Você que absteve seu voto… SIM, VOCÊ É RESPONSÁVEL!
Ou seria melhor dizer: irresponsável?
Por Janethe Fontes
Neste curto ensaio, eu me dirijo, especialmente, àqueles e àquelas que não foram votar no domingo. Dirijo-me a cerca de trinta e três milhões de pessoas — 21,08% do eleitorado apto — que não foram votar neste domingo, 4 de outubro de 2026.
Por preguiça? Por achar que é tudo igual? Como forma de protesto?
“Não vou votar porque nenhum presta”; “tanto faz”; “não gosto de política”; “não quero me envolver”; “todos são iguais”…
Obviamente, não posso afirmar que 33 milhões de eleitores ausentes faltaram por preguiça, cinismo ou desinteresse. Há pessoas que não puderam votar por estarem doentes, por terem enfrentado dificuldades de transporte, situações familiares, exigências de trabalho ou outros obstáculos concretos.
Então, que fique claro: não é a essas pessoas que me dirijo. Dirijo-me àqueles e àquelas que, podendo votar, deliberadamente escolheram não fazê-lo. E, para essas pessoas, não pretendo suavizar minhas palavras, pois, SIM, considero essa escolha uma atitude irresponsável!
Porque, seja qual for a justificativa apresentada — “nenhum candidato me representa”, “todos são iguais”, “não quero me envolver”, “meu voto não faz diferença”, “político é tudo igual” — existe uma verdade da qual não se pode escapar: ao abrir mão deliberadamente de participar de uma escolha coletiva, você não abre mão das consequências dessa escolha.
Você continua vivendo no país que ajudou a escolher — inclusive quando escolheu não escolher.
A questão é que participar das instituições democráticas existentes — ainda que possamos questionar isso também — dá trabalho.
Pensar dá trabalho. Pesquisar dá trabalho. Comparar propostas dá trabalho. Escolher dá trabalho.
Afinal, escolher significa abandonar o confortável lugar em que tudo parece ser igualmente ruim. Significa reconhecer diferenças, estabelecer critérios, assumir posições e, finalmente, colocar a própria consciência diante da urna e dizer: entre as possibilidades concretas que existem, esta é a minha escolha.
É muito mais confortável dizer que “todos são iguais”.
É muito mais confortável declarar-se decepcionado(a) com a política e lavar as mãos.
É muito mais confortável dizer que “não gosto de nenhum” do que tentar compreender quem são aqueles(as) que disputam o poder e quais consequências concretas suas escolhas podem produzir sobre a vida de milhões de pessoas.
É muito mais confortável não escolher e, depois, reclamar da escolha que os outros fizeram.
Mas as coisas não funcionam assim. Quando você se abstém deliberadamente, você não sai do jogo. Você apenas deixa que os outros decidam sobre aquilo que afetará a sua própria vida. O jogo continua, meu chapa!
E quem vai pagar o preço por tamanha irresponsabilidade?
Todos e todas nós!
Inclusive aqueles(as) que fizeram o esforço de estudar, comparar, refletir e votar. Inclusive aqueles(as) que compreenderam que votar não é encontrar um candidato ou candidata que seja perfeito, mas participar de uma decisão política concreta, dentro das condições concretas que existem.
A abstenção deliberada também é uma decisão política. A ausência produz consequências políticas dentro de um sistema eleitoral concreto. O direito de não escolher não significa o direito de escapar das consequências da escolha que você decidiu não fazer. Muito pelo contrário!
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores contradições do nosso tempo: pessoas que afirmam não querer saber de política são as mesmas que, geralmente, se indignam com decisões tomadas pelos políticos que governam o país.
Um exemplo mais concreto disso foi a eleição para o Senado e para a Câmara Federal… Quem foram as pessoas eleitas? O que essas pessoas representam?
A grande maioria da população brasileira, certamente, não se verá representada por boa parte dessas pessoas.
O que, talvez, a população ainda precise compreender é que não existe vida apolítica.
A política está no preço dos alimentos, na qualidade da escola pública, no acesso à universidade, no atendimento de saúde, na cultura, no transporte, no salário, no emprego, na aposentadoria, na proteção ambiental, nos direitos trabalhistas, na distribuição da riqueza e nas oportunidades que uma criança terá — ou não terá — ao nascer. A política está em toda parte!
E, justamente por isso, recusar-se deliberadamente a participar dela não é neutralidade. É uma escolha.
Hoje, ainda submersa na frustração marcada pelo dia de ontem, sou levada a me perguntar:
O que leva uma sociedade marcada por desigualdades históricas a rejeitar — ou não reconhecer — políticas destinadas a enfrentar essas próprias desigualdades?
E, como não consigo encontrar uma resposta simples para essa pergunta, sou obrigada a encarar uma realidade ainda mais dura: Talvez parte dos brasileiros e brasileiras não mereça um presidente que realmente se preocupe com a desigualdade social, com a educação, com a cultura, com a redução da pobreza, com a ampliação de direitos e com a construção de uma sociedade menos desigual.
Talvez tenhamos de encarar uma realidade que nos incomoda justamente porque nos obriga a olhar para nós mesmos: Parte da sociedade brasileira é, sim, individualista, racista, machista e antipolítica — e carrega, ainda, aquilo que poderíamos chamar de uma espécie de síndrome do colonizado.
Infelizmente, enquanto parte da sociedade se diz defensora da liberdade de expressão, do desenvolvimento e de um país melhor, a grande verdade é que têm sido muito comuns os discursos contra políticas destinadas justamente a enfrentar as estruturas que mantêm esse país profundamente desigual. Continuamos tolerando desigualdades brutais, reproduzindo práticas racistas e machistas e desprezando a educação e a cultura como instrumentos de transformação social.
Talvez o problema esteja também aí: entendermos que nossas escolhas individuais têm relação com o destino coletivo de todo o povo brasileiro.
E é justamente por isso que escrevo este pequeno ensaio.
Não para dizer que todo voto é perfeito. Não para afirmar que existe candidato ou candidata capaz de corresponder integralmente às expectativas de cada eleitor(a). Não para negar o direito à crítica, à indignação ou ao desencanto. Mas para afirmar uma coisa muito mais simples — e, talvez por isso mesmo, tão difícil de aceitar:
Se você tinha condições de votar e decidiu deliberadamente não fazê-lo, você fez uma escolha.
E escolhas têm consequências!
Afinal, a democracia — ou aquilo que entendemos por democracia — não é feita apenas das escolhas que fazemos diante da urna. Ela também é feita das consequências das escolhas que decidimos não fazer.
Então, SIM, você tem responsabilidade pelos rumos de nosso país!
Janethe Fontes é professora de história e sociologia e escritora. Autora, entre outros livros, de Sentimento fatal (Dracaena).
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “