A política não cabe no feed: o recado das urnas de 2026

A política não cabe no feed: o recado das urnas de 2026
Diante de resultados assustadores, o desânimo e a desesperança que tomaram conta da noite do dia quatro abriram espaço para uma série de reflexões. Nos primeiros movimentos de mobilização do segundo turno, ganhou força uma expectativa em torno das estratégias de comunicação nas redes sociais: jovens buscando respostas sobre como ampliar a presença digital e lideranças procurando pessoas que “saibam mexer” e “entendam de redes sociais”. É compreensível que, diante de tanto desalento, as pessoas passem a buscar saídas milagrosas ou soluções que pareçam simples. É justamente nesse momento, porém, que é preciso ter cuidado.

Dados coletados em 06/10/2026

As duas maiores votações da história são da extrema direita. Ambas ultrapassaram a marca de três milhões de votos cada. No campo progressista, os fenômenos Erika Hilton, Sâmia Bomfim e Ana Elisa acabaram por se tornar uma excessão que traz esperança. A coincidência inegável é: para a Câmara dos Deputados, os dez primeiros mais votados nacionalmente têm atuação forte nas plataformas de redes sociais. Isso não quer dizer que foram as redes sociais que os elegeram deputados, mas aponta que já não podemos mais pensar a política eleitoral ignorando a lógica das plataformas. E aí que o problema começa.

Quando a atitude desesperada é procurar pessoas que saibam usar, que querem viralizar ou aumentar o alcance e o engajamento, partimos de uma premissa de que as plataformas são ferramentas, mas esquecemos de nos perguntar como elas mesmas reorganizam aquilo que fazemos. Foi assim que percebi que o solucionismo digital criticado por Evgeny Morozov em seu livro Big Tech: A ascenção dos dados e a morte da política chegou à política eleitoral brasileira. É buscando melhores resultados nas redes que reduzimos questões políticas a problemas técnicos. Paramos de perguntar “que política estamos construindo?” para perguntar “o que o algoritmo vai recompensar mais?”.

Com essa inversão, a necessidade de produção de conteúdo passa a pautar a política, e não o inverso. É importante lembrar: número de seguidores não é indicativo de representação, alcance não é sinônimo de participação e engajamento não é mobilização. Plataformas não são termômetro eleitoral.

Atualmente, as redes sociais fazem parte do cotidiano dos sujeitos. As plataformas penetraram profundamente em nossas vidas afetando, não apenas aspectos subjetivos, mas também coletivos, impactando práticas sociais, econômicas e democráticas. Contudo, o ponto mais importante a ser colocado é que as infraestruturas dessas plataformas são controladas e seus mecanismos contaminam valores como soberania, igualdade e pluralismo.

Por isso precisamos estar atentos: a política não entra em uma plataforma neutra ou em um espaço público. Ela passa a acontecer dentro de infraestruturas privadas que possuem regras próprias. Nesse contexto, as plataformas são as responsáveis por definir quem aparece, de que maneira e com que valor. Essas decisões são tomadas arbitrariamente sem critérios bem definidos e nem transparência no processo. E aqui cabe a pergunta: a quem interessa o fato de que não podemos acessar o funcionamento e as lógicas algorítmicas? Se estamos disputando atenção do eleitorado em um espaço que não sabemos como funciona, temos um problema de ordem democrática.

Como a política não pode ser reduzida àquilo que pode ser convertido em visibilidade, a mobilização também não pode ser tratada como oportunidade de criação de conteúdo. Nem toda conversa em um bairro precisa de foto. Nem toda ação de panfleteiros precisa virar vídeo. Isso não significa abandonar as redes. Nem podemos nos dar esse luxo! Mas precisamos recusar a ideia que as redes sejam a medida de toda ação política.

As redes são hoje um campo indispensável da disputa política, mas ocupar as plataformas não significa aceitar seus valores como valores da política. Vale lembrar que elas são controladas por grandes empresas e pelos interesses do capital. Junto de Trump, os donos dessas empresas visam nossos recursos naturais que são insdispensáveis ao funcionamento de seus gigantes servidores em Data Centers. Além disso, há interesse da parte deles na eleição de figuras da extrema direita que proponham e votem contra as possíveis iniciativas de regulamentação da atuação dessas empresas no Brasil.

Por fim, o desafio democrático que se coloca, não somente para esse segundo turno, não é simplesmente aprender a usar melhor as redes sociais. É impedir que a lógica das plataformas passe a definir o que conta como política. As redes sociais são coisa séria demais para que aceitemos tratá-las como simples ferramentas.

Referências:
Debord, Guy. Sociedade do espetáculo. Tradução: Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
Morozov, Evgeny. Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política. Tradução: Cláudio Marcondes. São Paulo. Ubu Editora, 2018.
Pasquale, Frank. The Black Box Society: The Secret Algorithms That Control Money and Information. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2016
Van dijck, José; POELL, Thomas; DE WAAL, Martijn. The platform society: public values in a connective world. New York: Oxford University Press, 2018

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