no Substack: Amanhã não existe ainda
Os algoritmos contra a democracia
Temos que lutar nas redes, mas sem esquecer que nossa luta é também contra elas.
Na semana passada, participei do encontro da Anpocs, a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais, que ocorreu em Campinas. Em meio a um debate sobre a crise da democracia, eu disse que, embora não tivesse nenhuma receita à mão, sabia dos dois passos imprescindíveis para não só recuperar a democracia como reconstruí-la de maneira mais profunda e mais real: acabar com a internet e acabar com o capitalismo.
Todo mundo riu. Menos por discordância e mais por julgar que são metas inalcançáveis.
Nessa altura do campeonato, é impossível não ter clareza sobre os efeitos nefastos das novas tecnologias da comunicação e informação sobre praticamente todos os aspectos da vida humana. Em relação à política, há três elementos, ligados entre si.
O primeiro – e mais óbvio – é a disseminação de desinformação. A mentira sempre foi um recurso na política, mas hoje é possível criar uma barreira quase intransponível entre a mente das pessoas e a realidade.
Como escrevi outro dia, era consolador acreditar na frase atribuída a Abraham Lincoln: “É possível enganar algumas pessoas todo o tempo; é também possível enganar todas as pessoas por algum tempo; o que não é possível é enganar todas as pessoas todo o tempo”. Hoje, está difícil pensar que é assim, com as novas formas de manipulação. A capacidade de aprender com a experiência fica soterrada por uma avalanche de inverdades e mistificações.
Só isso explica que 56 milhões de brasileiros votem para reeditar o governo de Jair Bolsonaro, certamente o mais inepto, o mais antipovo e provavelmente o mais corrupto de nossa história, cujos resultados desastrosos foram sentidos por cada um de nós.
O segundo elemento é a produção de “bolhas” ou de “câmaras de eco”, o que potencializa a desinformação. Somos jogados em enclaves de reforço mútuo de crenças e valores, nos quais as vozes divergentes ou desaparecem ou já surgem marcadas como erradas e desmerecedoras de atenção.
O terceiro elemento, enfim, é o isolamento. As pessoas convivem cada vez menos umas com as outras. Suas interações são mediadas e orientadas pelas plataformas. Em vez de conversar com meu amigo, dou um like na sua postagem. E também não procuro mais ninguém: espero que vejam minhas publicações. Nosso terreno comum para conversar diminui, uma vez que cada um consome um cardápio próprio de (des)informação e entretenimento no feed. Vou me divertir jogando sozinho joguinhos de celular. Trabalho em home office. Peço comida em casa. Faço compras online. Quando as entregas forem feitas por drones, passarei semanas sem ver outro ser humano.
Pesquisas mostram que há uma correlação positiva entre o fechamento de bares e a votação da extrema-direita na França. Quanto menos as pessoas têm condição de conversar, mais elas ficam à mercê das manipulações.
O isolamento, dizia Hannah Arendt, é essencial para o avanço do totalitarismo. Sou daqueles que desconfiam da utilidade da categoria “totalitarismo”, mas creio que este insight é útil para entender o mundo digital em que estamos.
Ou, para citar outro autor do qual também sou crítico: há um quarto de século, Robert Putnam, em Bowling alone, mostrava os efeitos da redução da convivência na capacidade cívica dos cidadãos. Ele criticava a TV, vejam só, mas foi profético.
Para piorar, os algoritmos operam na lógica da extrema-direita. Privilegiam a simplificação, a agressividade, a irreflexão. E se não é a lógica interna deles, é a determinação das big techs, que são aliadas deles e que não têm pudor de usar seu poder para tentar influenciar os resultados.
Todos vemos como o candidato miliciano é favorecido. A Meta (que é Instagram, Facebook e WhatsApp) teve que reconhecer que o seu algoritmo o privilegiava, embora, claro, minimizando o efeito.
Tenho certeza de que é fundamental revitalizar os espaços de convivência e diálogo, com a redução do tempo de tela – para salvar não só a democracia, mas a humanidade.
Mas agora parece que, para garantir a virada, temos que passar 24 horas por dia nas plataformas, seguindo o passo-a-passo de como satisfazer o algoritmo para que o conteúdo necessário fure a bolha e chegue em eleitores indecisos. Assistir o vídeo até o final, curtir, comentar, compartilhar. Produzir conteúdo de um jeito que parece a favor do filhote do Coisa. Há quem sugira escrever “ForaLula” ou “Flávio22” em letras brancas e fundo branco, que os humanos não leem, mas o algoritmo sim.

Em suma, o urgente – impedir a vitória do bolsonarismo – nos obriga a agir na contramão do necessário, que é reduzir o espaço que as plataformas têm nas nossas vidas. Um dilema comum na política.
Parece que está dando certo. Se não, Flávio não estaria dando faniquito e Kássio Nunes, o famoso KN das mensagens de Vorcaro, não estaria tentando desesperadamente censurar a mobilização lulista nas redes.
(Nem na eleição de Collor, com Francisco Rezek na presidência do TSE, tão desavergonhado que depois foi premiado com o ministério das Relações Exteriores, tivemos uma justiça eleitoral tão abertamente partidária. Mas esse é um tema para outra hora.)

Nossa Senhora. Não sou cristão, nunca fui. Sou ateu.
Mas a figura de Maria inspira respeito e carinho. Diante de seu filho divino, ela representa o amor e o sofrimento humanos. Exatamente o que, imagino, nos move na busca por uma sociedade menos injusta e menos violenta.

E, como bom ateu, defendo a liberdade de culto e o respeito a todas as crenças. Os ataques a igrejas católicas, que chegaram agora ao incêndio em Santa Catarina, precisam ser investigados.
Assim como, aliás, precisam ser investigados os incêndios em universidades. Há a possibilidade – não confirmada, mas não descartada – de estarmos diante do terrorismo de direita, o que é gravíssimo.
Para muitos brasileiros, o 12 de outubro é, em primeiro lugar, o dia das crianças. Em nome delas, para que elas tenham alimento, educação, proteção, saúde e liberdade, devemos votar 13.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).
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