Washington volta a mirar Moraes e avalia novas sanções enquanto STF se prepara para sessão decisiva

Da Redação

Autoridades norte-americanas afirmam que medidas baseadas na Lei Global Magnitsky podem ser retomadas contra Alexandre de Moraes; movimento ocorre enquanto o Supremo se prepara para decidir nesta terça-feira sobre a validade da investigação relacionada ao ministro e ao celular de Daniel Vorcaro

A crise que envolve Alexandre de Moraes, André Mendonça, Daniel Vorcaro e o Banco Master deixou de produzir consequências apenas dentro do Supremo Tribunal Federal. Às vésperas da sessão extraordinária marcada para as 10h desta terça-feira, 15 de setembro, autoridades norte-americanas ouvidas sob anonimato afirmam que o governo Donald Trump voltou a considerar sanções contra Moraes com base na Lei Global Magnitsky. Segundo as apurações publicadas nesta segunda-feira pelo UOL e repercutidas pelo Brasil 247, medidas poderiam voltar a atingir o ministro, sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e estruturas relacionadas ao escritório de advocacia da família. A informação central, porém, precisa ser tratada com precisão: não há, até a noite desta segunda-feira, anúncio oficial de novas sanções. Há uma avaliação em curso atribuída a autoridades norte-americanas e a possibilidade de que medidas sejam adotadas após os desdobramentos da sessão do STF.

A movimentação merece atenção porque Washington não começa do zero. Em 30 de julho de 2025, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos incluiu formalmente Alexandre de Moraes na lista de pessoas sancionadas pelo programa Global Magnitsky. Na ocasião, o governo norte-americano acusou o ministro de violações de direitos humanos, detenções arbitrárias e supressão da liberdade de expressão — acusações rejeitadas pelo STF. Em setembro daquele ano, o Tesouro ampliou as medidas para Viviane Barci de Moraes e para o Lex Instituto de Estudos Jurídicos. Os registros oficiais do OFAC documentam as designações realizadas naquele período.

O Supremo reagiu à primeira rodada de sanções afirmando que o julgamento de crimes contra a democracia brasileira pertence exclusivamente à Justiça brasileira e que a Corte não se desviaria de sua função constitucional. A nota oficial também ressaltou que decisões de Moraes nos processos então relacionados aos atos contra a democracia haviam sido submetidas aos colegiados competentes. A divergência, portanto, já possuía uma dimensão muito maior do que um conflito pessoal entre o governo Trump e um ministro brasileiro: colocava em confronto a utilização extraterritorial de instrumentos financeiros norte-americanos e a reivindicação brasileira de autonomia de seu Poder Judiciário.

Agora, o caso Master oferece a Washington um novo contexto político. Segundo o UOL, autoridades dos Estados Unidos afirmam que o processo administrativo que sustentou as medidas anteriores continuaria sendo considerado utilizável pelo governo norte-americano e que uma nova decisão dependeria de avaliação política do Departamento de Estado. A reportagem acrescenta que outros integrantes do Supremo, entre eles Flávio Dino e Gilmar Mendes, poderiam entrar no radar de futuras medidas, embora eventuais sanções contra novos nomes exigissem procedimentos próprios. Esses pontos provêm de fontes anônimas citadas pela reportagem, e não de atos publicados pelo Departamento do Tesouro ou pelo Departamento de Estado. Até agora, as páginas oficiais norte-americanas consultadas não apresentam uma nova designação contra Moraes ou outro ministro brasileiro nesta crise.

A diferença entre as duas situações é fundamental. Moraes já passou por um procedimento formal de designação nos Estados Unidos; outros ministros mencionados nas reportagens não podem ser considerados sancionados, investigados oficialmente ou destinados inevitavelmente a receber punições simplesmente porque seus nomes aparecem em conversas de bastidores. A Lei Global Magnitsky é implementada por meio da Ordem Executiva 13818 e de decisões administrativas do governo norte-americano. Uma ameaça política, uma avaliação interna e uma designação formal são etapas distintas.

O momento escolhido por Washington para reexaminar o assunto é, contudo, politicamente significativo. A Petição 16.662 está oficialmente pautada no STF para esta terça-feira. O cadastro público do próprio Supremo mostra que se trata de procedimento de natureza criminal relacionado a investigação penal e que o processo passou para a relatoria do ministro presidente, Edson Fachin. A sessão extraordinária foi convocada depois que a crise interna produziu decisões conflitantes envolvendo Mendonça, Moraes, a Polícia Federal e seu diretor-geral, Andrei Rodrigues.

É exatamente esse julgamento que autoridades norte-americanas estariam acompanhando. O plenário deverá enfrentar a validade do caminho investigativo que produziu um relatório policial com informações extraídas do celular de Vorcaro e relacionadas a Moraes. Isso não equivale a um julgamento criminal do ministro. O STF não estará decidindo nesta terça-feira se Moraes é culpado ou inocente de um crime, mas questões processuais que podem determinar se os elementos existentes justificam ou permitem a continuidade de uma investigação. A distinção é particularmente importante quando o resultado do julgamento passa a ser observado também por um governo estrangeiro.

A dimensão internacional da crise não surgiu nesta segunda-feira. O governo brasileiro já vinha acompanhando a possibilidade de que o caso chegasse novamente a Washington. No início de setembro, auxiliares do governo Lula disseram à CNN Brasil que informações sobre a controvérsia envolvendo Moraes e Mendonça haviam sido levadas ao Departamento de Estado por integrantes da oposição brasileira. A administração brasileira passou então a monitorar possíveis consequências para a relação bilateral.

A Folha de S.Paulo também informou nos últimos dias que o governo Trump acompanha a crise no STF e considera novas medidas, com integrantes do Departamento de Estado indicando que opções estariam preparadas caso Washington decidisse acioná-las. O quadro revelado por diferentes veículos é, portanto, convergente em um aspecto: a crise interna do Supremo voltou a entrar no cálculo da política externa norte-americana para o Brasil. O que permanece indefinido é se esse cálculo produzirá efetivamente novas sanções, quando elas seriam anunciadas e contra quem.

Há ainda um elemento político brasileiro importante. Eduardo Bolsonaro anunciou que pretende viajar a Washington para discutir justamente a possibilidade de retomada das sanções contra Moraes. A movimentação estabelece uma conexão entre atores políticos brasileiros e a pressão externa sobre um integrante do Poder Judiciário, mas não demonstra, por si só, que Eduardo determine as decisões do governo Trump ou que qualquer nova sanção seja consequência direta de sua atuação.

Esse cuidado é especialmente necessário em plena campanha eleitoral. Autoridades norte-americanas citadas pelo UOL negam que eventual retomada da Magnitsky esteja vinculada à disputa presidencial brasileira. Essa é a posição atribuída às fontes norte-americanas. Ao mesmo tempo, a proximidade temporal entre a eleição, a atuação de atores políticos brasileiros em Washington e a possibilidade de medidas contra integrantes de um dos Poderes da República torna inevitável o debate sobre seus efeitos políticos internos. Não é possível afirmar, sem evidência adicional, que uma eventual sanção teria como finalidade interferir na eleição. É possível afirmar que sua adoção nesse ambiente produziria consequências políticas dentro do Brasil.

É aí que o episódio ultrapassa Moraes.

A Lei Global Magnitsky é uma ferramenta jurídica norte-americana, mas seu poder internacional depende de algo material: a posição dos Estados Unidos no sistema financeiro mundial. Quando uma pessoa é incluída na lista de sanções do OFAC, bens e interesses patrimoniais sujeitos à jurisdição norte-americana podem ser bloqueados e pessoas norte-americanas ficam, em regra, proibidas de realizar determinadas transações com o sancionado. A capacidade de Washington de projetar esse instrumento muito além de suas fronteiras decorre da centralidade do dólar, das instituições financeiras norte-americanas e da exposição de empresas internacionais ao sistema dos Estados Unidos.

Por isso, uma eventual nova rodada de sanções contra integrantes do STF colocaria novamente duas lógicas em colisão. Para Washington, tratar-se-ia do exercício de competências previstas no direito norte-americano e de sua política de sanções. Para o Brasil, quando medidas estrangeiras atingem magistrados por decisões tomadas no exercício da jurisdição brasileira, surge inevitavelmente uma questão de soberania e independência institucional. Foi exatamente essa a posição adotada oficialmente pelo STF quando Moraes foi sancionado em 2025.

O problema se torna ainda mais delicado porque o caso que agora envolve Moraes merece investigação institucional rigorosa independentemente da pressão externa. Mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, referências a encontros, contatos e eventuais pedidos não devem ser descartados simplesmente porque um governo estrangeiro pretende explorar politicamente a controvérsia. Da mesma maneira, mensagens ou contatos não podem ser convertidos automaticamente em prova de crime. O Estado brasileiro precisa ser capaz de investigar seus próprios agentes segundo suas próprias regras, preservando simultaneamente independência judicial, devido processo e responsabilidade.

Essa é talvez a fronteira mais importante desta crise. Defender a soberania do Judiciário brasileiro diante de pressões estrangeiras não exige blindar Alexandre de Moraes contra investigação. Investigar Alexandre de Moraes não exige aceitar que Washington determine como o Supremo deve proceder. As duas questões podem e precisam ser separadas.

O mesmo raciocínio vale para André Mendonça. Eventuais irregularidades em sua atuação precisam ser examinadas segundo as normas brasileiras e pelas instâncias competentes. A possibilidade de pressão norte-americana não transforma automaticamente suas decisões em corretas ou incorretas. Da mesma forma, uma eventual nulidade processual reconhecida pelo STF não demonstraria que tudo o que aparece nos dados de Vorcaro é falso; significaria que a Corte encontrou um problema jurídico na maneira pela qual determinada investigação foi conduzida.

É justamente essa autonomia de julgamento que estará sob observação nesta terça-feira. Fachin será o primeiro a votar. Depois dele, os demais ministros precisarão decidir questões que já seriam extraordinariamente delicadas sem qualquer interferência externa: competência, validade das diligências, acesso à prova, limites da atuação individual de ministros e eventual continuidade da investigação.

Agora existe uma variável adicional: Washington acompanha o resultado.

Se o governo Trump efetivamente decidir anunciar sanções depois da sessão, a sequência temporal inevitavelmente produzirá interpretações sobre pressão e resposta, ainda que os Estados Unidos apresentem sua decisão como independente. Se não houver medidas, isso tampouco provará que Washington aprovou o resultado do STF. É preciso evitar transformar correlação temporal em causalidade política sem documentação que a sustente.

Mas a simples possibilidade de sanções já possui efeito. Ela introduz um ator externo no ambiente em que o Supremo tenta resolver sua maior crise interna recente.

Para o Brasil, o desafio institucional é particularmente complexo. Uma democracia precisa ser capaz de investigar magistrados, policiais, procuradores, parlamentares e integrantes do Executivo sem que suas instituições se protejam corporativamente. Mas também precisa impedir que o processo de responsabilização interna seja subordinado aos interesses estratégicos de governos estrangeiros.

A sessão desta terça-feira ganha, portanto, uma segunda dimensão. Dentro do plenário, os ministros discutirão a Petição 16.662, Daniel Vorcaro, o relatório da Polícia Federal e a atuação de Moraes e Mendonça. Fora dele, atores políticos brasileiros e autoridades norte-americanas observam o resultado e discutem a possibilidade de acionar novamente um instrumento de coerção financeira dos Estados Unidos.

Essa combinação torna o episódio maior do que a trajetória individual de qualquer ministro.

O STF precisa responder às perguntas produzidas pelo caso Master com transparência, devido processo e critérios aplicáveis a todos. Washington decidirá, segundo seus próprios interesses e sua legislação, se pretende retomar sanções. E o Estado brasileiro terá de decidir como reage caso uma potência estrangeira volte a utilizar seu poder financeiro contra integrantes de uma instituição central da República.

Às 10h desta terça-feira, portanto, não estará em jogo apenas o destino imediato de uma investigação. O Supremo começará a responder se consegue enfrentar uma crise dentro de suas próprias paredes enquanto preserva, ao mesmo tempo, a capacidade do Brasil de resolver seus conflitos institucionais sem tutela externa.

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