O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou uma medida temporária para ampliar a importação de carne bovina e tentar reduzir os preços pagos pelos consumidores americanos em meio a uma escassez global de gado que elevou os custos da carne vermelha para processadores, restaurantes e supermercados.
Segundo informações da Axios, Trump afirmou que os Estados Unidos permitirão, durante 90 dias, a entrada de até 300 mil toneladas métricas de produtos destinados à produção de carne moída sem a tarifa aplicada às importações que excedem as cotas estabelecidas.
O presidente também afirmou ter obtido um compromisso de exportadores estrangeiros para que a carne seja vendida por 25% abaixo dos preços atuais de mercado. A Casa Branca declarou que a redução deverá ser repassada aos consumidores americanos.
Entretanto, a promessa enfrenta uma questão prática: os exportadores não controlam diretamente os preços pagos pelos consumidores. A formação do preço final depende também de processadores, distribuidores, supermercados e restaurantes. Por isso, ainda não está claro como o governo pretende assegurar que o desconto anunciado por Trump efetivamente chegará às famílias.
O governo pretende formalizar a mudança por meio de uma ordem executiva nas próximas duas semanas. Até lá, permanecem dúvidas sobre os termos do acordo com os exportadores estrangeiros e, principalmente, sobre a capacidade de transformar a promessa de carne 25% mais barata em redução efetiva nos preços das prateleiras.
Escassez de gado pressiona preços
A medida procura responder a um problema estrutural da cadeia de carne bovina americana. O rebanho dos Estados Unidos permanece próximo de níveis historicamente baixos depois de anos de redução.
Dados citados pela Axios mostram que havia 94,2 milhões de cabeças de gado e bezerros em 1º de julho, menos de 1% acima do registrado um ano antes. Apesar da recuperação marginal, esse foi o primeiro aumento registrado para o mês desde 2018.
A redução da oferta contribuiu para elevar os custos em toda a cadeia. O impacto aparece, por exemplo, nos resultados da Tyson Foods, uma das maiores empresas do setor nos Estados Unidos, que registrou um prejuízo operacional de US$ 707 milhões em sua divisão de carne bovina nos nove meses anteriores e reduziu sua projeção de lucro.
Nesse cenário, aumentar temporariamente a oferta por meio das importações pode aliviar a pressão sobre os preços no curto prazo. O problema é que a estratégia também entra em conflito com os interesses dos produtores americanos, que dependem da recuperação do rebanho doméstico.
A National Cattlemen’s Beef Association, principal entidade de representação dos pecuaristas americanos, afirmou estar decepcionada com a decisão. Para o grupo, a iniciativa prioriza uma resposta imediata à inflação em detrimento da estabilidade de longo prazo do setor.
A entidade argumenta que colocar carne importada abaixo dos preços de mercado no país não seria a melhor forma de reconstruir o rebanho americano. A preocupação é que o aumento da concorrência externa reduza os incentivos econômicos para os produtores ampliarem seus rebanhos justamente no momento em que a oferta doméstica começa a se recuperar.
A decisão também expõe uma contradição da política comercial de Trump. O presidente construiu parte de sua agenda econômica em torno do uso de tarifas para proteger a produção americana e pressionar parceiros comerciais. Agora, diante da alta dos preços da carne, o governo recorre justamente à redução temporária das barreiras tarifárias para ampliar a oferta externa.