“Feito Pipa” leva ao Oscar a força de um Brasil afetivo e diverso

O cinema brasileiro volta a mirar o Oscar. “Feito Pipa”, de Allan Deberton, foi escolhido nesta quarta-feira (16) pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027. O longa superou outros 14 filmes inscritos e chegou à decisão final entre seis produções.

A escolha não parte apenas de uma aposta institucional. O filme chega à corrida internacional respaldado por uma trajetória expressiva em festivais, pela recepção positiva à sua narrativa e por uma combinação particularmente brasileira entre território, memória, infância, diversidade, afeto e pertencimento.

“Feito Pipa” estreia nos cinemas brasileiros em 5 de novembro. A indicação brasileira, porém, ainda não significa presença garantida entre os indicados ao Oscar: a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciará os concorrentes em 21 de janeiro de 2027. A cerimônia está marcada para 14 de março.

Uma história brasileira sem estereótipos

Ambientado em Quixadá, no sertão cearense, o filme acompanha Gugu, vivido por Yuri Gomes, um menino de 12 anos apaixonado por futebol e dança, criado pela avó Dilma, interpretada por Teca Pereira.

Quando a saúde da avó se fragiliza, Gugu passa a enfrentar a possibilidade de deixar a vida que conhece e ir morar com o pai, Batista, personagem de Lázaro Ramos. O conflito familiar abre espaço para discutir amadurecimento, identidade, afeto e pertencimento sem reduzir os personagens a tipos previamente definidos.

Essa perspectiva é uma das forças do filme. Em vez de apresentar o interior nordestino exclusivamente pela pobreza, pela seca ou pela violência, Deberton constrói um universo marcado também por imaginação, alegria, vínculos familiares e liberdade e constrói uma representação mais complexa do sertão.

A força de uma infância que não cabe em caixas

Gugu é um personagem que reúne elementos tradicionalmente separados: gosta de futebol, dança, maquiagem e expressa sua personalidade sem aceitar que precise escolher entre diferentes formas de ser criança.

Essa característica dá ao filme uma dimensão contemporânea sem afastá-lo de uma narrativa universal. O conflito central não é simplesmente a diferença do menino, mas a dificuldade dos adultos e do ambiente à sua volta em lidar com ela.

O roteiro de Allan Deberton e André Araújo parte de memórias de infância dos autores no interior do Ceará. Essa origem autobiográfica ajuda a explicar a dimensão íntima da narrativa: a história individual de Gugu funciona simultaneamente como retrato de uma região e como reflexão sobre a necessidade de uma criança encontrar espaço para existir plenamente.

Avó e neto no centro do filme

A relação entre Gugu e Dilma é outro elemento decisivo. A avó é quem oferece ao garoto um ambiente de liberdade e acolhimento. Quando sua condição de saúde se agrava, o menino tenta esconder a situação para preservar aquela relação e evitar a separação.

A delicadeza dessa relação dá ao filme uma dimensão que ultrapassa o debate sobre identidade. Há uma história sobre amor familiar, envelhecimento, cuidado e medo da perda, temas capazes de alcançar espectadores de diferentes culturas.

É justamente essa combinação que a comissão da Academia Brasileira de Cinema apontou ao justificar a escolha. Para a presidente da comissão, Clélia Bessa, o longa possui uma narrativa sensível e universal, mas preserva uma forte identidade brasileira a partir de uma cidade do interior cearense.

Uma trajetória que já começou internacional

Antes mesmo da escolha para representar o Brasil, “Feito Pipa” havia construído uma carreira relevante fora do país.

A estreia mundial aconteceu no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro, onde o filme conquistou o Urso de Cristal de Melhor Filme, concedido pelo Júri Jovem, além do Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus.

No Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias, Yuri Gomes recebeu o prêmio de Melhor Interpretação na mostra Cine de los Barrios. Em Guadalajara, no México, o longa conquistou o Prêmio Maguey de Melhor Filme, enquanto Teca Pereira e Yuri Gomes receberam reconhecimento por suas atuações.

No Brasil, o desempenho foi igualmente expressivo. “Feito Pipa” foi o filme mais premiado da 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, conquistando quatro Kikitos: Melhor Direção para Allan Deberton, Melhor Atriz para Teca Pereira, Melhor Ator Coadjuvante para Lázaro Ramos e Melhor Filme pelo Júri Popular. Yuri Gomes recebeu ainda uma Menção Honrosa.

O diferencial está na combinação

A escolha para o Oscar encontra, portanto, um filme que reúne elementos frequentemente valorizados no circuito internacional sem abrir mão de sua identidade local.

Há uma história profundamente brasileira — ambientada no sertão cearense e construída a partir de memórias de infância —, mas os conflitos são compreensíveis em qualquer lugar: o medo de perder quem se ama, a busca por pertencimento, a relação entre pais e filhos, a descoberta da própria identidade e a necessidade de ser aceito.

Essa combinação entre o particular e o universal talvez seja a característica mais importante de “Feito Pipa” na corrida internacional. O filme não precisa abandonar o Ceará para falar com o mundo. Ao contrário: é justamente ao aprofundar seu território, seus personagens e suas relações que encontra uma linguagem capaz de atravessar fronteiras.

Depois de “Ainda Estou Aqui”

A escolha ocorre também em um momento singular para o cinema brasileiro. Em 2025, “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, tornou-se o primeiro filme brasileiro vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional. No Oscar 2026, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, voltou a colocar o Brasil entre os concorrentes.

“Feito Pipa” chega, assim, depois de dois anos de forte presença brasileira no principal prêmio do cinema mundial. Mas sua força está em apresentar outra face do país: a infância, o sertão, a diversidade e os afetos cotidianos tratados não pela chave da carência, mas pela imaginação, pela dignidade e pela possibilidade de transformação.

O próximo passo será convencer a Academia norte-americana. Antes disso, porém, o público brasileiro terá a oportunidade de conhecer o filme a partir de 5 de novembro, quando “Feito Pipa” chega aos cinemas.

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