
A divisão por renda da mais recente pesquisa Datafolha expõe um paradoxo da eleição presidencial. Lula (PT) lidera por 47% a 27% entre eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos, mas o quadro se inverte a partir daí: Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vence por 42% a 31% entre quem recebe mais de dois a cinco mínimos e por 47% a 27% acima de cinco salários. As diferenças estão fora do empate técnico mesmo consideradas as margens específicas de cada faixa, segundo levantamento do último Datafolha.
O aumento da renda, porém, não significa independência em relação ao Estado. Uma pesquisa Ipsos-Ipec de 2025, com 3.500 entrevistados em dez capitais, encontrou uso de algum tipo de transporte público coletivo por 76% das pessoas com renda familiar entre dois e cinco salários mínimos e por 67% das que recebiam mais de cinco. Quando o recorte é apenas ônibus municipal, BRT ou sistemas equivalentes, os índices ainda eram de 67% e 55%, respectivamente. O levantamento mostra que o uso cai à medida que a renda aumenta, mas permanece majoritário mesmo nas faixas superiores analisadas.
Na saúde, a lógica é semelhante. Apenas cerca de 25% da população brasileira tinha cobertura de plano médico privado em julho de 2026, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar. E mesmo quem possui plano continua usando a rede pública, já que a ANS registrou, em 2024, média nacional de 8,88 atendimentos no SUS para cada mil beneficiários de planos privados. Entre usuários de planos empresariais, a taxa subiu de 6,25 para 8,20 atendimentos por mil entre 2021 e 2024.
O mesmo vale para a educação. Dados do IBGE mostram que a rede pública não atende exclusivamente as camadas de menor renda. No ensino superior público, em 2024, 24,3% dos estudantes pertenciam ao quarto quinto de renda da população e outros 28% estavam entre os 20% de maior rendimento. Ou seja, mesmo no topo da distribuição há uso direto de universidades financiadas pelo Estado.

É nesse ponto que o recorte eleitoral encontra o programa econômico de Flávio Bolsonaro. O candidato transformou o “tesouraço” em uma das marcas de sua campanha e propõe um novo teto de gastos, corte de ao menos dez ministérios, redução da estrutura federal e retomada do Programa Nacional de Desestatização. Em Copacabana, ele voltou a defender publicamente a política de cortes, em uma agenda que também prevê vouchers para creches e maior integração entre os setores público e privado.
Isso não significa que o plano proponha abolir SUS, escola pública ou benefícios sociais. Flávio Bolsonaro, por exemplo, promete atualizar a tabela do SUS e integrar eletronicamente as redes pública e privada. Mas parcela importante dos eleitores que utiliza serviços estatais apoia um candidato cujo projeto prevê redução da estrutura pública, contenção de gastos e ampliação da participação privada em áreas hoje atendidas pelo Estado.
Em agenda de campanha, neste sábado, 12, em Curitiba, Lula, presidente e candidato a reeleição afirmou: “A gente tem o direito de votar em quem a gente quiser. Agora vocês só não podem votar para prejudicar vocês”, disse o presidente, e pediu que o eleitor definisse primeiro “o Brasil que você quer” e só depois escolhesse o candidato, advertindo para o risco de “colocar uma raposa dentro do galinheiro”.