Um relatório inédito do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), divulgado nesta semana, revela uma verdadeira operação de interferência da Meta nas eleições do Brasil, a partir de recursos e infraestrutura sediados nos EUA. O estudo demonstrou que a gigante de tecnologia dos Estados Unidos, dona do Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger e Threads, lucrou cerca de R$ 2 milhões ao veicular anúncios político-eleitorais irregulares nas eleições brasileiras de 2026.
Ao apurar os conteúdos das publicações, um dos achados mais importantes do estudo é que o foco dos ataques não era eleger um candidato específico, mas inflamar conflitos e desestabilizar a percepção do eleitorado. Diversos estudos mostram que a tática é característica de operações de influência e guerra de informação da era digital, no qual o objetivo central de atores externos aparece disfarçado, buscando erosionar a confiança nas instituições, ampliar divisões sociais e poluir o debate público para que a escolha do eleitor seja guiada pela rejeição e pela confusão.
O estudo da UFRJ mostra que as redes de anúncios atuaram promovendo e atacando candidatos de espectros políticos opostos e rivais diretos. A empresa Corporativo Lam, LLC, uma das poucas empresas que deixou seus rastros visíveis para monitorar e responsável por financiar 97,3% dos anúncios que tiveram o pagador identificado (investindo até R$ 1,6 milhão), financiou peças favoráveis e desfavoráveis a lideranças de diferentes partidos. As análises de rede mostram que uma mesma página anunciante alternava entre elogios e críticas ao mesmo grupo político.

A literatura sobre guerra híbrida e segurança internacional explica que as operações digitais contemporâneas envolvem empresas privadas, intermediários e redes transnacionais que atuam em uma “zona cinzenta” (ALVES, B. W. ; MACEDO, B. V. ; ROAHNY, L., 2022), diluindo as fronteiras entre a responsabilidade de corporações privadas e a ação estatal direta.
Ao longo da história, eleições presidenciais pelo mundo registraram a prática de financiamento em “zonas cinzentas” e sem um alvo político claro. Entre 1946 e 2014, o pesquisador Dov H. Levin (University of Hong Kong/Oxford University Press) mapeou a escala global de algumas dessas intervenções, contabilizando 187 intervenções eleitorais partidárias. O trabalho de Levin chegou a calcular que o efeito médio estimado de uma intervenção estrangeira é de 3 pontos percentuais no resultado das urnas, uma margem que, em pleitos acirrados, é suficiente para alterar o vencedor.
Pouco depois, nas eleições dos EUA em 2016, as acusações de interferência internacional por meio de campanhas de desinformação, uso de “bots” e perfis automatizados e ampla disseminação de conteúdos polarizadores, mostravam que não favoreciam determinado candidato, diretamente, mas ampliaram divisões internas e reduziram a confiança da população nas instituições democráticas.
Como atuaram os anúncios eleitorais 2026
O estudo da UFRJ concluiu que as operações de influência externa utilizaram desinformação, contas inautênticas, falta de fiscalização e omissão de fontes pagadoras, além de segmentação de público para manipular o debate político e tentar influenciar e confundir eleitores.
A investigação apontou que 1.613 publicações foram impulsionadas, alcançando mais de 171 milhões de impressões, a partir do exterior por redes coordenadas, utilizando moedas estrangeiras e violando as normas eleitorais. A legislação eleitoral brasileira proíbe estritamente que partidos e candidatos recebam doações ou benefícios financeiros provenientes de fontes estrangeiras, inclusive por meio de publicidade impulsionada por terceiros.
Houve o emprego de lacunas sistemáticas de transparência e falta de rastreabilidade. O documento informa que a Meta omitiu a fonte pagadora em 33,3% dos anúncios identificados.

A plataforma delega aos próprios anunciantes a responsabilidade de classificar se o conteúdo abrange temas sociais, políticos ou eleitorais. No estudo analisado, a totalidade dos 1.613 anúncios irregulares foi veiculada inicialmente sem o rótulo obrigatório de conteúdo político. E a moeda utilizada no pagamento só é divulgada para anúncios devidamente rotulados como “políticos”, deixando os anúncios omissos fora do radar público. Além disso, quando uma página é retirada do ar após a moderação, dados históricos como a data de criação deixam de ser disponibilizados para auditoria externa.
Também foram dectadas falhas sistêmicas na moderação da Meta nesses anúncios, inicialmente autorizando a disseminação dos conteúdos, seja sem a identificação política adequada ou irregulares, agindo de forma tardia. O levantamento mostrou que as peças permanecem ativas por um tempo médio de 2,7 dias, havendo casos que circularam por até 25 dias sem qualquer bloqueio, alcançando milhões de visualizações e gerando receita para as próprias plataformas antes de agir.
Anúncios políticos-eleitorais miraram indecisos
A estratégia priorizou a desconstrução e a criação de rejeição, ao invés de apoio. Houve três vezes mais anúncios destinados a atacar (1.356 anúncios) do que a promover (446 favoráveis), o que reforça o intuito de acirrar ressentimentos e desestabilizar os candidatos.
O alcance das publicações foi direcionado cirurgicamente a grupos específicos que registram maior indecisão eleitoral, como mulheres e jovens: 51,3% das impressões focaram no público feminino, com destaque para mulheres jovens (25 a 34 anos) e idosas (65+ anos).
Nas pesquisas eleitorais de 2026, a indecisão entre as mulheres chegava a 26%, contra 14% entre homens. Entre os jovens de 16 a 24 anos, 47% dos que já indicavam voto afirmavam não estar convictos. E 42% de todas as impressões (72,5 milhões) concentraram-se no estado de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.
O estudo também mostrou que a veiculação intensificou-se drasticamente no mês que antecedeu o pleito, atingindo um pico de investimento em 10 de setembro, com até R$ 479 mil aplicados em um único dia para impulsionar novos anúncios, período em que a maior parte dos eleitores indecisos definia seu voto para o 1º turno.
Outro fator de atenção no relatório é que muitas campanhas desinformativas operam para atrair cliques (clickbait) e lucrar com publicidade em sites falsos. Mas a investigação constatou que 74,7% dos anúncios (1.205 de 1.613) sequer possuíam links de redirecionamento externo, limitando-se a exibir a mensagem política na própria rede social. A ausência de modelo de negócios comercial confirma que o único propósito dos investimentos milionários era a interferência política direta.
Por fim, o estudo concluiu que o investimento em moedas estrangeiras permite a circulação de campanhas com orçamento e alcance massivo (ultrapassando 171 milhões de impressões no estudo analisado), rivalizando ou até superando o alcance de campanhas eleitorais oficiais e focando em grupos estratégicos como eleitores indecisos.
Leia a íntegra do relatório da NetLab UFRJ: