PT muda o tom para o segundo turno e prepara confronto direto com Flávio Bolsonaro

Edinho Silva anuncia campanha mais ofensiva, diz que partido vai colocar frente a frente as trajetórias de Lula e Flávio e promete levar ao segundo turno propostas de reforma do Judiciário e do sistema político

Da Redação

O segundo turno começou com uma mudança explícita de tom no comando da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, o PT decidiu abandonar parte da cautela que marcou sua estratégia anterior e preparar um confronto político mais direto com o candidato do PL. O presidente nacional do partido e coordenador da campanha, Edinho Silva, afirmou que a próxima etapa será construída sobre a comparação entre os dois projetos de país, mas também sobre a trajetória dos dois candidatos, os grupos políticos que representam e as contradições que carregam.

A orientação anunciada por Edinho vai além de aumentar a agressividade da propaganda eleitoral. O PT pretende utilizar as três semanas restantes para disputar temas nos quais a direita conseguiu avançar durante os últimos anos, particularmente segurança pública, corrupção, funcionamento do Judiciário e desgaste do sistema político. Ao mesmo tempo, o partido quer apresentar Lula como representante de um campo democrático e socialmente distinto daquele encarnado por Flávio Bolsonaro. Na avaliação da direção petista, o segundo turno oferece uma oportunidade que não existia da mesma forma na primeira etapa: com apenas dois candidatos, cada debate sobre o país poderá ser transformado numa comparação direta.

Edinho deixou essa intenção particularmente clara ao falar com jornalistas depois do resultado. Segundo ele, a campanha pretende confrontar aquilo que chamou de “crimes de Flávio Bolsonaro” com o projeto representado por Lula. A formulação é do presidente do PT e deverá aparecer como uma das linhas políticas da campanha; do ponto de vista jornalístico e jurídico, eventuais acusações contra Flávio precisam continuar sendo tratadas individualmente, distinguindo fatos comprovados, investigações, denúncias, arquivamentos e condenações. O segundo turno promete justamente aumentar a disputa em torno dessas fronteiras.

A decisão representa uma tentativa de responder a uma dificuldade que o próprio PT já havia identificado antes da votação. Parte da direção partidária considerava que Lula permaneceu durante tempo demais na defensiva enquanto o bolsonarismo conseguia associar sua candidatura a uma narrativa de mudança, apesar de Flávio pertencer a uma família que ocupa o centro da política brasileira há décadas. Dias antes do primeiro turno, Edinho já dizia que a disputa não seria apenas contra o candidato do PL, mas contra um “sentimento de mudança” presente em parte do eleitorado. O resultado de domingo transformou essa avaliação em urgência política.

Flávio terminou o primeiro turno na frente e Lula terá agora de disputar não apenas votos, mas o significado da própria ideia de renovação. A campanha petista pretende argumentar que a alternativa oferecida pelo PL não representa ruptura com estruturas tradicionais de poder e que a família Bolsonaro possui uma longa trajetória institucional, eleitoral e parlamentar. Do outro lado, Flávio tentará transformar a condição de Lula como presidente da República em símbolo de continuidade e responsabilizá-lo pelos problemas do governo atual. O segundo turno começa, portanto, como uma disputa para decidir qual dos dois conseguirá colocar o adversário na posição de representante do passado.

O PT quer falar de um assunto que durante anos dividiu a própria esquerda

Talvez a novidade politicamente mais relevante da fala de Edinho não esteja no confronto com Flávio, mas na disposição de colocar a reforma do Judiciário no centro da campanha. “Esse Poder Judiciário não nos serve”, afirmou o presidente do PT, ao defender mudanças tanto no sistema de Justiça quanto no Legislativo. Ele também declarou que o modelo político brasileiro “apodreceu”, linguagem incomumente dura para o dirigente do partido que ocupa atualmente a Presidência da República.

Não é uma proposta surgida depois da derrota relativa do primeiro turno. Durante setembro, a direção petista já havia aprovado uma resolução defendendo mudanças significativas na estrutura do Judiciário. Entre elas estão a criação de mandatos para ministros das cortes superiores, ampliação da presença da sociedade civil no Conselho Nacional de Justiça e no Conselho Nacional do Ministério Público, criação de códigos de ética, combate aos supersalários e endurecimento das penas para determinados crimes quando cometidos por integrantes do sistema de Justiça.

A ideia de mandato para ministros do Supremo é particularmente significativa. Atualmente, integrantes do STF permanecem no cargo até a aposentadoria compulsória aos 75 anos, salvo renúncia, morte ou eventual perda do cargo nas hipóteses constitucionais. A proposta discutida pelo PT substituiria essa permanência potencialmente longa por mandatos definidos. Os detalhes — duração, regra de transição e forma de aplicação aos atuais ministros — precisariam ser transformados em propostas legislativas concretas antes que fosse possível avaliar integralmente seus efeitos.

O partido também quer ampliar o controle externo sobre o Judiciário e o Ministério Público. Uma das ideias discutidas é aumentar a representação da sociedade civil no CNJ e no CNMP, órgãos responsáveis por fiscalização administrativa e disciplinar. O argumento petista é que instituições com enorme poder sobre a sociedade também precisam estar submetidas a mecanismos robustos de transparência e responsabilização.

Há uma mudança política relevante nessa posição. Durante boa parte dos últimos anos, setores progressistas estiveram entre os principais defensores institucionais do Supremo diante dos ataques promovidos pelo bolsonarismo. Isso criou, em determinados momentos, a impressão de que defender a democracia significaria necessariamente evitar críticas mais profundas ao funcionamento da própria Corte. O PT agora procura estabelecer outra distinção: sustenta que defender o STF contra ataques autoritários não significa considerar sua estrutura imune a reformas democráticas.

Essa mudança ganhou força durante a crise envolvendo o Banco Master e as relações de Daniel Vorcaro com personagens de diferentes instituições. Em setembro, Edinho afirmou que “ninguém está acima da lei” e defendeu uma transformação urgente do sistema político e judicial, além do fim de privilégios, supersalários e relações inadequadas entre interesses públicos e privados. A campanha passou a tentar ocupar um terreno que durante anos foi explorado quase exclusivamente pela direita: a crítica às estruturas de poder do Judiciário.

O movimento traz oportunidades, mas também contradições para o PT. Há poucos meses, o próprio Edinho adotava linguagem muito mais cautelosa diante de decisões do Judiciário. Em junho, por exemplo, ao comentar uma decisão de Kassio Nunes Marques sobre uma pesquisa eleitoral, afirmou que decisões judiciais deveriam ser respeitadas e ressaltou sua confiança na condução do processo eleitoral pelo ministro. A mudança de ênfase mostra o tamanho da transformação ocorrida dentro da estratégia petista durante a campanha.

Congresso também entra na mira

A reforma do sistema político aparece como outro eixo dessa ofensiva. Edinho afirmou que o modelo brasileiro chegou a um estágio de deterioração que exige mudanças estruturais. A crítica deverá envolver principalmente o funcionamento das emendas parlamentares, mecanismos de transparência, financiamento da política e relações entre interesses privados e poder público.

Esse debate se torna ainda mais complexo diante do Congresso eleito no domingo. O PL ampliou fortemente sua representação e chegará à próxima legislatura com as maiores bancadas da Câmara e do Senado. Qualquer reforma profunda do sistema político ou do Judiciário dependerá justamente de aprovação parlamentar, e alterações constitucionais exigirão maiorias qualificadas nas duas Casas.

Existe aí uma contradição concreta que a campanha terá de enfrentar. O PT pode defender reformas profundas durante o segundo turno, mas um eventual novo governo Lula precisará negociar essas reformas com um Congresso no qual a direita saiu fortalecida. A eleição legislativa tornou mais difícil, e não mais fácil, a aprovação de algumas das mudanças propostas.

O primeiro sinal apareceu imediatamente. Integrantes do governo já avaliam que a votação do fim da escala 6×1, que poderia se transformar numa das principais bandeiras sociais de Lula durante o segundo turno, ficou politicamente mais difícil depois do avanço da direita no Senado. A composição do Legislativo começa, portanto, a produzir efeitos antes mesmo da posse dos novos parlamentares.

Isso coloca a eleição presidencial diante de uma questão que vai além dos dois candidatos. Lula precisará explicar não apenas aquilo que pretende fazer, mas como pretende construir força política para executar suas propostas num Congresso adverso. Flávio, por sua vez, poderá argumentar que a composição parlamentar produzida pelas urnas demonstra uma preferência do eleitorado por uma agenda mais próxima à sua.

A disputa pelo significado do resultado de domingo está apenas começando.

Dois projetos serão colocados frente a frente

Edinho pretende transformar essa situação numa escolha de modelos políticos. Em suas declarações após o primeiro turno, fez críticas extremamente duras a Flávio Bolsonaro e também a Donald Trump, a quem classificou como o principal líder fascista da atualidade. Em contraposição, apresentou Lula como representante de uma tradição humanista e democrática. São caracterizações políticas do presidente do PT, não constatações neutras, e deverão ocupar espaço crescente na retórica da campanha.

A associação entre Flávio e Trump provavelmente será explorada com intensidade. O relacionamento do bolsonarismo com a direita norte-americana, as recentes tensões entre Washington e Brasília e as investigações brasileiras sobre possível interferência externa oferecem material para que a campanha de Lula tente enquadrar a eleição também como uma disputa sobre soberania nacional.

Flávio Bolsonaro tentará fazer exatamente o movimento inverso: associar Lula ao desgaste do atual governo, à insatisfação com segurança pública, ao custo de vida e à crise de confiança em instituições. Pesquisas realizadas antes da eleição mostraram que violência, corrupção e economia estavam entre as principais preocupações do eleitorado, o que ajuda a explicar por que esses temas deverão ocupar espaço muito maior nas próximas semanas.

O resultado será uma campanha provavelmente mais dura do que aquela do primeiro turno.

O próprio Edinho já havia anunciado antes da votação que Lula pretende participar dos debates do segundo turno. Segundo ele, a existência de apenas dois candidatos permite um confronto que o presidente considerava prejudicado pelo formato dos debates com muitos concorrentes. Se essa promessa for cumprida, Lula e Flávio poderão finalmente ficar frente a frente diante das câmeras, sem candidatos intermediários dividindo o tempo e os ataques.

É nesses encontros que a nova estratégia petista será submetida ao seu teste mais difícil.

Falar em reforma do Judiciário exigirá explicar que reforma é essa. Defender mudanças no Congresso exigirá apresentar mecanismos concretos. Criticar privilégios exigirá demonstrar quais privilégios serão enfrentados. Acusar Flávio exigirá documentação. E prometer mudanças depois de anos ocupando o governo exigirá responder por que determinadas transformações não aconteceram antes.

Do outro lado, Flávio também terá de responder diretamente sobre sua trajetória, sobre a herança política do bolsonarismo, sobre sua relação com o governo Trump e sobre as propostas concretas que pretende executar caso chegue ao Palácio do Planalto.

É justamente essa confrontação que o PT parece querer provocar.

Depois de um primeiro turno no qual Lula tentou durante boa parte da campanha falar principalmente das realizações do governo e dos riscos representados pela oposição, a direção petista parece ter concluído que isso não foi suficiente. O eleitor colocou Flávio Bolsonaro na primeira posição e obrigou o presidente a disputar uma virada.

A resposta preparada pelo PT é colocar temas incômodos no centro da mesa.

Judiciário.

Congresso.

Privilégios.

Segurança pública.

Soberania.

Corrupção.

E, sobretudo, a trajetória dos dois homens que disputam a Presidência.

A aposta é que, reduzida a eleição a duas alternativas, Lula consiga transformar o segundo turno numa comparação muito mais concreta entre aquilo que cada candidato fez, representa e pretende fazer.

Será uma estratégia de risco. Quanto mais agressivo for o confronto, maior será a possibilidade de a campanha também ser obrigada a responder às próprias contradições. Mas a declaração de Edinho Silva deixa uma coisa bastante clara nesta segunda-feira: o PT entendeu o resultado do primeiro turno como um aviso de que repetir a campanha anterior não será suficiente.

A campanha da reeleição entra agora numa fase diferente.

Menos defensiva, segundo promete sua direção.

Mais confrontadora.

E com uma novidade política importante: desta vez, o próprio funcionamento do Judiciário e do Congresso deverá entrar no centro da disputa sobre que país Lula e Flávio Bolsonaro querem governar a partir de 2027.

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