O ministro Marco Aurélio Bellizze, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou nesta segunda-feira (12/10) a retirada, em até 24 horas a partir da intimação, de publicações que associavam falsamente a cena de uma mulher de cabelos vermelhos supostamente consumindo cocaína à manifestação pró-Lula realizada no domingo (11/10) na Avenida Paulista, em São Paulo.
A ordem alcança postagens de Flávio Bolsonaro (PL), seu irmão Carlos Bolsonaro (PL, senador eleito por Santa Catarina), Pablo Marçal (PRTB), Rony Gabriel (Podemos-RS) e até o governador reeleito de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Caso não cumpram, a Justiça Eleitoral deve oficiar a Meta e o X para a remoção. A decisão atendeu ao pedido da coligação Brasil Pronto pra Mais.
O vídeo, que mostra a mulher inalando um pó branco, foi publicado originalmente no X em 10 de outubro por perfil chileno, um dia antes do ato. Checagens confirmam que o material já circulava no sábado em contas argentinas e chilenas e, portanto, não poderia ter sido gravado na Paulista. Bellizze classificou o caso como “grave manipulação por descontextualização”: reutilização de imagem preexistente associada a evento posterior para dar aparência de prova, agravada por generalizações sobre consumo de drogas e apelo eleitoral explícito.
Acusam o crime que cometem
A decisão expõe a contradição central da campanha de Flávio Bolsonaro. No programa de governo registrado no TSE (“Para o Brasil Vencer o Atraso”), o candidato promete um “tesouraço na censura”, defende o direito irrestrito de criticar e acusa o governo Lula de montar um “Ministério da Verdade” para silenciar opositores. Na prática, porém, Flávio e sua equipe recorreram repetidamente ao TSE para remover conteúdos e bloquear perfis de adversários.
Na semana anterior, pediram o bloqueio de 32 perfis alinhados a Lula e a remoção de 221 publicações acusadas de fake news. No domingo (11), o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, ministro indicado por Jair Bolsonaro, determinou a retirada do canal de WhatsApp “Exército do Lula” (André Janones, com mais de 3 milhões de participantes) a pedido da campanha. A medida foi depois revertida pelo corregedor-geral Ricardo Villas Bôas Cueva.
Levantamentos da Agência Lupa apontam ao menos 24 decisões do TSE em 2026 atendendo pedidos da campanha de Flávio para remover conteúdos de adversários.
O padrão se repete: a campanha denuncia censura e manipulação, mas utiliza o Judiciário para retirar o que considera desfavorável, enquanto dissemina material descontextualizado, como o vídeo da mulher com cocaína apresentado como registro da Paulista. Decisões parciais de ministros alinhados ao bolsonarismo, como a de Nunes Marques sobre o canal de Janones, reforçam a postura autoritária e seletiva: liberdade de expressão quando o conteúdo favorece; censura judicial quando incomoda. O caso da Paulista é apenas o episódio mais recente de uma prática que a própria campanha afirma combater. São com estas mentiras de baixo caráter que o bolsonarismo quer vencer as eleições.