digital indicava assinatura em 20 de junho daquele ano. Em conversa no Teams, Allan escreveu sobre um termo de consentimento: “e precisamos excluir a data”.
As mensagens analisadas também tratam da alteração de comprovantes de transferência e de uma resposta para questionamentos da auditoria da Deloitte.
Alberto Felix de Oliveira Neto, diretor do banco, sugeriu atribuir inconsistências a “erro operacional na selecao”. A PF ainda registrou que Daniel Vorcaro, proprietário do Master, pediu em 12 de junho de 2025 um “kit dos 300 com assinatura digital” e recebeu arquivos relacionados a CCBs, procurações e assinaturas.