Da Redação
Steve Witkoff e Jared Kushner devem encontrar Vladimir Putin em Moscou e, em seguida, Volodymyr Zelensky em Kiev numa missão articulada pessoalmente por Donald Trump. A movimentação é a tentativa mais recente de Washington de reativar uma negociação paralisada há meses, mas ocorre enquanto Rússia e Ucrânia continuam separadas por questões territoriais e de segurança fundamentais e a guerra volta a apresentar sinais de escalada.
Donald Trump decidiu enviar dois dos homens de sua maior confiança para uma nova missão simultaneamente diplomática e geopolítica no coração da guerra da Ucrânia. Steve Witkoff, seu principal enviado para negociações internacionais, e Jared Kushner, genro do presidente e figura central de sua diplomacia informal, viajarão para Moscou e depois para Kiev neste fim de semana numa tentativa de reabrir as negociações para encerrar o conflito. O próprio Trump confirmou nesta sexta-feira (4) que despachou os dois negociadores, enquanto fontes americanas disseram que eles deverão encontrar Vladimir Putin no Kremlin e posteriormente Volodymyr Zelensky na capital ucraniana. A confirmação é importante porque, nas primeiras horas do dia, a informação circulava principalmente a partir de fontes russas e ainda era tratada com cautela pelo Kremlin. Horas depois, Zelensky anunciou oficialmente que Witkoff e Kushner visitarão Moscou e chegarão a Kiev no domingo.
A missão chama atenção não apenas pelo itinerário, mas pela sequência escolhida por Washington. Os enviados conversarão primeiro com Putin, ouvirão diretamente a posição russa e depois seguirão para Kiev para discutir com Zelensky aquilo que emergir da reunião no Kremlin. Segundo o Axios, Witkoff e Kushner devem encontrar Putin no sábado e Zelensky no domingo. Será também a primeira visita dos dois enviados à Ucrânia desde o retorno de Trump à Casa Branca, embora ambos já tenham mantido diferentes rodadas de contatos com representantes russos. A própria assimetria vinha sendo criticada por Zelensky, que considerava inadequado que negociadores centrais da administração americana tivessem acesso repetido a Moscou sem realizar uma missão equivalente a Kiev.
A RT apresentou inicialmente a viagem como uma missão esperada havia meses e enfatizou a receptividade de Moscou aos dois americanos. Putin afirmou na quinta-feira que Witkoff e Kushner seriam sempre “bem-vindos” na Rússia e os descreveu como interlocutores sinceros. Esse enquadramento, entretanto, precisa ser colocado ao lado das informações provenientes de Washington e Kiev. A Reuters confirmou que a missão faz parte de uma nova tentativa americana de avançar uma proposta para terminar a guerra, enquanto autoridades ucranianas continuam profundamente céticas quanto à disposição do Kremlin de aceitar um acordo que preserve condições consideradas minimamente aceitáveis por Kiev. Portanto, o fato de Moscou receber positivamente os enviados de Trump demonstra a existência de um canal diplomático funcional, mas ainda não significa que exista convergência sobre os termos de uma paz.
A dificuldade está justamente no conteúdo que deverá ser negociado. O Kremlin voltou a indicar nesta sexta-feira que as condições fundamentais apresentadas anteriormente por Putin permanecem essencialmente inalteradas. Entre elas está a exigência de que a Ucrânia abandone definitivamente a perspectiva de ingresso na OTAN e aceite condições territoriais envolvendo regiões reivindicadas por Moscou. Kiev rejeita a entrega de territórios que ainda controla e considera que aceitar previamente exigências territoriais russas equivaleria a transformar conquistas militares em condições impostas para a abertura da própria paz. Dmitry Peskov afirmou que uma solução negociada não pode ser descartada, mas reconheceu que a base necessária para um acordo ainda não existe. Essa talvez seja a informação mais importante para dimensionar a viagem: os canais diplomáticos estão sendo reabertos antes que tenha desaparecido o abismo político que os fechou.
Trump procura justamente descobrir se esse abismo pode ser reduzido. Sua administração tentou diversas fórmulas desde o retorno à Casa Branca, mas os resultados até agora foram limitados. As últimas negociações mediadas pelos Estados Unidos entre russos e ucranianos ocorreram em fevereiro e perderam impulso quando Washington concentrou atenção e recursos na guerra contra o Irã. Witkoff e Kushner continuaram mantendo contatos separados com representantes dos dois lados, porém sem produzir um avanço capaz de levar Putin e Zelensky a uma negociação conclusiva. Mais recentemente, o diretor da CIA, John Ratcliffe, também esteve em Moscou e conversou com dirigentes dos serviços russos. Segundo informações obtidas pelo Axios, um dos objetivos era compreender se integrantes do aparato russo poderiam contribuir para convencer Putin a retomar uma via diplomática. Dez dias depois dessa movimentação, Trump envia seus dois negociadores políticos diretamente ao Kremlin.
Essa sequência sugere que a missão não surgiu de improviso. Existe uma tentativa americana de reconstruir canais em diferentes níveis — inteligência, diplomacia presidencial e interlocução direta — antes de testar novamente uma fórmula política. Isso também ajuda a explicar por que Witkoff e Kushner foram escolhidos. Trump frequentemente prefere enviados pessoalmente ligados a ele a estruturas diplomáticas convencionais quando considera que uma negociação exige liberdade para testar propostas, fazer concessões exploratórias ou transmitir mensagens diretamente entre chefes de Estado. Kushner desempenhou papel semelhante durante o primeiro governo Trump no Oriente Médio, enquanto Witkoff se consolidou no segundo mandato como um dos principais negociadores presidenciais. A vantagem dessa diplomacia personalizada é a velocidade e o acesso direto ao presidente americano; seu risco é concentrar negociações extremamente complexas num círculo reduzido e menos institucionalizado.
Há ainda outro elemento que torna o fim de semana particularmente delicado. A visita ocorrerá em meio a ataques russos contra cidades ucranianas e a avaliações de Kiev de que Moscou pode estar preparando novas operações militares. Autoridades ucranianas disseram possuir informações sobre possíveis cenários ofensivos russos no norte do país, enquanto ataques de mísseis e drones continuam atingindo diferentes regiões. Zelensky afirmou nesta sexta-feira que doze pessoas ficaram feridas em um ataque a Kiev e anunciou que as forças ucranianas responderão no momento considerado adequado. Diplomacia e guerra, portanto, não estão acontecendo em fases sucessivas. Estão acontecendo ao mesmo tempo.
É nesse contexto que Zelensky apresentou uma proposta politicamente significativa: suspender ataques aéreos durante a passagem dos americanos pela região. O presidente ucraniano afirmou oficialmente que seu país não realizará ataques aéreos durante o período necessário para a viagem e pediu que Moscou adote reciprocidade, criando uma espécie de janela temporária de segurança para os negociadores. A iniciativa está longe de representar um cessar-fogo geral, mas possui valor como teste mínimo de confiança. Se os dois lados conseguirem interromper determinadas operações durante a missão americana, haverá pelo menos uma demonstração de capacidade de coordenação. Se nem mesmo uma pausa limitada for possível, isso mostrará o tamanho da distância existente entre a diplomacia e a realidade militar.
O desafio de Trump é ainda maior porque qualquer acordo precisa responder a três questões que atravessam praticamente todas as tentativas anteriores de negociação: território, segurança e equilíbrio militar depois da guerra. Moscou quer impedir que a Ucrânia seja definitivamente incorporada à infraestrutura militar ocidental e procura consolidar territorialmente resultados produzidos no campo de batalha. Kiev precisa evitar que um cessar-fogo apenas congele a linha de frente e permita à Rússia recompor suas forças para uma nova ofensiva futura. Os europeus, por sua vez, têm interesse direto em impedir que um acordo bilateral entre Washington e Moscou redefina a arquitetura de segurança continental sem participação efetiva das potências europeias. Uma paz capaz apenas de suspender temporariamente os combates pode ser muito diferente de uma paz capaz de eliminar os incentivos para uma nova guerra.
Essa é também a razão pela qual a expressão “acordo de paz” precisa ser utilizada com cautela. A diplomacia pode produzir inicialmente algo muito mais limitado: redução de ataques contra infraestrutura, mecanismos de segurança para navegação, intercâmbio de prisioneiros, proteção de instalações estratégicas, congelamento parcial de determinadas operações ou alguma fórmula de cessar-fogo. Cada um desses passos poderia diminuir o custo humano da guerra sem resolver imediatamente a disputa territorial. Em conflitos prolongados, a construção de uma saída frequentemente ocorre por camadas. O problema é que cada lado teme que uma pausa seja utilizada pelo adversário para melhorar sua posição militar.
A ordem da viagem, Moscou primeiro e Kiev depois, também coloca Witkoff e Kushner numa posição incomum. Eles não serão apenas representantes dos Estados Unidos; funcionarão, na prática, como transmissores entre dois governos que continuam incapazes de produzir diretamente um entendimento político abrangente. O que Putin disser no Kremlin chegará a Zelensky poucas horas depois por meio dos americanos, e a reação ucraniana retornará a Washington. Caso exista alguma margem de convergência, Trump poderá tentar converter essa diplomacia itinerante numa nova rodada direta ou, eventualmente, num encontro de nível presidencial. Mas isso exigiria superar um obstáculo que permanece intacto: Putin rejeitou propostas anteriores de uma cúpula trilateral imediata com Trump e Zelensky.
Existe, portanto, uma disputa silenciosa sobre quem controla o processo de paz. Para Trump, assumir o papel de mediador central reforça a ideia de que apenas Washington possui peso suficiente para mover simultaneamente Moscou e Kiev. Para Putin, negociar diretamente com enviados presidenciais americanos reafirma a Rússia como potência cuja segurança deve ser discutida com os Estados Unidos, e não apenas com a Ucrânia. Para Zelensky, o desafio consiste em manter Washington envolvido sem permitir que o destino territorial ucraniano seja decidido numa negociação entre americanos e russos da qual Kiev apenas receba posteriormente os termos. Os mesmos encontros podem, portanto, servir a estratégias diferentes.
A cobertura da RT deixa particularmente visível a narrativa russa dessa disputa. O veículo enfatiza a disposição de Putin para negociar e atribui parte importante do bloqueio anterior à resistência de Zelensky em aceitar compromissos. Essa é uma interpretação coerente com a posição de Moscou, mas não encerra a questão. Para a Ucrânia, aquilo que o Kremlin chama de compromisso inclui concessões territoriais e estratégicas que Kiev considera incompatíveis com sua soberania e sua segurança futura. A Reuters, por sua vez, registra que as posições fundamentais continuam muito distantes. É precisamente essa diferença de enquadramento que torna necessário observar não apenas quem declara desejar a paz, mas quais condições cada parte estabelece para aceitá-la.
O fim de semana poderá, assim, produzir algo politicamente mais importante do que um acordo imediato: revelar se existe uma zona real de negociação. Se Witkoff e Kushner saírem do Kremlin com alguma flexibilização russa e encontrarem em Kiev disposição para trabalhar sobre ela, Trump terá conseguido reabrir um processo que estava praticamente congelado desde fevereiro. Se receberem de Putin essencialmente as mesmas condições anteriormente rejeitadas por Zelensky, e de Zelensky a mesma negativa, a missão servirá principalmente para confirmar que o impasse continua sendo estrutural. A diplomacia terá voltado a se movimentar, mas a guerra continuará determinando a correlação de forças.
Depois de quatro anos e meio de um conflito que se transformou na guerra mais devastadora da Europa desde 1945, talvez seja essa a verdadeira importância da viagem. Washington está novamente tentando colocar negociação política no mesmo plano da pressão militar. Trump aposta que relações pessoais, enviados com acesso direto aos presidentes e uma proposta americana renovada podem romper uma paralisia que diplomatas convencionais não conseguiram superar. Moscou aceita conversar. Kiev também. Isso ainda está muito longe de significar paz, mas cria uma oportunidade que não existia algumas semanas atrás. A questão decisiva será saber se Witkoff e Kushner retornarão apenas com duas versões incompatíveis da mesma guerra ou com os primeiros elementos de uma fórmula que Putin e Zelensky possam, finalmente, negociar.