
O Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG comandada por Karina Ferreira Gama, produtora de “Dark Horse”, apresentou versões diferentes à Prefeitura de São Paulo sobre o uso de R$ 850 mil em emendas destinadas a dois eventos realizados em 2025. A área técnica da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) apontou divergências, documentos ausentes, atrasos e descumprimento de obrigações, mas recomendou apenas advertências formais.
As diligências sobre os convênios começaram após a divulgação de suspeitas de irregularidades, de acordo com informações do Metrópoles. A Polícia Civil investiga se recursos de outro contrato do ICB, para instalação e manutenção de pontos de wi-fi na periferia paulistana, ajudaram a financiar “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro (PL). Nesta segunda-feira (24), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a Polícia Federal a acessar documentos ligados à operação.
Um dos casos envolve o Seminário Rumos da Inovação na Educação do Futuro Agora, o Riefa 2025, financiado com R$ 750 mil de emenda do vereador André Santos (Republicanos). O demonstrativo financeiro do ICB indicava a Vamoz Comunicações e Eventos, empresa de um conselheiro da entidade, como destinatária de dois pagamentos, enquanto as notas fiscais saíram em nome da Continua Educação, ligada a uma ex-assessora da Assembleia Legislativa de São Paulo.
O evento ocorreu no Campus Higienópolis da Universidade Presbiteriana Mackenzie e teve 385 participantes no encontro principal, quase todos universitários. Os workshops reuniram 16 pessoas, e a transmissão no YouTube ficou abaixo de 2 mil visualizações após mais de um ano. O ICB também não entregou relatórios de acesso e tráfego para comprovar o uso de um ambiente virtual contratado como “metaverso”.

Prefeitura apontou falhas em documentos e metas do Riefa
Para justificar a meta virtual, a entidade apresentou uma captura de tela que apontava 388 visualizações no ambiente do projeto. Quando a SMIT pediu indicadores detalhados, o ICB respondeu que esses dados não existiam e sustentou que as informações visuais da própria plataforma eram a única comprovação oficial disponível.
A secretaria registrou que o ICB informou em março ter concluído a prestação de contas e disponibilizado documentos por link. A análise começou em 2 de junho, e técnicos encontraram anexos ausentes da pasta. Após cobranças, a ONG enviou documentos entre 28 e 29 de junho, mas ainda faltaram evidências sobre duas metas, entre elas a premiação prevista no projeto.
A única prova encaminhada sobre a premiação consistia em três vídeos com áudio corrompido. Em parecer, a SMIT afirmou que o histórico exigiu solicitações repetidas de documentos e esclarecimentos, atrasou a instrução do processo e dificultou a fiscalização. O órgão também registrou que a defesa reconheceu falhas operacionais internas e demora para atender às demandas da administração.
O segundo convênio bancou com R$ 100 mil o evento “Rumo da Inovação na Educação e no Mercado de Trabalho”, realizado no Instituto Social Nossa Senhora de Fátima, na zona norte da capital. Inicialmente, o ICB alegou impedimento técnico para movimentar a conta oficial e disse ter pago fornecedores com recursos próprios, sem usar a verba pública. Depois, afirmou que os fornecedores continuavam sem receber.
O plano de trabalho reservava R$ 17 mil para transporte de participantes, mas a ONG transferiu integralmente o valor para serviços de comunicação institucional e produção audiovisual sem pedir autorização prévia. O ICB enviou justificativa para a alteração em junho de 2026, mais de dois meses depois do fim da vigência da parceria. A SMIT rejeitou a defesa e também propôs advertência formal, apesar de apontar ausência de documentos financeiros e remanejamento irregular de rubricas.
Karina Gama negou irregularidades e declarou que o ICB “tem efetuado a prestação de contas corretamente dentro do processo administrativo normal”. Sobre as notas fiscais emitidas depois do encerramento da parceria e a mudança de versão sobre os pagamentos, ela disse: “Estamos em tratativas aguardando as instruções da SMIT para os esclarecimentos necessários”. A prefeitura afirmou que as prestações de contas ainda estão em andamento e que seria prematuro antecipar conclusões sobre eventuais irregularidades.