A eleição brasileira foi analisada sob a perspectiva econômica e geopolítica no programa “Observatório de Geopolítica”, exibido em 25 de setembro. Participaram do debate o cientista político e professor de Relações Internacionais José Maria de Souza Júnior, o economista e diretor-presidente do Instituto de Pesquisas Sociais (IPS), José Augusto Gaspar Ruas, e o economista e professor Lício da Costa Raimundo.
Na avaliação dos participantes, a disputa eleitoral ocorre em um contexto de crescente pressão internacional sobre o Brasil e envolve não apenas a escolha de um novo governo, mas também diferentes visões sobre a inserção do país no cenário internacional, sua política econômica e suas relações com grandes potências.
José Maria de Souza Júnior afirmou que a eleição coloca em discussão dois projetos distintos de país no campo das relações internacionais. Segundo ele, de um lado está uma estratégia baseada no fortalecimento da autonomia brasileira por meio do multilateralismo e da diversificação das parcerias; de outro, uma possibilidade de maior alinhamento com os Estados Unidos.
Para o professor, o Brasil não teria condições estruturais de adotar uma política de alinhamento automático a Washington. Ele também avaliou que há uma reorganização do cenário latino-americano, na qual os Estados Unidos buscam ampliar sua influência regional.
Nesse contexto, Souza Júnior citou a iniciativa norte-americana denominada “Escudo das Américas” e afirmou que a movimentação dos Estados Unidos na região precisa ser analisada também à luz da crescente presença econômica e política da China na América Latina.
O professor classificou a soberania como uma das questões centrais da atual conjuntura. Segundo ele, a discussão não se limita ao exercício do direito de voto, mas envolve também a capacidade do Brasil de definir sua política externa e econômica diante das disputas entre grandes potências.
Economia brasileira perdeu participação global
Ao analisar a posição econômica do Brasil, José Augusto Gaspar Ruas afirmou que a importância do país não pode ser reduzida às reservas de terras raras, ao petróleo ou a outros recursos naturais. Para o economista, o Brasil possui um conjunto amplo de ativos estratégicos, que inclui agricultura, mineração, infraestrutura, energia, mercado financeiro, serviços e tecnologia.
Ruas destacou, porém, que o país passou por um processo de perda de participação relativa na economia mundial nas últimas décadas. Segundo os dados apresentados por ele no programa, a participação do Brasil no Produto Interno Bruto (PIB) mundial, medida pela paridade do poder de compra, estaria atualmente em torno de 2,2%, ante um percentual próximo de 5% cerca de quatro décadas atrás.
Na avaliação do economista, o problema está relacionado à dificuldade de manter ciclos prolongados de investimento capazes de elevar a produtividade e promover transformações estruturais na economia.
Ele afirmou que setores como agricultura e mineração apresentam elevada competitividade internacional, enquanto segmentos industriais de maior complexidade tecnológica perderam espaço tanto nas exportações brasileiras quanto na pauta comercial do país.
Ruas classificou esse processo como uma “especialização regressiva”, conceito associado aos economistas Luciano Coutinho e Mariano Laplane. Segundo ele, o Brasil conseguiu registrar períodos de crescimento econômico, mas sem interromper a tendência de perda de participação em setores de maior intensidade tecnológica.
O economista também destacou que o país possui ativos estratégicos que despertam o interesse de investidores estrangeiros. Além das terras raras e de outros minerais críticos, citou a produção agroalimentar, o mercado financeiro, a infraestrutura, o setor elétrico baseado em fontes renováveis, a infraestrutura digital e o potencial para instalação de data centers.
Para Ruas, a discussão sobre esses ativos não deveria ocorrer de maneira isolada. Segundo ele, é necessário considerar como esses setores podem integrar um projeto de desenvolvimento nacional.
Relações com Estados Unidos e China
Outro ponto discutido foi a posição brasileira diante da disputa econômica entre Estados Unidos e China. Ruas afirmou que o país possui capacidade de negociação justamente por manter relações comerciais relevantes com as duas potências.
O economista, porém, considerou que a relação comercial com a China apresenta desequilíbrios, com forte participação de produtos agrícolas e minerais nas exportações brasileiras e maior presença de manufaturados chineses nas importações. Para ele, seria necessário discutir formas de ampliar o valor agregado das exportações brasileiras e fortalecer a indústria nacional.
Na avaliação apresentada durante o programa, a pressão exercida pelos Estados Unidos poderia reduzir a margem de negociação do Brasil entre as duas potências.
Investimentos chineses no Brasil
Lício da Costa Raimundo analisou especificamente a presença dos investimentos chineses no país. Segundo os números apresentados por ele, a China acumulou cerca de US$ 85 bilhões em investimentos no Brasil entre 2007 e 2025.
Somente em 2025, os investimentos chineses teriam alcançado US$ 6,1 bilhões, tornando a China o principal investidor estrangeiro no Brasil naquele ano, de acordo com os dados citados no programa.
Raimundo destacou a diversificação dos investimentos chineses. Entre os principais setores estão energia elétrica, petróleo e gás, indústria automobilística e mineração. Segundo ele, existem atualmente cerca de 355 projetos com participação chinesa no país.
O setor elétrico representa uma parcela expressiva desses investimentos. O economista afirmou que aproximadamente 45% do estoque de investimento direto chinês no Brasil está concentrado na geração, transmissão e distribuição de energia elétrica.
A indústria automobilística também foi apontada como uma área de expansão da presença chinesa. Raimundo citou o crescimento das montadoras chinesas no mercado brasileiro e avaliou que esse movimento demonstra que o interesse de Pequim não se limita ao acesso a matérias-primas.
Para o economista, o tamanho e as perspectivas de crescimento do mercado consumidor brasileiro também são fatores importantes para a estratégia de investimento chinesa.
Disputa internacional amplia importância da eleição
Ao longo do programa, os participantes relacionaram a eleição brasileira às disputas de influência entre Estados Unidos e China e às transformações em curso na América Latina.
O debate também abordou a iniciativa norte-americana “Escudo das Américas”, as pressões relacionadas ao combate ao crime organizado e a possibilidade de interferência externa no processo eleitoral brasileiro.
Os especialistas defenderam que a discussão sobre o futuro do país deveria considerar questões estruturais, como soberania, política externa, investimentos, industrialização, produtividade e capacidade de negociação internacional.
Na avaliação apresentada no programa, o resultado eleitoral terá consequências que ultrapassam a política doméstica e poderão influenciar a posição do Brasil diante das principais disputas econômicas e geopolíticas do cenário internacional.
Confira o programa na íntegra:
Nota da redação: Este texto, especificamente, foi desenvolvido parcialmente com auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial na transcrição e resumo das entrevistas. A equipe de jornalistas do Jornal GGN segue responsável pelas pautas, produção, apuração, entrevistas e revisão de conteúdo publicado, para garantir a curadoria, lisura e veracidade das informações.
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