Da Redação
Mensagens extraídas pela PF mostram ao menos dois convites ligados ao Instituto Iter, incluindo coquetel descrito como restrito a “poucos convidados”; instituto confirma um dos convites, mas diz que ex-banqueiro acabou desconvidado. Registros se somam à reunião fora da agenda entre Mendonça e Vorcaro, agora incluída por Flávio Dino entre fatos que considera necessário esclarecer
Novas mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro acrescentaram nesta terça-feira, 15 de setembro, outra camada à controvérsia sobre as relações anteriores entre o ex-controlador do Banco Master e o ministro André Mendonça. Os diálogos indicam que Vorcaro foi convidado pelo menos duas vezes para eventos ligados ao Instituto Iter, instituição de ensino jurídico fundada por Mendonça. Um desses convites mencionava nominalmente o banqueiro e descrevia um coquetel em Belo Horizonte com participação do próprio ministro e de Antonio Anastasia, ministro do Tribunal de Contas da União, destinado a “poucos convidados” selecionados pelo instituto. O Iter confirmou que o convite existiu, mas afirmou que ele foi formulado por terceiros, posteriormente recusado pelo CEO da instituição e que Vorcaro precisou ser “desconvidado”.
A revelação ganha importância não porque um convite para um evento, isoladamente, demonstre qualquer irregularidade, mas porque se encaixa numa sequência de contatos que agora está sendo reconstruída a partir do telefone de Vorcaro. As mensagens indicam tentativas de aproximação entre abril de 2024 e maio de 2025, intermediadas por pessoas que circulavam tanto no entorno do banqueiro quanto no de Mendonça. Entre elas aparecem o advogado Ciro Soares e o deputado federal Cezinha de Madureira. Pelo menos uma aproximação chegou efetivamente a uma reunião: Mendonça recebeu Vorcaro em março de 2025, no escritório do próprio Instituto Iter, em São Paulo, num encontro que não constava da agenda oficial do ministro. O gabinete de Mendonça confirmou a reunião e sustenta que ele recebeu o empresário uma única vez, por iniciativa de Vorcaro, limitando-se a ouvi-lo.
Esse encontro já havia adquirido relevância antes das mensagens divulgadas nesta terça-feira. Material extraído do telefone mostrou que interlocutores de Vorcaro trabalhavam para aproximá-lo do ministro e que o banqueiro demonstrava interesse nessa interlocução. O gabinete de Mendonça afirmou posteriormente que o assunto tratado foi uma controvérsia sobre precatórios e que o ministro votou, quando a questão chegou ao Supremo, contra o interesse defendido pelo empresário. Há, entretanto, áudios anteriores ao encontro nos quais um intermediário dizia ter informado Mendonça sobre a situação do Banco Master perante o Banco Central. Isso não prova que o banco tenha sido discutido na reunião, mas tornou relevante esclarecer exatamente qual foi seu objeto.
As novas mensagens ajudam a reconstruir o ambiente em torno dessa aproximação. Em maio de 2025, Ciro Soares encaminhou a Vorcaro convite para um evento do Iter em Belo Horizonte. Segundo os registros, posteriormente ele voltou ao banqueiro irritado com Cezinha de Madureira e explicou que o deputado considerava melhor que Vorcaro não comparecesse. Ciro escreveu que ele e Jarbas Soares não viam problema na presença do empresário. O material disponível não demonstra que Vorcaro tenha comparecido. Pelo contrário, o Iter afirma que o convite acabou cancelado. Essa diferença é essencial: há evidência do convite e do posterior desconvite, não de participação de Vorcaro no evento.
A descrição do encontro como reservado a “poucos convidados” aumenta o interesse jornalístico do episódio, mas também precisa ser colocada em sua dimensão correta. Instituições acadêmicas, empresariais e jurídicas promovem regularmente encontros fechados e recepções com listas restritas. Isso não constitui irregularidade. O que torna o caso relevante é a combinação entre a posição institucional de Mendonça, a tentativa documentada de Vorcaro de se aproximar dele, a reunião efetivamente realizada no Iter e o fato de que o ministro viria posteriormente a assumir a relatoria de uma das investigações mais importantes relacionadas ao Banco Master.
A cronologia, nesse ponto, é fundamental. O encontro ocorreu em março de 2025. Os convites para atividades do Iter aparecem naquele período posterior. Mendonça somente assumiria mais tarde a relatoria da investigação envolvendo o Master. Portanto, não é correto afirmar que ele recebeu Vorcaro enquanto já era relator do caso. Ao mesmo tempo, uma vez que o processo chegou posteriormente às suas mãos, os contatos anteriores passaram a levantar uma questão objetiva sobre eventual impedimento, suspeição ou necessidade de transparência — questão que precisa ser examinada segundo as regras processuais aplicáveis, e não resolvida por inferência política.
O caso tornou-se ainda mais relevante nesta terça porque Flávio Dino decidiu levar à Presidência do STF elementos relacionados justamente a possíveis conexões entre Vorcaro, Mendonça e o Instituto Iter. Reportagens sobre a decisão indicam que Dino mencionou o encontro entre o ministro e o banqueiro, relações envolvendo o instituto, contratos e outros fatos que, em sua avaliação, merecem esclarecimento. O material foi encaminhado a Edson Fachin, presidente da Corte. A providência de Dino significa que existem elementos que ele considera necessários de apuração; não significa que o STF tenha concluído pela existência de favorecimento, conflito de interesses ou crime.
A situação do Iter também mudou depois que o encontro veio a público. No início de setembro, Mendonça anunciou que deixaria a sociedade da instituição, cedendo a totalidade de suas cotas e das cotas de sua esposa sem contrapartida financeira. Segundo sua manifestação, jamais teria recebido lucros do instituto e permaneceria vinculado apenas academicamente, como professor, enquanto a organização seria transformada em entidade sem fins lucrativos. A decisão ocorreu logo após a divulgação do encontro com Vorcaro.
O ponto mais sensível das novas mensagens, porém, talvez não seja cada convite considerado individualmente. É a existência de uma rede de intermediários. Ciro Soares aparece nos diálogos aproximando Vorcaro de Mendonça; Cezinha de Madureira aparece participando da organização do encontro e, posteriormente, do episódio do desconvite; Jarbas Soares é mencionado nas conversas sobre o evento. A investigação precisa estabelecer qual era a natureza dessas relações e, principalmente, se elas alguma vez ultrapassaram os limites normais da interlocução entre advogados, empresários, políticos e integrantes do Judiciário.
Essa cautela é especialmente necessária porque outras mensagens do telefone de Vorcaro divulgadas nesta terça-feira citam pessoas ligadas a outros ministros do Supremo, entre elas familiares de Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Os registros descrevem pedidos, encontros e discussões sobre pagamentos, mas seu significado jurídico varia enormemente e vários deles são fragmentários. O simples fato de alguém aparecer nas mensagens de Vorcaro não comprova participação em irregularidade. A ampliação do universo de nomes, entretanto, reforça a necessidade de um critério uniforme para analisar o aparelho inteiro, em vez de selecionar apenas os diálogos relacionados a um ministro.
Essa é uma das razões pelas quais a íntegra dos dados se tornou tão importante na crise do STF. O telefone de Vorcaro parece registrar uma rede extensa de contatos com integrantes ou pessoas próximas aos centros político, jurídico e empresarial do país. A existência dessa rede é jornalisticamente relevante, mas não pode ser transformada numa espécie de presunção coletiva de culpa. Para cada episódio é necessário responder perguntas elementares: houve apenas tentativa de aproximação ou encontro efetivo? Houve pagamento? Qual sua origem e finalidade? Existia processo de interesse do empresário? A autoridade participou dele? Houve decisão? Essa decisão contrariou ou beneficiou Vorcaro? Existe algum nexo demonstrável entre a relação pessoal e o ato funcional?
No caso específico de Mendonça, uma dessas respostas já é conhecida e favorece uma análise mais cuidadosa: segundo o próprio ministro, quando julgou a questão dos precatórios que motivara o encontro, sua posição foi contrária aos interesses apresentados por Vorcaro. Esse elemento não torna irrelevante o encontro fora da agenda, mas impede que sua mera existência seja apresentada como prova automática de favorecimento.
Da mesma forma, o convite do Iter não permite afirmar que o instituto tenha sido financiado pelo Banco Master ou que funcionasse como instrumento de influência do banqueiro. As fontes consultadas para esta matéria demonstram convites e contatos, mas não sustentam, por si mesmas, a conclusão de que Vorcaro financiou o instituto ou recebeu contrapartidas institucionais. Qualquer relação financeira entre o Master, Vorcaro, empresas associadas e o Iter precisa ser demonstrada documentalmente antes de ser tratada como fato.
É precisamente esse cuidado que ganha importância depois do confronto extraordinário ocorrido no plenário nesta terça-feira. Gilmar Mendes acusou Mendonça de condução com viés político-eleitoral; Alexandre de Moraes afirmou que o colega teria pressionado policiais para envolvê-lo numa colaboração premiada e chegou a dizer que Mendonça estaria “a serviço de um grupo político que quis dar um golpe”. Mendonça rejeitou frontalmente as acusações. Nenhuma dessas afirmações pode substituir a apuração documental. As mensagens envolvendo o Iter acrescentam fatos verificáveis ao quebra-cabeça, mas não resolvem as acusações mais graves feitas durante a sessão.
Ao contrário, elas tornam ainda mais importante separar três níveis que se misturaram na crise: relação, influência e favorecimento. As mensagens documentam relações e tentativas de aproximação. Determinar se houve influência exige examinar atos posteriores. Demonstrar favorecimento exige estabelecer um nexo entre a aproximação e uma decisão ou benefício concreto. Saltar diretamente do primeiro nível para o terceiro produziria justamente o tipo de conclusão antecipada que o Supremo precisa evitar.
O caso do Instituto Iter é relevante porque amplia a cronologia e mostra que Vorcaro procurava acesso a Mendonça antes de o ministro receber processos ligados ao universo Master. Houve uma reunião confirmada. Houve convites para eventos do instituto. Houve intermediários atuando nessa aproximação. Houve um convite posteriormente cancelado. E agora Flávio Dino considera que parte dessas conexões merece esclarecimento institucional.
O que ainda não está demonstrado é igualmente importante: não há, nas mensagens até agora publicadas, prova suficiente de que Mendonça tenha vendido decisões, recebido dinheiro de Vorcaro ou decidido processos em troca dessa aproximação. É exatamente essa fronteira que uma investigação séria precisa preservar.
Depois de semanas em que praticamente toda a crise esteve concentrada nas relações atribuídas a Alexandre de Moraes com Vorcaro, a abertura do telefone completo começa a revelar um quadro mais amplo. O problema institucional deixa de ser apenas saber o que um banqueiro dizia a respeito de determinado ministro e passa a ser compreender como Daniel Vorcaro conseguiu circular, buscar interlocução e construir acessos em diferentes áreas do sistema de poder brasileiro — e se algum desses acessos produziu consequências juridicamente impróprias.
É essa pergunta, e não a simples existência de um convite para um coquetel, que transforma o Instituto Iter em mais uma peça importante do caso Master.