Boato – Presidiário comemorou decisão de juiz por causa do auxílio-reclusão.
Análise
Um vídeo que apresenta um suposto presidiário comemorando uma decisão judicial começou a circular nas redes sociais acompanhado de uma mensagem sobre o auxílio-reclusão. Na gravação, o homem afirma que recebeu uma pena de prisão e que estaria satisfeito porque poderia deixar de pagar despesas enquanto receberia um benefício previdenciário.
Em outro trecho, o personagem afirma que receberia valores de auxílio-reclusão e compara sua situação à de trabalhadores que permanecem fora da prisão. A narrativa também utiliza críticas políticas ao presidente Lula e ao governador do Rio de Janeiro para reforçar a mensagem. Leia alguns trechos da versão que circula online:
“Gente, hoje eu tô muito feliz e eu quero agradecer ao juiz Marcelo de Carvalho, ao desembargador Souza Viana, porque eu tava contando com 3 anos de cana, 3 anos de cadeia. E eles colocaram 6 anos e 8 meses de reclusão. Isso é um sinal positivo, é um sinal muito bom que eu não vou continuar pagando aluguel, não vou continuar pagando imposto, não vou continuar pagando luz, não vou continuar pagando água, porque aqui dentro eu junto, né, devido o meu auxílio-reclusão, e como e bebo de graça. Porque aqui é assim, no Brasil é assim: a gente não fica preso, a gente fica guardado, porque a gente tem um benefício muito bom, nem você que é trabalhador tem essa regalia. Então eu quero agradecer o juiz aí, o desembargador, e quero dizer para vocês, gente, pra minha família, que eu tô bem, tá? E e que vale a pena. Se vocês puder pegar um celularzinho aí, tá? Pegar uma picanha, é fazer alguma coisa aí, porque você sabe, né, o próprio pre-, o pre-, o presidente disse que a gente pode, né? Porque é só para tomar uma cervejinha, entendeu? Aí, pera aí. A cela aqui é de quanto? É de quanta? É tá superlotação ainda não, né? Ah! A cela aqui, gente, é cabe 80, só tem 20. Se você quiser também participar, você já consegue até juntar uma graninha, porque você não vai pagar nada disso, então você consegue, né, juntar um dinheirinho. Quando sair, você tá quase bem de vida, então vale a pena, pô. Vale a pena, não ainda não superlotou não. Quando tiver 80 aqui, eu aviso vocês para não vir para cá, aí vocês vão para um federal, porque aqui é o estado do Rio de Janeiro.”
“Fala aí, meu parceiro! Você tá recebendo quanto de auxílio-reclusão? Eu tô pegando 1.780. Você tá pegando 3.600? Ah, porque você tem três filhos, né? Tá ruim aqui para você? Você acha que tá ruim? Parceiro falou que aqui no presídio não tá ruim para ele não, para mim também não tá não, tá ótimo. Ah, mas ser preso é ruim. Ruim? Ruim é ter que acordar cedo para trabalhar. Ruim é ter que pegar fila de ônibus, pegar ônibus lotado, suado. Ruim é ter que acordar cedo, filho, 5 horas da manhã. Aqui eu durmo a hora que eu quero, acordo a hora que eu quero, cafezinho, almoço na hora certa. Eu quero outra vida? Tô nem aí, auxílio-reclusão batendo na conta aí, ó. É bom que eu fico, posso ficar 10 anos aqui, quando eu sair eu já tô com investimento e tá correndo juro ainda, não é não, rapaziada? Ai, ai, ai, ai. ‘Que tá preso, que tá sofrendo’. Sofrendo tá vocês aí fora aí, com risco de ser assaltado aí, sem segurança pública. Aqui dentro a gente tá seguro, comendo e bebendo. Hoje a gente, cada um ganhou um desodorante, só que é sem cheiro, né? Mas aí a gente mistura com perfume, passa debaixo do braço, toma um banhozinho, toma um café, joga um dominó, toma uma pinga, joga uma conversa fora, porque aqui dentro é assim. Tá ruim aqui dentro, rapaziada? Você você você ô ô ô Valdomiro, tu acha que tá ruim? Ruim é para quem tá lá fora, rapaz. Aqui tá é bom demais, por mim eu fico aqui o resto da vida. Não tô preso, tô guardado, vale a pena. Se eu sair… Ah, se eu sair eu faço de tudo para voltar cá para dentro de novo, isso aqui que é vida.”
“Esse recado aqui vai para todos os eleitores do Brasil: quero dizer para vocês que eu sou presidiário e o auxílio-reclusão não é mentira não, é mais de verdade do que vocês pensam. Tem preso aqui que ganha mais de R$ 10.000,00 por mês. Só eu ganho três salários mínimos de auxílio-reclusão, enquanto tem um monte de pai de família que sai cedo, acorda cedo para trabalhar, não sabe nem se vai voltar para casa porque segurança pública no Estado e no Brasil não tem. O Estado do Rio de Janeiro tá uma vergonha, tá um caos, só tem ladrão. O governador Cláudio Castro pediu ajuda para esse desgraçado, cachaceiro do nove dedos, apoio para as operações nas comunidades do Estado do Rio de Janeiro, ele não deu. Porque ele é bandido também. Porque se ele fosse um cara de direita e a lei para eles funcionasse, ele tinha concedido esse apoio.”
Checagem
Para verificar se um presidiário comemora decisão de juiz por causa de auxílio-reclusão que ele vai ganhar, respondemos às seguintes perguntas: 1) Presidiário comemora decisão de juiz por causa de auxílio-reclusão que ele vai ganhar? 2) Como foi feito o vídeo em que um presidiário comemora decisão de juiz por causa de auxílio-reclusão que ele vai ganhar? 3) Há fake news similares a esta?
Presidiário comemora decisão de juiz por causa de auxílio-reclusão que ele vai ganhar?
Não. O vídeo não é um registro espontâneo de um presidiário comemorando uma condenação e um suposto benefício que receberia. Trata-se de um conteúdo encenado publicado por este perfil do TikTok.
A gravação apresenta um personagem interpretando um preso e fazendo afirmações sobre o sistema penitenciário e o auxílio-reclusão. O formato do vídeo pode fazer com que trechos sejam compartilhados posteriormente sem o contexto original da encenação.
Como foi feito o vídeo em que um presidiário comemora decisão de juiz por causa de auxílio-reclusão que ele vai ganhar?
O conteúdo foi produzido como uma encenação pelo perfil responsável pela publicação. Portanto, as falas do personagem não devem ser tratadas como o depoimento espontâneo de um preso real relatando quanto recebe de auxílio-reclusão.
Além disso, a própria premissa central do vídeo apresenta um problema: o auxílio-reclusão não é pago ao preso. Segundo o INSS, trata-se de um benefício destinado aos dependentes do segurado de baixa renda que esteja preso nas condições previstas pela legislação.
Para os recolhimentos à prisão posteriores a 14 de novembro de 2019, o valor inicial do benefício corresponde a um salário mínimo, e o pagamento é destinado aos dependentes, com rateio entre eles quando houver mais de um.
Há fake news similares a esta?
Sim. O próprio perfil responsável pelo vídeo já publicou outras encenações que foram apresentadas nas redes sociais fora do contexto original. O Boatos.org já verificou, por exemplo, um vídeo do mesmo perfil em que um suposto detento reclamava da comida do presídio e afirmava que agentes penitenciários teriam comido a carne e deixado apenas os ossos.
Também existem diversas fake news sobre auxílio-reclusão. Entre elas estão afirmações de que Lula teria aumentado o benefício para R$ 1.800 em 2024 e de que um homem teria comprado um carro de R$ 40 mil com dinheiro do auxílio-reclusão.
O benefício, entretanto, possui regras específicas. Em 2026, o segurado precisa cumprir requisitos como ter qualidade de segurado, cumprir a carência exigida e estar dentro do limite de baixa renda. O benefício é pago aos dependentes, e não diretamente ao preso.
Conclusão
O vídeo do suposto presidiário comemorando uma condenação e o recebimento de auxílio-reclusão é uma encenação publicada pelo perfil 1000000 Vidas. Além disso, a mensagem distorce o funcionamento do benefício: o auxílio-reclusão é destinado aos dependentes de segurados que atendem aos requisitos legais, e não é um pagamento feito diretamente ao preso.
Fake news ❌
Ps: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo e-mail [[email protected]](mailto:[email protected]) e WhatsApp (link aqui: https://wa.me/556192755610)