Governo Trump contrata especialista em operações psicológicas para a América Latina

Cúpula das Américas
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, com chefes de estado e líderes da América Latina durante a Cúpula das Américas de 2026. Foto: Daniel Torok/Casa Branca

O governo de Donald Trump contratou, por meio do Pentágono, um especialista para avaliar os efeitos de operações psicológicas e de informação do Comando Sul dos Estados Unidos, unidade militar que atua na América Latina e no Caribe. Conhecidas pela sigla PSYOP, essas operações empregam mensagens para influenciar percepções, motivações e comportamentos de públicos estrangeiros em favor dos objetivos de quem conduz a ação.

O USAspending, portal que lista os gastos do governo estadunidense, registra duas ordens destinadas à Halcyon Group International: uma de US$ 168 mil para especialista em avaliação de PSYOP e outro de US$ 1,2 milhão para serviços da Diálogo, revista digital oficial do Comando Sul. Juntas, somam US$ 1,37 milhão em obrigações financeiras assumidas pelo governo. Esses valores não equivalem à comprovação de pagamentos já realizados.

A abrangência regional está expressa em edital vinculado ao contrato principal da Halcyon. O termo de referência, datado de 28 de agosto de 2024, determina apoio à divisão de operações de informação do Comando Sul em sua sede e nos países de sua área de responsabilidade na América Latina. O documento prevê diretamente atividades em Bogotá, na Colômbia, e Quito, no Equador, e também cita o Brasil como parte da área de responsabilidade do comando.

As ordens têm datas de assinatura de 24 de abril e 8 de maio de 2026, respectivamente, e período de execução registrado de 30 de março a 29 de outubro deste ano.

Roberto Figueiredo Cavalcanti da Silva, coronel aviador da FAB, destaca que um dos principais objetivos das PsyOps é demonstrar ao adversário as vantagens de abandonar o confronto antes mesmo de seu início. Atualmente, essas operações estão amplamente difundidas em diversos setores, desempenhando papel central nas estratégias de Estados e grupos políticos. A CIA vem utilizando esse recurso à larga em golpes de estado mundo afora desde os tempos da Guerra Fria.

Elas também vêm sendo empregadas no contexto do lawfare — o uso estratégico do sistema jurídico para deslegitimar ou aniquilar um oponente. Como se baseiam tanto em dados reais quanto na disseminação deliberada de desinformação, as PsyOps frequentemente operam no limite dos parâmetros éticos e legais.

De acordo com os especialistas em Direito Internacional Tim Hwang e Lea Rosen, os avanços tecnológicos e a dinâmica do ambiente digital impulsionam uma nova geração de PsyOps, dotada de maior alcance e eficácia. Nas redes sociais, essas estratégias utilizam recursos variados, que vão desde a disseminação sistêmica de informações enganosas até a automação por meio de bots.

Southcom Comando Sul Halcyon América Latina
Trecho da página 66 do edital W91QEX24R0010 vinculado ao contrato da Halcyon com o Pentágono. A J39 é a unidade de informação do Comando Sul. Foto: Reprodução

Comunicação militar e influência na América Latina

O termo de referência detalha seleção e análise de públicos e avaliação de operações militares de apoio à informação, chamadas de MISO. Na seção dedicada a essas atividades, exige espanhol e/ou português brasileiro em nível fluente ou superior. Para os sistemas digitais, prevê gestão e manutenção em apoio a operações de influência. O documento cita nominalmente a Diálogo e determina publicações em inglês, espanhol e português brasileiro.

A revista, administrada pela Halcyon, publicou em 18 de setembro uma reportagem sobre a expansão da facção venezuelana Tren de Aragua no Brasil. O texto atribui ao grupo uma rede logística e financeira em vários estados e associa sua atuação ao Comando Vermelho, citando investigações brasileiras e a Operação Rota do Norte, de junho. A presença da organização em Roraima já era noticiada em dezembro de 2024.

Na parte financeira, porém, a reportagem cita R$ 6 bilhões movimentados pela estrutura investigada sem discriminar a parcela associada a transações ilícitas. Movimentação total não equivale, por si só, a dinheiro de origem criminosa. A produção da revista está submetida às orientações do Comando Sul, que determinam que os conteúdos sigam os planos do comando e passem por revisão e aprovação do representante governamental responsável pelo contrato antes da publicação, segundo o edital. A revista inclui militares, autoridades e formuladores de políticas entre seus públicos declarados.

O Tren de Aragua também aparece na denúncia criminal dos EUA contra Nicolás Maduro, que atribui ao venezuelano e a outros integrantes de seu governo parcerias com grupos do narcotráfico. Capturado por militares estadunidenses em janeiro, Maduro nega as acusações.

Na Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro, Trump afirmou que os Estados Unidos usarão força militar para preservar seus interesses. No mesmo dia, foi publicado um comunicado assinado por catorze países da América Latina – Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago – anunciando ações conjuntas para combater organizações que os EUA designaram como terroristas. Entre elas estão PCC e CV.

Na abertura da sessão, Lula defendeu a soberania brasileira e declarou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

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Matéria da revista Diálogo, criada pelo Comando Sul dos Estados Unidos, fala da “expansão” da facçãoTren de Aragua no Brasil. Foto: Reprodução/Diálogo

Em ano eleitoral, vaga de inteligência militar exige português fluente

A General Dynamics Information Technology (GDIT), empresa fornecedora de serviços de tecnologia informacional para o Pentágono, anunciou uma vaga para analista de inteligência com português nativo ou bilíngue. A função integra o US BICES-X, programa de compartilhamento de inteligência entre os Estados Unidos e parceiros militares, e inclui tradução, interpretação, distribuição de produtos de inteligência e pesquisa sobre vulnerabilidades geopolíticas. O programa exige cidadania estadunidense, credencial de acesso a informações sigilosas e disponibilidade para viagens a países da área do Comando Sul.

Na área de ensino, a Ascensus Global, antiga MultiLingual Solutions, divulgou uma vaga para instrutor de português brasileiro em um curso previsto para outubro e novembro de 2026. São três semanas de trabalho: uma virtual e duas presenciais em Montgomery, no Alabama, com despesas de viagem cobertas. A empresa tem histórico documentado de contratação pela Força Aérea dos EUA.

A oferta da Ascensus exige português nativo, domínio do inglês e experiência em ensino para militares ou profissionais de governo, tradução e interpretação. Não identifica o cliente nem os dias exatos do curso. O anúncio, por si só, não permite atribuir o treinamento a uma operação específica do Pentágono.

O contrato principal da Halcyon, começou em 30 de outubro de 2024, no governo de Joe Biden, e prevê a emissão de ordens até 29 de outubro de 2029. As duas ordens de 2026 abrangem as datas das eleições brasileiras: o primeiro turno, em 4 de outubro, e o eventual segundo turno, em 25 de outubro. Embora o Brasil conste da abrangência do edital, os registros consultados não descrevem uma operação dirigida à eleição brasileira nem identificam o país como destino específico da avaliação de PSYOP contratada.

Ainda sim, o Comando de Operações Especiais dos EUA declara realizar operações psicológicas pela internet em parceria com o Comando Sul. O órgão estadunidense apresenta essas atividades como contínuas e justifica sua atuação regional pelo enfrentamento de “ações adversárias” e da desinformação. Na definição oficial, os públicos que podem ser influenciados incluem governos, organizações, grupos e indivíduos.

No fim de agosto, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) encaminhou à Presidência, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral um alerta sobre o risco de interferência estadunidense nas eleições. As informações divulgadas sobre o relatório descrevem uma escalada da pressão sobre o Brasil e apontam a reafirmação da hegemonia dos EUA na América Latina como prioridade do governo Trump. Esses relatos não citam Halcyon, Ascensus ou GDIT nem estabelecem relação entre as empresas e o risco eleitoral apontado pela agência.

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