Nesta última segunda-feira (28), no tradicional bairro do Brás, na capital paulista, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), ergueu uma imagem de crochê de Nossa Senhora Aparecida durante caminhada de campanha. O gesto, registrado por câmeras e repassado a redes sociais, expôs o oportunismo e a exploração oportunista da fé para tentar conter o desgaste eleitoral a menos de uma semana do primeiro turno.
Flávio Bolsonaro é evangélico batizado em uma tradição religiosa que repele expressamente o culto, a veneração ou a celebração de imagens de santos. Longe de representar um ato genuíno de fé ou ecumenismo, ver um político professadamente evangélico celebrando em público o símbolo que sua própria doutrina renega evidencia puro pragmatismo eleitoral que ofende a consciência religiosa de fiéis e crentes.
A encenação no Brás ocorreu na esteira de uma disputa pela liberdade de expressão de uma publicação do humorista Antonio Tabet, que foi vetada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como inverídica, que foi reposta por Dino e retirada por Fux. O tema vai ao plenário do Supremo. Trata-se da informação de que haveria articulação para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O texto em questão era o antigo Projeto de Lei 2.623/2007, de autoria do ex-deputado Victório Galli, aliado de Flávio Bolsonaro, que foi arquivado. No entanto, o histórico do próprio senador reavivou o debate, após ter declarado publicamente, em agosto, o objetivo de “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”
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Na tentativa de eximir-se de responsabilidades, o candidato acusou no domingo, sem apresentar provas, integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de alinhamento partidário na difusão de boatos. A entidade católica reagiu no mesmo dia, reafirmando sua isenção partidária e destacando que não produz notícias falsas, além de pontuar que a mentira não se combate com outra mentira. Na segunda-feira (28), contudo, o postulante ignorou o questionamento sobre se se arrependia do ataque à entidade e passou a tratar a nota oficial como um pretenso sinal de apoio, culminando na exibição da imagem religiosa horas depois.
Para quem acredita em sinais, durante a concentração do mesmo ato político, o gerador de um carro de som onde se pronunciava o prefeito Ricardo Nunes pegou fogo, sem deixar feridos.
A instrumentalização religiosa acabou provocando críticas contundentes entre diferentes segmentos. De um lado, a contradição saltou aos olhos do eleitorado evangélico mais rigoroso, surpreso ao ver um candidato de sua fé cruzar a linha dogmática para erguer e celebrar uma imagem sacra por puro cálculo de palanque. De outro, representantes católicos repudiaram o uso da Padroeira um dia após os ataques à CNBB.
O frei David, frade franciscano, teólogo, militante dos direitos humanos, qualificou o episódio como uso eleitoral desonesto, enquanto dom Vicente Ferreira lamentou a exposição das crenças populares no jogo político.
Tarcísio de Freitas, que é católico, atuou como fiador do ato alegando defender a tolerância religiosa, embora a cena tenha selado o oportunismo do momento.
Pesquisas recentes de intenção de voto refletem as oscilações do eleitorado diante do cenário. O levantamento Quaest divulgado nesta segunda-feira (28) aponta que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu de 43% para 48% entre o eleitorado católico e de 23% para 27% entre os evangélicos.
No mesmo levantamento, Flávio Bolsonaro registrou recuo de 49% para 46% no segmento evangélico. A movimentação às vésperas do pleito evidencia o desespero político de Flávio Bolsonaro.