
Perfis internacionais dedicados a “OSINT”, monitoramento de conflitos e notícias de geopolítica publicaram quase simultaneamente neste domingo (20) conteúdos sobre a eleição presidencial brasileira destacando a alta de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Polymarket.
As postagens exibidas no X aparecem identificadas como “Parceria paga”, indicando conteúdo comercial.
Entre os perfis estão Iran Observer e OSINTdefender. As duas publicações usam praticamente o mesmo dado e o mesmo gráfico da Polymarket: Flávio com cerca de 58% e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 42% no mercado referente ao vencedor da eleição brasileira. No momento da consulta feita pelo *DCM,* a própria plataforma mostrava Flávio com 57,9% e Lula com 42%.
O Iran Observer escreveu que Lula estaria “perdendo a eleição presidencial no Brasil” e acrescentou que Flávio seria “muito pró-EUA” e poderia retirar o país dos Brics. Já o OSINTdefender afirmou que os operadores da Polymarket passaram a favorecer Flávio e destacou que as linhas de Lula e do senador se cruzaram no início de setembro. Nas imagens das duas publicações consta a indicação de conteúdo patrocinado.
O que é OSINT
OSINT é a sigla em inglês para “Open Source Intelligence”, ou inteligência de fontes abertas. Tecnicamente, designa a coleta, verificação e análise de informações disponíveis publicamente, como imagens de satélite, vídeos, fotografias, documentos oficiais, registros de voos, dados de embarcações, redes sociais e bancos de dados públicos.
O termo ganhou grande visibilidade com as guerras e crises internacionais recentes. Perfis especializados usam essas fontes para acompanhar, por exemplo, movimentações militares, ataques, lançamentos de mísseis e deslocamentos de navios e aeronaves. O próprio OSINTdefender se apresenta como um monitor de inteligência de fontes abertas dedicado a conflitos no Oriente Médio, Europa e outras regiões.
Uma conta se apresentar como “OSINT”, porém, não significa que todo conteúdo publicado por ela seja resultado de investigação independente. Quando uma postagem é identificada como parceria paga, há uma relação comercial associada àquela publicação. Isso é relevante para distinguir análise editorial de publicidade.
O que são as “odds” da Polymarket
A Polymarket não realiza pesquisa eleitoral. Trata-se de um mercado de previsão, no qual participantes compram e vendem contratos vinculados à ocorrência de determinado evento.
No mercado presidencial brasileiro, um contrato “Sim” para Flávio Bolsonaro negociado a aproximadamente US$ 0,58 é apresentado pela plataforma como uma probabilidade implícita próxima de 58%. Caso o resultado previsto ocorra segundo as regras do contrato, cada cota vencedora vale US$ 1; se não ocorrer, vale zero.
Por isso, os 58% não significam que 58% dos brasileiros pretendam votar em Flávio. Tampouco representam uma pesquisa com uma amostra da população. O número é um preço formado pelas ordens de compra e venda dos participantes daquele mercado.
Essa diferença é fundamental. Uma pesquisa eleitoral seleciona entrevistados segundo uma metodologia declarada e procura estimar as intenções de voto da população, informando amostra e margem de erro. Um mercado de previsão mede quanto seus participantes estão dispostos a pagar por contratos associados a determinado resultado.
Outro número destacado no gráfico é o “volume”, atualmente próximo de US$ 152 milhões. O termo indica o valor acumulado das negociações realizadas no mercado desde sua abertura. A própria página informa aproximadamente US$ 151,9 milhões em volume total.
Volume não equivale a número de eleitores, tamanho de amostra ou dinheiro líquido colocado em Flávio. Um mesmo contrato pode mudar de mãos diversas vezes e contribuir repetidamente para o volume negociado.
Há ainda a “liquidez”, conceito diferente. Ela está relacionada à facilidade e à profundidade disponíveis para comprar ou vender contratos sem provocar grandes alterações no preço. A página da Polymarket mostrava neste domingo cerca de US$ 19 milhões em liquidez para o mercado brasileiro.
Três grandes perfis de "OSINT" e monitoramento de conflitos postaram, quase simultaneamente, conteúdos em “parceria paga” com a Polymarket sobre o aumento das odds de Flávio Bolsonaro.
Movimento, no mínimo, suspeito… pic.twitter.com/3RLTUxBEXk
— Maria Osint (@MariaOsint) September 20, 2026
Pesquisas medem outra coisa
Os levantamentos eleitorais mais recentes não devem ser comparados diretamente aos 58% da Polymarket porque são instrumentos diferentes. No Datafolha divulgado na quinta-feira (17), Lula registrou 39% e Flávio, 36%, no primeiro turno. Em uma eventual segunda rodada, apareceram com 46% e 44%, respectivamente. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
A diferença ajuda a entender o problema da frase publicada pelo Iran Observer segundo a qual Lula estaria “perdendo a eleição”. O dado apresentado na postagem não é uma contagem de votos nem uma pesquisa de intenção de voto. É a cotação de um contrato negociado por usuários de uma plataforma de mercado de previsão.
Polymarket já promove eleição brasileira apesar de restrição
A estratégia de divulgação da Polymarket no Brasil já havia chamado atenção antes dessa ação com contas internacionais. Levantamento publicado pelo Aos Fatos em 4 de setembro identificou mais de 100 publicações relacionadas às eleições brasileiras no Instagram e relatou o uso de páginas de influenciadores e sites parceiros para divulgação da plataforma.
A própria Polymarket lista atualmente o Brasil entre os países nos quais seus serviços de negociação são bloqueados por restrições geográficas. A empresa também afirma que proíbe o uso de VPN para contornar essas limitações.
As postagens deste domingo acrescentam um elemento ao episódio: contas conhecidas principalmente pelo acompanhamento de guerras e crises internacionais passaram a divulgar, em publicidade identificada como paga, a cotação do mercado eleitoral brasileiro.
Isso não permite concluir, por si só, que houve manipulação das cotações ou fraude no mercado. Também não há elementos nas postagens que demonstrem que os perfis participaram das negociações responsáveis pela alta de Flávio. O que as imagens permitem afirmar é que existe uma campanha comercial para ampliar a circulação desse dado e apresentá-lo a audiências que acompanham geopolítica e conflitos internacionais.
A distinção é importante: a Polymarket registra neste domingo aproximadamente 58% de probabilidade implícita para Flávio Bolsonaro em seu mercado de previsão. Isso descreve o preço de um contrato negociado na plataforma, não 58% dos votos, nem uma pesquisa que tenha constatado que 58% dos brasileiros acreditam ou pretendem votar no senador.