Quando o município muda o mundo, por Célio Turino
Para Telma de Souza e uma geração que fez da política
um gesto de cuidado com a vida
Telma de Souza faleceu no dia 10 de outubro de 2026, entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial brasileira, ela tinha 82 anos. Quem foi essa mulher?
Antes de falar dela, falo do tempo em que ela governou a cidade de Santos. Uma ilha que carrega o mundo dentro de si, portuária de chegadas e partidas. Pelo porto entram e saem riquezas, línguas, culturas, também entram dores, pragas e epidemias, como cargas invisíveis, dessas que se instalam nos corpos e ultrapassam fronteiras sem pedir licença. Nem tudo que vai pelos mares vem acondicionado em contêineres. Nos anos 1980, enquanto o mundo, assustado, conhecia uma epidemia sem nome, que sequer sabia enfrentar, Santos tornava-se um dos epicentros da doença. A intensa circulação portuária, as desigualdades, o compartilhamento de seringas, a exploração sexual, a desinformação e os preconceitos compunham uma geografia cruel. Os índices de infecção pelo sangue e pelo sémen alcançavam patamares alarmantes. O medo caminhava pelas ruas, e, como tantas vezes na história, procurava culpados antes de encontrar soluções. A doença ganhou um nome, AIDS. Os doentes, sabia-se que morriam rapidamente, empalideciam, adoeciam, emagreciam, sentiam dores, perdiam o ar, e eram transformados em estatística, estigma. Considerada uma das cidades com maior índice de infecção por AIDS no planeta, parecia que a cidade iria acabar, como pensou-se que acabaria sob Febre Amarela do início do século XX. Lugar a ser evitado e temido, em que a ignorância vestia roupa da virtude, e a morte, antes de chegar, vinha acompanhada de sentença moral.
Então veio 1988 e uma mulher foi eleita prefeita da cidade, Telma de Souza. Parece pouco, dito assim. Uma eleição municipal, mais uma alternância de poder na jovem democracia brasileira, ainda aprendendo a respirar depois de duas décadas de ditadura. Mas há acontecimentos cuja grandeza não cabe no instante em que ocorrem. São sementes. Precisam do tempo para revelar a extensão de suas raízes, e quando a árvore abre a copa, sequer sabemos de onde a semente veio. Telma compreendeu algo que a política, tantas vezes, esquece, não se enfrenta uma epidemia combatendo as pessoas que adoecem, vence-se uma epidemia cuidando delas. A prefeitura agiu. Serviços de saúde foram estruturados, a prevenção ganhou as ruas, o diálogo alcançou populações que até então só conheciam a presença do Estado pela repressão ou pelo abandono. A política pública não trouxe a cura, inventou a prevenção, distribuíram preservativos na zona do meretrício, atenderam com humanidade as pessoas vivendo com HIV, realizaram trabalho com profissionais do sexo, adotaram medidas de redução de danos entre usuários de drogas injetáveis. Medidas que hoje podem parecer evidentes, mas que naquele tempo desafiavam tabus e poderes. Não foi apenas uma política sanitária, foi uma mudança na própria compreensão do humano.
Creio que pela primeira vez, ao menos no Brasil, uma política pública compreendeu o corpo para além de um território de julgamento. O outro, aquele infectado, quase um espectro de zumbi, deixava de ser ameaça para ser reconhecido como parte de nós; humanidade não é atributo individual, é relação, e uma sociedade que abandona os seus mais vulneráveis mutila a si mesma. Santos ajudou a abrir caminhos que seriam percorridos pelo Brasil e por experiências internacionais, sendo referência em redução de danos e prevenção. Articulou saúde e direitos humanos como resultado da ação clarividente de uma prefeita e sua equipe, contribuindo para uma nova inteligência pública diante da epidemia. O porto, antes imagem de uma epidemia global, tornava-se metáfora de sua resposta. A cidade que recebera do mundo uma ameaça devolvia ao mundo uma esperança. O mesmo mar, outros caminhos. Não foi acaso.
Havia um tempo germinando sob o asfalto das cidades brasileiras. Décadas de resistência à ditadura, organização de trabalhadores, movimentos populares, comunidades eclesiais de base, sindicatos, associações de moradores, intelectuais, artistas, mulheres que já não aceitavam permanecer nas margens da história. Tudo isso vivíamos em 1988. A Constituição Cidadã era promulgada como resultado não só da ação no parlamento, era um tempo que vinha sendo tecido nas fábricas, periferias, universidades, nas greves e na coragem cotidiana de quem insistia em acreditar que o Brasil poderia ser muito melhor. Telma é expressão desse tempo e foi eleita prefeita nesses instantes em que a história parece acelerar sua própria respiração.
O Partido dos Trabalhadores, ainda jovem, conquistara prefeituras importantes; mais que vitórias eleitorais, foram aberturas para laboratórios de políticas públicas, construídas a partir da experiência com e para as pessoas. Em São Paulo, Luiza Erundina abriu caminhos para os mutirões autogestionários de moradia; e trabalhadores que construíam a cidade, mas dela eram expulsos, passaram a erguer suas próprias casas, tijolo sobre tijolo. Construía-se futuro comum. Na mesma gestão, a descoberta da vala clandestina de Perus ajudou a arrancar da terra a verdade que a ditadura tentara sepultar, e ossadas de desaparecidos políticos, misturadas às de tantos mortos anônimos, denunciavam o pacto de silêncio sobre a violência de Estado. Com ternura e coragem o governo de Erundina afirmou que não há futuro digno erguido sobre mortos sem nome. Das valas da ditadura às valas de outra pandemia, décadas depois, com o Covid, não nos esqueçamos dessa mensagem.
Em Campinas, onde participei como secretário de governo e depois de cultura, Jacó Bittar, líder petroleiro e primeiro presidente nacional do PT, fundador da CUT, também experimentava novos caminhos. O Passe Passeio foi a primeira política de tarifa zero no país, aos domingos, à época Campinas foi reconhecida como grande referência nacional em cultura, também a campanha pelo plantio de um milhão de árvores. Mobilidade, cultura, natureza, a cidade como organismo vivo, não como engrenagem mecânica. Plantar árvores era também plantar uma ideia de futuro, compromisso com gente que ainda nem havia nascido. Em Porto Alegre, Olívio Dutra abriu o orçamento público à participação popular. Com Orçamento Participativo e nas Assembleias Populares, a democracia deixava de ser abstração para tornar-se verbo conjugado coletivamente.
Santos, São Paulo, Campinas, Porto Alegre, entre outros municípios que tiveram a coragem de eleger candidaturas vermelhas, como São Bernardo do Campo, Santo André, Vitória, Piracicaba, Diadema; essa, já vinda de eleição anterior e que serviu de exemplo. Experiências diferentes a expressarem o município como lugar de realização da utopia. Pelo território, Telma mudou o mundo, realizou não a utopia suspensa num horizonte inalcançável, mas aquela que se deixa tocar. A utopia que se apresenta na chave de uma casa, na árvore plantada, no orçamento discutido, na memória recuperada, na seringa que deixa de transmitir o vírus, na mão que acolhe alguém que todos rejeitaram. Cuidou de sua gente. Sem a coragem daquele momento, sem a escolha daquelas políticas, hoje, o convívio com o vírus HIV e o enfrentamento à doença não teria o sucesso que teve.
Uma utopia do cuidado que mudou uma cidade, o Brasil e o mundo. E a maioria das pessoas sequer sabe disso. Há filosofia e política contida nesses gestos, da prefeita Telma, de Erundina e tantos mais daquele período. A liberdade não se realiza na solidão, mas na construção do comum, e direitos não existem plenamente enquanto permanecem apenas escritos. A democracia não é um estado alcançado, mas um processo de criação humana contínua, obra inacabada, sempre ameaçada pela acomodação e pelo esquecimento. Lembro de Telma, homenageio sua vida no momento de morte ao mesmo tempo em que penso no que pode se abater sobre o Brasil daqui alguns dias. Paro. Reflito. Retrocederemos àquele período de antes ou honraremos aqueles que o mudaram?
Há revoluções que não tomam palácios, abrem postos de saúde. Em Santos, gente que poderia ter morrido encontrou cuidado, pessoas que viviam escondidas puderam procurar atendimento. A morte continuou existindo, mas deixou de ser aceita como destino inevitável dos abandonados. Tanta gente que vive com HIV nos dias atuais é tributária dessa coragem; e nem sabe disso. Trinta e oito anos depois daquela eleição, Telma de Souza parte às vésperas de mais um momento de decisão, agora, presidencial. O país novamente se interroga sobre seu destino. E a história, essa senhora de memória longa e paciência curta, parece perguntar sobre o que faremos com os sonhos que recebemos.
Muita coisa se perdeu pelo caminho. Não necessariamente as conquistas, algumas permanecem, incorporadas ao cotidiano, naturalizadas como se sempre tivessem existido. Perdeu-se a memória de sua construção, as novas gerações usufruem de direitos sem conhecer as lutas que os tornaram possíveis. Como historiador, afirmo que essa é uma das formas mais sutis de expropriação, roubar de um povo a consciência de suas próprias lutas, e quando um direito deixa de ser reconhecido como conquista, passa a parecer concessão. E aquilo que parece concedido pode ser retirado sem que se perceba a violência da retirada. Mas a história não desaparece quando deixa de ser contada. Permanece impregnada na pele. Na pele de quem sobreviveu à AIDS, de quem conquistou uma moradia, de quem encontrou um nome de um parente nos arquivos da repressão. Na memória de quem aprendeu a decidir sobre o orçamento de sua cidade (e que hoje não decide mais, vide Porto Alegre). Ela persiste no sorriso das crianças que brincam à sombra das árvores plantadas por uma geração anterior.
Nós somos feitos também dessas memórias que não sabemos possuir. Há fios invisíveis ligando uma decisão tomada em 1988 à vida de alguém que nasce em 2026. Fios da história (dei esse título ao meu livro de poesia). Alguns se rompem, outros permanecem subterrâneos, como raízes atravessando a terra à procura de água. Não os vemos, mas deles depende a floresta. Telma de Souza é uma dessas raízes. E há quem queira cortá-las. Escrevo sobre ela para falar de hoje, mais precisamente de daqui a alguns dias, quando o povo realizará sua segunda volta (gosto de como “segundo turno eleitoral” é dito em idioma espanhol, a segunda volta, como uma segunda oportunidade para não errar). O avanço da extrema direita, a disseminação do ódio, o desprezo pelo conhecimento científico, a transformação do diferente em inimigo e a naturalização da crueldade ameaçam mais que políticas públicas. Ameaçam uma concepção de humanidade arduamente construída, a ideia de que ninguém deve ser abandonado por sua condição social, identidade, escolhas ou doença. A ideia de que o Estado existe para proteger a vida, não para selecionar quais vidas merecem proteção. Essa é a Telma de Souza, expressão de um tempo em que a política se permitia experimentar, aprender, errar, corrigir, inventar. Quando a democracia não era defendida apenas como procedimento institucional, mas vivida como potência criadora.
Homenageio essa grande mulher, e chamo atenção, não para repetir o passado. A história não é círculo fechado, é espiral, retorna a lugares conhecidos, mas em outra altura, incorporando experiências, contradições, possibilidades. A semente não reproduz simplesmente a árvore de onde caiu, ela encontra outro solo, outras chuvas, outros ventos. E cresce. A lembrança de Telma, porém, não pode se resumir à homenagem. Homenagens podem se converter em monumentos fixos, e a política que ela (e tantos da geração dela) representou, era movimento. Era coragem de contrariar consensos injustos, de olhar para uma cidade ferida e descobrir nela não havia apenas problemas a administrar, mas vidas a libertar. A melhor homenagem a ela é continuar. Continuar quando o preconceito volta a se apresentar como moralidade e o autoritarismo se disfarça de ordem. Continuar quando a desesperança parece mais razoável que o sonho.
Por um instante, volto a Santos. Ia lá quando criança, eu, minha mãe e minha avó, que viveu em Santos no tempo que a cidade ficou conhecida como “Cidade Vermelha”, está nos Subterrâneos da Liberdade, de Jorge Amado. Imagino o porto ao amanhecer, os navios chegando e partindo; e o mar conservando sua indiferença antiga diante das disputas humanas. As ondas se quebram na areia longa, recuam, retornam. Foi um tempo bom e parecia infinito. O infinito também habita o pequeno, e uma vida salva contém um mundo.
Vá em paz, companheira Telma de Souza, a prefeita que, pelo cuidado, salvou o mundo inteiro.
Célio Turino – historiador, escritor, filósofo e poeta. Após 40 anos no serviço público, quando idealizou e implantou diversos programas, como Recreio nas Férias, Xadrez e Damas em Tampinhas, Cultura Viva e Pontos de Cultura, entre outros, agora se dedica a escrever e partilhar o que aprendeu com o povo. Seus livros mais recentes são: SEMENTEIRA (editora Autonomia Literária) e FIOS DA HISTÓRIA – poemas (editora Cloé)
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