O incêndio que devastou um dos principais prédios de pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife, ganhou contornos ainda mais graves diante de uma sequência de ameaças políticas que teria antecedido o fogo. O prédio atingido na noite de quarta-feira (7) concentrava laboratórios de fármacos, genética e informática, além de equipamentos, amostras e pesquisas científicas. O incêndio provocou prejuízos milionários e destruiu materiais que representam anos de trabalho de pesquisadores e estudantes.
Agora, além de descobrir como o fogo começou, as autoridades terão de responder a uma pergunta ainda mais grave: houve uma ação criminosa motivada por extremismo político contra a universidade pública?
A hipótese ainda não foi comprovada, mas os elementos que vieram a público levaram o caso à mira das autoridades federais.
Ameaças de explosão horas antes do incêndio
O deputado federal eleito Jones Manoel (PSOL-PE) afirmou ter recebido relatos de estudantes da UFPE que teriam sido ameaçados poucas horas antes do incêndio.
Nas mensagens que circulam nas redes sociais, aparecem referências à possibilidade de “explodir o departamento”, além de menções à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
A autoria e a autenticidade dos registros ainda precisam ser confirmadas pela investigação. Mas a coincidência temporal entre as ameaças e a destruição do prédio fez aumentar a preocupação dentro da comunidade acadêmica.
Jones Manoel anunciou que pretende levar os registros à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal, além de pedir que estudantes que tenham recebido ameaças semelhantes apresentem as provas às autoridades.
Deputado eleito é apontado como administrador de grupos “Anti-Lula”
A investigação também ganhou outro elemento explosivo.
O vereador do Recife e deputado federal eleito Thiago Medina (PL-PE) foi apontado, em denúncias divulgadas pelo portal Fala News, como um dos administradores de grupos virtuais intitulados “UFPE ANTI-LULA” e “UNINASSAU BV ANTI-LULA”.
Capturas de tela divulgadas publicamente mostram Medina identificado como administrador dos grupos. Em uma das conversas, ele aparece questionando sobre uma manifestação de esquerda na UFPE e propondo uma manifestação do grupo na universidade.
Mais grave: outros registros atribuídos aos grupos reúnem mensagens de conteúdo violento, ataques políticos, além de manifestações racistas e xenofóbicas.
Em uma das mensagens reproduzidas nas denúncias, um integrante identificado como “Micael” teria escrito:
“Tenho bombas na mala do carro.”
A existência dessas mensagens não prova que Medina ou qualquer integrante dos grupos tenha provocado o incêndio. O próprio deputado eleito negou envolvimento nas acusações e classificou as denúncias como “fake news”.
Mas a gravidade dos registros exige que sejam submetidos à perícia e incorporados à investigação, caso confirmados.
A pergunta que precisa ser respondida
O incêndio ocorreu justamente em um espaço dedicado à pesquisa científica, em uma universidade pública que vinha sendo alvo de intensa disputa política, por isso, não basta descobrir onde começou o fogo.
É preciso saber quem ameaçou estudantes, por que ameaçou, quem produziu ou compartilhou as mensagens, se houve planejamento, se existiu algum vínculo entre os autores das ameaças e o incêndio e se grupos políticos foram utilizados para estimular ataques contra a comunidade acadêmica. Qualquer tentativa de destruir uma universidade ou intimidar seus estudantes e pesquisadores por razões políticas representa uma agressão direta à democracia brasileira.
Terceiro incêndio em pouco mais de uma semana
A gravidade aumenta diante de outro dado: o incêndio desta quarta-feira foi o terceiro registrado na UFPE em pouco mais de uma semana.
Em 30 de setembro, um laboratório do Departamento de Física foi atingido por fogo durante a manipulação de uma substância em um equipamento de alta temperatura. No domingo (4), outro incêndio ocorreu no Laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal, no Centro de Biociências. Agora, o fogo destruiu o prédio que abrigava laboratórios vinculados ao Núcleo de Inovação Terapêutica, além de estruturas de informática e genética. Não houve vítimas, mas o patrimônio científico foi atingido de forma devastadora.
Ciência sob ataque
O que está em jogo vai muito além das paredes destruídas; são pesquisas, equipamentos, amostras, documentos, dados científicos e anos de trabalho acadêmico que podem ter sido perdidos. A universidade pública é responsável por uma parcela decisiva da produção científica brasileira. Seus laboratórios desenvolvem pesquisas que podem resultar em medicamentos, tecnologias e soluções para problemas que afetam milhões de brasileiros.
Destruir esse patrimônio, caso seja comprovada uma ação criminosa, não seria apenas um ataque contra a UFPE, seria um ataque contra a ciência brasileira. E, se a motivação tiver sido política, o episódio assumiria uma dimensão ainda mais grave: significaria a utilização da violência para tentar calar um espaço histórico de produção de conhecimento, debate e pensamento crítico.
PF e MPF precisam investigar até o fim
A Polícia Federal abriu investigação sobre o incêndio e deverá analisar todas as circunstâncias do caso. A Advocacia-Geral da União também determinou o acompanhamento das apurações, enquanto o Ministério da Educação acompanha a situação. Para a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), não há espaço para tolerância com ameaças, intimidação ou violência política.
A Central defende uma investigação completa, transparente e independente, com a identificação e responsabilização de todos os envolvidos, seja quem for. Os fatos precisam ser esclarecidos. As mensagens precisam ser periciadas. Os suspeitos precisam ser investigados. E qualquer responsável por ameaças ou ataques contra a universidade pública deve responder perante a Justiça.
Não se pode normalizar a violência política. Não se pode permitir que grupos extremistas transformem universidades em alvos. E não se pode aceitar que laboratórios onde se produz ciência para o povo brasileiro sejam destruídos pela intolerância. O incêndio da UFPE deixa uma mensagem que não pode ser ignorada: quando a ameaça política chega aos laboratórios, a democracia inteira está sob ameaça.
A CTB defende a universidade pública, a ciência, os trabalhadores da educação e a liberdade de pensamento. A resposta à violência deve ser investigação rigorosa, mobilização democrática e defesa intransigente do patrimônio científico brasileiro.