Raça e classe atravessam debates na 6ª Feira Estadual da Reforma Agrária em Minas Gerais

Laura Sabino
Da página do MST

Foto: Iris Pacheco

Neste sábado (12), a 6ª Feira Estadual da Reforma Agrária, em Minas Gerais, colocou no centro de seus debates uma compreensão fundamental: não é possível explicar e combater a concentração de terras no Brasil sem discutir a questão racial. A estrutura fundiária brasileira foi construída sobre a invasão dos territórios indígenas, a escravização da população negra e a concentração da propriedade nas mãos de poucos. Por isso, falar em Reforma Agrária também é compreender quem foi historicamente expulso da terra, quem trabalhou nela sem receber e quem acumulou patrimônio e poder político por meio dessa exploração.

Para Makota Celinha, coordenadora-geral do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (CENARAB), a Feira da Reforma Agrária também é um espaço para recuperar histórias de resistência que foram apagadas e reconhecer o protagonismo negro nas lutas pela liberdade, pela terra e pela transformação social. Ela destacou que o racismo não pode ser tratado como uma pauta separada da luta pela Reforma Agrária.

“Os primeiros Sem Terra foram os povos negros trazidos à força para estas terras, onde não tinham direito a própria terra e foram obrigados a trabalhar sem receber nada em troca. Hoje, a população negra permanece entre as principais vítimas dos conflitos territoriais e da precarização do trabalho”, afirmou.

Dos quilombos às ocupações de terra, a população negra sempre esteve no centro da resistência popular. Organizou comunidades, preservou conhecimentos, produziu alimentos e enfrentou o latifúndio. Essa história permanece viva nas famílias que hoje constroem acampamentos, assentamentos, cooperativas e experiências de produção agroecológica.

Maíra, do Setor de Formação do MST na região Norte de Minas Gerais, lembrou que a concentração fundiária faz parte de uma estrutura do próprio Estado brasileiro que, ao longo da história, negou território, trabalho digno e condições de vida à população negra. “O Estado brasileiro criou mecanismos para impedir o acesso das pessoas negras à terra, como a Lei de Terras de 1850. Enquanto os antigos senhores de engenho mantiveram suas propriedades e seu poder, a população negra foi empurrada para o trabalho precarizado no campo e para as periferias das cidades”, explicou.

Aprovada ainda durante o regime escravista, a Lei de Terras estabeleceu a compra como principal forma de acesso à propriedade. Em um país onde a população negra escravizada não recebia salário, a medida determinava, na prática, quem poderia se tornar proprietário e quem continuaria excluído.

Mesmo depois da conquista da liberdade formal, a população negra não recebeu terras, reparação ou condições materiais para construir uma vida digna. Enquanto o patrimônio dos grandes proprietários foi preservado, milhões de pessoas negras foram lançadas ao trabalho precarizado, à exploração e à pobreza. 

A abolição encerrou juridicamente a escravidão, mas não destruiu as estruturas econômicas e políticas construídas por ela. O latifúndio permaneceu. A concentração da riqueza permaneceu. E a população que durante séculos trabalhou na terra continuou impedida de ter acesso a ela.

Reforma Agrária Popular também é luta antirracista

Pai Paulo Azarias defendeu que, o projeto de Reforma Agrária precisa ser popular e isso é, necessariamente, antirracista. Democratizar o acesso à terra significa enfrentar uma estrutura formada pelo colonialismo, pela escravidão e pela exclusão histórica da população negra e garantir território, trabalho, produção de alimentos, dignidade e poder político a quem teve esses direitos negados durante séculos.

“Discutir o racismo na Feira da Reforma Agrária não é acrescentar um assunto secundário à programação. É debater o próprio centro da questão agrária brasileira. Terra, raça e classe fazem parte da mesma história e também precisam fazer parte do mesmo projeto de transformação”, afirmou.

Levar esse debate para dentro da Feira significa ainda reconhecer os desafios presentes nas próprias organizações populares. A luta antirracista precisa atravessar a formação política, as instâncias de decisão, a distribuição de responsabilidades e as práticas cotidianas dos movimentos. Não basta denunciar o racismo existente fora das organizações. É necessário enfrentá-lo em todos os espaços e construir, desde agora, novas relações sociais.

A 6ª Feira Estadual da Reforma Agrária reafirmou que a questão racial não é um complemento da luta pela terra. Ela está em sua origem, atravessa o presente e precisa ocupar um lugar central no projeto de transformação defendido pelos movimentos.

Artigo Anterior

Esquecida pela mídia, privatização da Emae liga Tarcísio ao Master

Próximo Artigo

Casa de Kamala Harris em Malibu é invadida; polícia reforçará patrulhas

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!