Um filho do carnaval: Osvaldinho da Cuíca, uma vida dedicada ao samba de São Paulo, por Daniel Costa

Um filho do carnaval: Osvaldinho da Cuíca, uma vida dedicada ao samba de São Paulo

por Daniel Costa

Surgiu como um raio de luz
A imagem do céu
No rosário de Ifá
Eu vi… Ai, eu vi
Nossos babalaôs
Transformando em passarela
O universo que Olorum criou (…)
Olorum! Canta meu povo em harmonia
Olorum! Vai-Vai na apoteose da alegria
(Orun Aiyê – O Eterno Amanhecer, Osvaldinho da Cuíca e Serginho)

No último domingo, o Vai-Vai ocupou as ruas da Bela Vista para escolher o samba que levará ao Anhembi no carnaval de 2027, quando apresentará o enredo 3 obás de Xangô: A Mãe Bahia em Cantos, Cores e Memórias. Mesmo com um dia chuvoso, a comunidade compareceu em peso e, ao anoitecer, foi anunciado o samba campeão. Composto pelo quarteto formado por Naio Denay, Francis Gabriel, Anderson Neguinho e Danilo Alves, o samba conseguiu, desde o início da disputa, retratar a proposta dos carnavalescos e reforçar a identidade e o sentimento de pertencer ao Vai-Vai, algo de extrema importância para uma agremiação prestes a comemorar seu centenário. Desde as eliminatórias, ficou claro que esse carnaval reservaria momentos marcantes para a comunidade. Um deles foi ver Osvaldinho da Cuíca, aos oitenta e seis anos, defender mais uma de suas criações para a alvi-negra. O samba não prosseguiu na disputa, mas presenciar o mestre em plena atividade, exaltando seu amor pelo pavilhão, tornou-se um daqueles momentos únicos, quem viu, viu e gravou na memória.

Osvaldo Barro nasceu em 12 de fevereiro de 1940, numa terça-feira de carnaval, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Não foi um nascimento qualquer. Sua mãe assistia ao desfile de um cordão roxo e branco, provavelmente o Campos Elíseos, quando percebeu que estava na hora do parto. Já nasci ao som da batucada, diz ele, e a frase não é força de expressão: o cordão umbilical que o ligou ao samba foi, de fato, literal. Benedicta era de Mogi das Cruzes, cidade para onde seu pai, Domingos Barro, foi transferido quando servia no exército. Foi lá que se conheceram. Casaram-se em 1939 e, dez meses depois, Osvaldinho nascia. Dona Benedicta adorava assistir aos desfiles dos cordões carnavalescos no Parque da Água Branca, na São João e no bairro de Campos Elíseos. O menino que viria a se tornar um dos maiores nomes do samba paulista nasceu, portanto, no meio da festa, embalado pelo som que o acompanharia por toda a vida.

Ainda criança, com a separação dos pais, Osvaldinho foi levado para Poá, onde foi criado por parentes. Lá teve seu primeiro contato com as manifestações ligadas ao carnaval: a dança do Caiapó, em que negros se vestiam de índios e vinham batucando com penas na cabeça, arco e flecha. Íamos para a cidade a pé, andando uns cinco quilômetros no meio do mato, sem luz elétrica, só para ver o carnaval. De volta a São Paulo, foi morar na casa de uma tia no Jaçanã. Com doze anos, começou a engraxar sapatos e a se envolver com a turma que batucava. Aos treze, arrumou emprego de carregador de latões de ferro, depois foi trabalhar na feira livre. Mas o destino já estava traçado: com quinze anos, sua turminha se integrou ao Cordão Garotos do Tucuruvi, e ali começou sua trajetória no samba. Foi nesse cordão que fez um dos primeiros sambas de sua autoria, Minha Gente, Quem Vem Lá, que se tornou muito conhecido no bairro. Em 1959, com o amigo Nelson Gaya, compôs seu primeiro samba para o cordão, uma exaltação chamada Garotos do Tucuruvi. Naquele tempo, explicava ele, não existia samba-enredo, existia exaltação.

Assim, podemos dizer que Osvaldinho é, antes de tudo, um filho dos cordões, não das escolas de samba. Ele próprio faz questão de estabelecer essa diferença. Para ele, a tradição paulista era o cordão; a escola de samba é invenção carioca, inspirada nos ranchos. Antigamente, aqui em São Paulo, o carnaval era feito basicamente pelos cordões, enquanto no Rio eram mais os ranchos. O cordão é um cortejo. O rei vem com aquele chapéu enorme na frente, é a única alegoria do cordão. Aqui em São Paulo ele tinha a baliza que vinha à frente do batuque. Não tinha enredo, cantava marcha, sambas de sucesso da época. A adoção do modelo carioca, a partir dos anos 1960 e 1970, é apontada por ele como o momento em que São Paulo perdeu sua identidade própria no samba. Se a cultura dos cordões tivesse evoluído e não copiado o padrão carioca, deveria hoje também estar maravilhosa, com alegorias grandes. Porque o cordão não tinha alegoria, o cordão era mais animado e, apesar da batucada pesada, para dançar era mais leve. E com o fim dos cordões perdemos a riqueza regional. A parte plástica dos cordões foi toda perdida.

Sua formação musical veio do rádio, com Aracy de Almeida, Roberto Silva, Noel, e dos cordões que faziam batucada nas esquinas. Ainda muito novo, em 1955, montou um grupo de batuque e dois anos depois já era profissional. Tocava em rádio, gravava, acompanhava artistas, e ainda saía nos cordões em São Paulo. Acho que por ser um apaixonado pelo que fazia, tocando dia e noite, muito rapidamente já tinha uma história na música. E, além de tocar, construía seu instrumento. Aprendeu a fazer instrumentos com o pessoal dos blocos, dos cordões, e não parou nunca mais. Fez cuícas de barrica, tamborins e caixas. Sua prática se dava nestes cordões, onde tinha contato com diversos instrumentos de percussão. É uma troca, a gente ensina e aprende, dizia.

Osvaldinho e o Vai-Vai

A relação de Osvaldinho com o Vai-Vai remonta ao início da década de 1970, quando os últimos cordões, Camisa Verde, Fio de Ouro e o próprio Vai-Vai iniciaram o processo de transição para se transformar em escolas de samba. Ele participou ativamente dessa transição. Participei dessa transformação no Vai-Vai. Acredito que, acabando os últimos cordões, perdemos a identidade do samba paulista e passamos a copiar os padrões cariocas, porque escola de samba é invenção do carioca. No Vai-Vai, Osvaldinho foi fundador da Ala de Compositores e criador do regulamento que organizou a agremiação para o novo modelo. Ele relembra: Eu trabalhei como nunca na minha vida dentro do Vai-Vai. Comecei ensaiando no Jacanã. Lá tinha a maior ala do Vai-Vai, a ala da Dona Paula, uma mãe de santo que fazia um serviço social de grande relevância dentro do samba. Ela pegava os meninos de rua e abrigava, dava comida, colocava na escola e realmente os educava. Aí eu comecei a ensaiar com aqueles garotos e fiz uma primeira ala de frigideira, com dezessete frigideiras na bateria do Vai-Vai. Já existiam frigideiras individuais. Eu toquei frigideira no Tucuruvi, mas individual. Não existia uma ala de frigideiras fazendo às vezes do tamborim. Organizei os cuiqueiros, já existiam cuiqueiros muito bons, como o Caveira, o Maninho e outros velhos no Vai-Vai. Introduzi também instrumentos de harmonia. Ele fez o regulamento da ala de compositores, definindo que quem tocasse instrumento de harmonia não precisava fazer estágio, enquanto os demais cumpriam dois anos para provar que tinham amor pela entidade, pelo pavilhão, e também para a gente avaliar a conduta da pessoa e seu trabalho como compositor.

Sua estreia como compositor de samba-enredo no Vai-Vai aconteceu em 1975, com O Guarani, parceria sua com Papete. No ano seguinte, veio Solano Trindade, o Menino do Recife, composição solo, que homenageava o poeta e dramaturgo negro pernambucano radicado em São Paulo. Em 1978, Osvaldinho assinou, ao lado de Lírio, Na Arca de Noel quem entrou não saiu mais, que deu ao Vai-Vai seu primeiro título como escola de samba e quebrou a sequência de quatro títulos consecutivos do Camisa Verde e Branco. Foi um marco na história da agremiação e um dos momentos mais celebrados de sua trajetória. A década de 1980 trouxe novas contribuições decisivas. Em 1982, em parceria com Serginho, compôs Orun Aiyê, o Eterno Amanhecer, defendido por Aldo Bueno, que deu à escola mais um título. Em 1988, ao lado de Namur e Macalé do Cavaco, assinou Amado Jorge, a História de uma Raça Brasileira, defendido por Thobias da Vai-Vai, que valeu ao Vai-Vai o tricampeonato e se tornou um dos sambas-enredo mais lembrados da história da escola. No ano seguinte, a parceria com Namur e Macalé se repetiu em Escreveu não leu o Palco é meu. Em 2013, Osvaldinho voltou a assinar um samba-enredo do Vai-Vai, Sangue da Terra, Videira da Vida: Um Brinde de Amor em Plena Avenida, em parceria com Zeca do Cavaco, Ronaldinho FDQ, Evaldo Rodrigues e Valter Camargo.

Sua contribuição para o Vai-Vai não se limita aos sambas que assinou. Como fundador da Ala de Compositores, criou as condições institucionais para que outros compositores pudessem desenvolver seu trabalho e disputar espaço na escola. Como ritmista, organizou a ala de frigideiras e cuiqueiros, introduziu instrumentos de harmonia e ajudou a definir a sonoridade da bateria. A criação da ala, em 1975, foi um marco na história do samba paulistano. Ele não apenas foi um dos fundadores, mas escreveu seu regulamento, organizou os músicos por função, criou alas de instrumentos, como a frigideira e a cuíca, e estabeleceu um sistema de estágio que valorizava o compromisso com a comunidade. Fizemos um trabalho maravilhoso. Trabalhamos muito. Foi a primeira ala batizada com cerimônia em São Paulo. Quem conduziu foi Evaristo de Carvalho, ela foi criada por Jota Muniz de Souza. E a partir daí ela ganhou um grande status. O depoimento de Osvaldinho revela não apenas a importância da ala, mas a efervescência de uma agremiação viva, em que o compositor estava em sintonia com o conjunto da escola. Ele foi o articulador que levou para o Vai-Vai nomes como Geraldo Filme, Edson e Aloísio, Talismã, Zé Di, Osvaldo Arouche e Walter Pinho, Papete. Antes de Noel, eu fiz um samba com o Papete, José Ribamar, grande percussionista maranhense. Levei ele para a ala de compositores do Vai-Vai em 1974. O primeiro samba que eu ganhei no Vai-Vai foi em 1975, parceria minha com o Papete, o carnaval era na São João ainda.

Enquanto consolidava sua obra no Vai-Vai, Osvaldinho também participou da fundação do bloco carnavalesco Gaviões da Fiel, em 1974, compondo seu primeiro samba-enredo, Vai Corinthians, com o parceiro Papete, e que se tornou um hino da torcida corintiana. Em 1978, ainda no Vai-Vai quebramos a sequência do Camisa Verde e Branco. Como conseguimos ganhar esse título com a minha influência, e o enredo era fantástico: Noel Rosa. E eu ganhei o samba-enredo. Disputei com os maiores compositores de São Paulo. Lá tinha Geraldo Filme, Edson e Aloísio, que eu levei para o Vai-Vai. O Talismã disputou comigo, o Zé Di, grande campeão com Salgueiro, tinha a dupla Osvaldo Arouche e Walter Pinho.

 O carnaval e suas transformações na visão de Osvaldinho

Para Osvaldinho, o carnaval não se resume ao espetáculo. A festa também é tradição e o momento em que o sentido de comunidade entre os integrantes da agremiação é reforçado. Ele critica acidamente o que chama de mercantilização do carnaval e a perda da essência do samba. Não poupa nem os jurados, nem a mídia, nem a própria comunidade: Os jurados também têm que ser responsabilizados pela má qualidade dos sambas-enredos de hoje em dia. Vocês também são responsáveis, são culpados. A mídia e a comunidade, que aceita ser capacho da péssima qualidade dos sambas escolhidos. Tem samba bom, tem gente jovem competente, mas não tem espaço. Eu fui uma vez só julgar pra valer. Foi em última circunstância. O jurado faltou e me pegaram na avenida, eu falei: Não posso, eu sou Vai-Vai. Disseram pra mim: Nós temos confiança. Então eu fui lá e julguei. Eu não dou dez. Dez é a perfeição, não pode. Primeira coisa que vocês vão fazer. Escutar bem esse disco. Os sambas-enredos já podem vir julgados direto de casa. Oitenta por cento você já vem com a letra, melodia e a comparação com o histórico. Depois você vai julgar a divisão e o momento. O que não está embutido dentro do regulamento chama-se empolgação ou emoção. Isso você vai ver na avenida. É o mais fácil. Então vocês têm capacidade de, dois meses antes do desfile, escutarem o samba-enredo. Estudar. É o único item que não justifica errar, não tem justificativa pra erro. Leia o histórico dez vezes, entendeu, entendeu. Agora vocês vão comparar com o samba. Tá na ordem cronológica? É fiel? Tem no mínimo seis ou sete quesitos importantes para o povo entender a passagem da escola? Tem, muito bem, agora vocês vão ver a facilidade de cantar o samba. Viram se não tem plágio de anos anteriores? Porque todo ano tem, é uma porcaria.

Apesar da crítica, ele nunca parou. Apesar do desânimo, segue fazendo samba-enredo todos os anos. Não deixam ganhar, porque véio não pode ganhar mesmo, hoje é tudo manipulado. Mas eu estou bem atualizado. O mundo está sempre em evolução, isso tem que ser dito. Mas não pode evoluir sem perder a raiz, se não, não é evolução, é outra coisa.

Uma discografia que canta o samba da Paulicéia

Além da contribuição para o carnaval, a discografia de Osvaldinho é um dos mais importantes registros para quem tem interesse na história do samba paulista. O emblemático A História do Samba Paulista I, produzido em 1999 pelo selo CPC-UMES, pode ser considerado um verdadeiro documento histórico. A obra percorre a trajetória do samba em São Paulo desde o vissungo, canto de trabalho dos escravos, passando pelo lundu, com Isto é Bom, de Xisto Bahia, a primeira música brasileira gravada, pelo jongo, até chegar ao samba urbano paulistano. Participam do disco Aldo Bueno, Germano Mathias e Thobias da Vai-Vai. Outros trabalhos importantes de sua discografia incluem o primeiro LP individual, de 1974, produzido por Marcus Pereira, intitulado Vamos sambar – com Osvaldinho da Cuíca e grupo Vai-Vai, o álbum apesar da indiscutível qualidade foi alvo da artilharia do crítico musical José Ramos Tinhorão que atestou a qualidade da produção, porém seria “apenas mais um disco que reproduzia o samba carioca”. De acordo com André Domingues essa crítica foi fundamental para que nosso personagem mergulhasse na pesquisa das manifestações típicas do estado de São Paulo. Destaca-se ainda Em Referência ao Samba Paulista, de 2006, pela Atração Fonográfica. Sua produção fonográfica é marcada pela diversidade e pela profundidade: ele gravou sambas rurais, jongos, cateretês, marchas, sambas-enredo, sambas de breque, boleros e até música internacional. Sua voz e sua cuíca atravessaram fronteiras e gerações, sempre com o mesmo propósito: preservar e divulgar o samba paulista.

Osvaldinho é, como ele mesmo se define, um batuqueiro. Não um acadêmico, nem um produtor de espetáculos, mas um homem que aprendeu o samba na rua, nos cordões, nas gafieiras, e que dedicou sua vida a preservá-lo e a transmiti-lo. Sua trajetória e a história do samba paulista são indissociáveis, assim como sua ligação com o Vai-Vai. Ele não apenas testemunhou, mas construiu, com sua cuíca, composições e voz, os caminhos do samba feito em São Paulo.

Daniel Costa é historiador, jornalista, compositor e integrante do G.R.R.C. Kolombolo diá Piratininga.

Para saber mais sobre Osvaldinho da Cuíca:

Maria Apparecida Urbano. Sampa, Samba, Sambista. Osvaldinho da Cuíca. São Paulo: 2004, Edição da Autora.

Osvaldinho da Cuíca e André Domingues. Batuqueiros da Paulicéia. São Paulo: Barcarolla, 2009.

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