Para esconder apoio a Flávio Bolsonaro, PCO chama pelo voto nulo, por Francisco Ladeira

Para esconder apoio a Flávio Bolsonaro, PCO chama pelo voto nulo, por Francisco Fernandes Ladeira

Fundado em meados da década de 1990, o Partido da Causa Operária (PCO) se vende como o único partido revolucionário da esquerda brasileira. Na prática, porém, tem chamado atenção por outro motivo: os constantes flertes com a extrema direita. Essa aproximação vem desde o negacionismo na pandemia, passa pela defesa incondicional de bolsonaristas e chega ao coro com Neymar pelas privatizações de praias. Por isso, tem sido comum nos depararmos nas redes sociais com comentários do tipo “sou de direita, mas não aguento mais concordar com o PCO”.

No atual processo eleitoral, o partido resolveu dobrar a aposta. Só não se assume de vez como extrema direita, nem deixa de lado a máscara comunista, por uma questão logística. Seria muito custoso tirar o “operário” do nome ou substituir a foice e o martelo por um símbolo ancap, por exemplo. Assim, perderia seus militantes incautos, que ainda acreditam que o PCO é a vanguarda da revolução.

Mas a prática já demonstra essa guinada. Na Superlive do PCO, ocorrida no dia 3 de outubro, mesmo contando com dois importantes nomes da esquerda – Isabella Cêpa e Celina Lazzari –, estiveram presentes os baluartes da extrema direita nacional Rafael Machado (Nova Resistência), Rubão (do canal Geoforça Brasil) e Monark (aquele mesmo que já chegou a defender a criação de um partido nazista legalizado no Brasil). Basicamente, o objetivo dessa reunião conservadora era demonstrar hostilidade à candidatura Lula e poupar ao máximo Flávio Bolsonaro.

Essa hostilidade também aparece na imprensa escrita do PCO – o Diário Causa Operária (DCO) –, onde a derrota de Lula para Flávio Bolsonaro foi comemorada com um entusiasmo de fazer inveja aos bolsonaristas mais atuantes, com direito ao uso do termo “gado” para se referir aos militantes petistas em campanha para a virada de votos.

Se, por um lado, há hostilidade contra a esquerda, por outro, com os “camaradas” da extrema direita o PCO é solidário. No sábado (10/10), em seu perfil no Facebook, Izadora Dias, candidata ao governo de São Paulo pelo partido, defendeu ninguém menos do que Eduarda Campopiano contra os “ataques machistas” daquilo que chamou de “esquerda pequeno-burguesa”. Comovente!

No entanto, são as declarações do presidente do PCO, Rui Costa Pimenta, que mais deixam clara essa aproximação à extrema direita. Para tanto, ele recorre aos mesmos discursos da mídia hegemônica, o “doisladismo”, considerando Lula e Flávio Bolsonaro como praticamente “iguais”. Segundo Pimenta, se o candidato bolsonarista for eleito, não será “o fim do mundo”. Literalmente, não será mesmo. Mas haverá ataques à educação pública, aos direitos da população, ao trabalhador, à saúde, à cultura e por aí vai. Tudo isso sem falar na completa submissão ao imperialismo.

Em outra oportunidade, o presidente do PCO afirmou que, caso a eleição se resumisse ao combate à criminalidade, seria melhor votar em Flávio Bolsonaro. Foi o suficiente para circularem inúmeras postagens em portais e páginas de extrema direita sobre o possível apoio de um esquerdista à candidatura do PL. “Nem a extrema esquerda aguenta mais o PT”, comentou um internauta. Outro perfil escreveu: “Não esperava menos do Rui. Inteligentíssimo, senso crítico coerente. PCO é o único partido de esquerda de verdade que existe no Brasil. Eu já admirava ele (sic), isso só aumentou minha admiração. Dia 25 é Flávio 22 meu povo”. “Bora falar a verdade, Rui é mais de direita que o Cleitinho [governador eleito de Minas Gerais]”, acrescentou um bolsonarista.

Além disso, não basta se opor à candidatura Lula; também é preciso atacar quem o apoia. Uma matéria do DCO criticou as decisões de três partidos de esquerda – UP, PSTU e PCB – de chamar o voto em Lula no Segundo Turno. O motivo: a matéria insinua que tais decisões foram tomadas pelos caciques dessas organizações, sem consultar seus militantes. Ou seja, toda a esquerda está equivocada, só os iluminados do PCO conhecem a “verdade”.

O mais irônico desse discurso é que o PCO não tem “caciques”, no plural. Todas as decisões e ações do partido são tomadas exclusivamente por Rui Costa Pimenta. Não há o mínimo espaço para o contraditório. As conferências que definem os rumos do partido são meros jogos de cena.

Dessa forma, não foi por acaso que a conferência do PCO realizada no domingo (11/10) para definir a orientação do partido na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro apenas referendou a vontade de Rui. Para esconder o apoio ao candidato do PL, o partido optou pelo voto nulo no Segundo Turno. Em matéria publicada no DCO, a justificativa para o posicionamento foi a seguinte: “A classe trabalhadora não tem nada a ganhar ao votar em Lula. Por isso nossa mensagem tem de ser inequívoca: nenhum apoio aos dois candidatos do capital, trabalhador só vota em trabalhador”.

Qualquer semelhança com o editorial “Uma escolha muito difícil”, do Estadão, não é mera coincidência, só que em uma roupagem pseudo-revolucionária.

Evidentemente, o PCO não elegerá ninguém. Mas, ao chamar pelo voto nulo, oferece à extrema direita o que ela mais precisa: a ilusão de que há uma esquerda que compactua com ela. Aliás, como chamar de “esquerda” um partido que, no mínimo, trata Lula e Flávio Bolsonaro como equivalentes? Não é apenas hipocrisia ou uma neutralidade ingênua. É cumplicidade.

***

Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFMG) – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor do livro “Palestina na geopolítica global pós-2023: narrativas e contranarrativas” (Editora CRV)

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