O pacote do bem e a reação de Lula na reta final
Na Quaest, medidas de impacto social coincidem com forte recuperação do presidente entre mulheres, trabalhadores de baixa renda, beneficiários do Bolsa Família e católicos.
por Marcos Verlaine
A política, às vezes, encontra tradução mais eloquente na vida cotidiana. A nova pesquisa Quaest, divulgada nesta segunda-feira (28), mostra que Lula (PT) recuperou terreno justamente entre segmentos que sentem de maneira mais direta os efeitos das políticas públicas.
Mulheres, trabalhadores de renda de até 2 salários mínimos e beneficiários do Bolsa Família passaram a dar ao presidente vantagem expressiva sobre Flávio Bolsonaro (PL).
Não é apenas oscilação estatística. É sinal de que medidas concretas podem voltar a conectar governo e eleitor quando chegam àquilo que as pessoas percebem como problema real: o orçamento doméstico, a proteção social, a saúde e a segurança diante da exploração das apostas.
Mulheres mudam o jogo
Entre as mulheres, o cenário que há 2 semanas era de empate transformou-se em vantagem de 9 pontos para Lula: 46% a 37%.
Trata-se de movimento politicamente relevante porque as mulheres constituem parcela decisiva do eleitorado e também aparecem como o segmento que mais aprova as 3 principais medidas recentes do governo.
A restrição às bets é aprovada por 64% das mulheres; o reajuste do Bolsa Família, por 62%; e a oferta gratuita de canetas para emagrecimento pelo SUS, por 62%.
Não é difícil compreender porque políticas desse tipo encontram receptividade. Essas dialogam com questões concretas: o dinheiro que desaparece nas plataformas de apostas, a renda necessária para colocar comida na mesa e o acesso a tratamentos de saúde.
Quem vive com até 2 mínimos
É nesse ponto que a pesquisa talvez seja mais eloquente. Entre os eleitores com renda familiar de até 2 salários mínimos, Lula chega a 55%, contra 29% de Flávio. Diferença de 26 pontos.
O resultado expõe a distância entre a política abstrata e a política sentida no cotidiano.
Quando o governo aumenta o Bolsa Família, amplia o acesso a serviços de saúde ou enfrenta o mercado de apostas que atinge especialmente famílias vulneráveis, não está apenas produzindo anúncios. Está interferindo, para melhor ou pior, nas condições materiais de milhões de pessoas.
A própria trajetória da Quaest mostra que a população de menor renda já apresenta historicamente maior aprovação do governo. Em levantamento anterior do instituto, 55% dos entrevistados com renda de até 2 salários mínimos aprovavam a gestão Lula.
Bolsa Família mantém força
Entre os beneficiários do Bolsa Família, Lula alcança 59%, contra 27% de Flávio. O dado ajuda a explicar a importância política do reajuste do benefício. A medida é aprovada por 59% dos entrevistados na nova Quaest.
O que está em disputa, portanto, não é somente preferência eleitoral. É também a percepção sobre quem protege a renda de quem mais precisa dessa.
É sintomático que a política social continue sendo um dos principais pontos de conexão entre Lula e a base popular dele.
O desafio do governo, durante boa parte do mandato, foi justamente transformar políticas e indicadores positivos em percepção cotidiana. Os números desta rodada sugerem mudança nesse terreno.
Pacote fura bolha
O chamado “pacote do bem” reúne 3 medidas com aprovação majoritária: 62% apoiam a restrição às bets; 59%, o reajuste do Bolsa Família; e 58%, a oferta de canetas emagrecedoras gratuitamente pelo SUS.
E há detalhe politicamente importante: a restrição às apostas não fica confinada entre os eleitores de menor renda. O apoio também é elevado entre os segmentos de renda mais alta.
Isso desmonta a ideia de que o combate às bets seria pauta restrita aos mais pobres. O problema alcança famílias de diferentes estratos sociais e envolve endividamento, saúde mental, orçamento doméstico e proteção de crianças e adolescentes.
“Parece estar muito associado”
Felipe Nunes, diretor da Quaest, chamou atenção para a coincidência entre os movimentos. Segundo ele, o avanço de Lula entre mulheres, eleitores de menor renda e beneficiários do Bolsa Família “parece estar muito associado” às medidas anunciadas na semana anterior.
A palavra importante é “parece”. Pesquisa eleitoral registra movimentos simultâneos; não prova, isoladamente, que uma medida tenha causado determinado deslocamento de voto.
Mas há conexão política evidente: as medidas são majoritariamente aprovadas e Lula cresce justamente entre segmentos mais próximos do público-alvo dessas.
Política volta para o bolso
O episódio ensina algo que a política brasileira frequentemente esquece: o eleitor não vive de narrativa. Ele vive de salário, preço dos alimentos, acesso à saúde, renda, emprego, crédito, segurança e capacidade de chegar ao fim do mês.
Na reta final, Lula parece ter encontrado fórmula simples para recuperar parte do terreno perdido: menos promessa abstrata e mais medida que possa ser reconhecida na vida concreta.
A Quaest mostra ainda outro movimento relevante: entre os católicos, Lula chega a 50%, contra 37% de Flávio, melhor resultado nesse grupo desde 14 de agosto.
O pacote, portanto, não explica sozinho a eleição. Mas ajuda a compreender a mudança de humor registrada pela pesquisa. Quando a política pública deixa de ser apenas discurso e passa a ser percebida como proteção, renda ou direito, essa pode produzir efeitos também na política.
E é justamente essa disputa pela percepção sobre quem cuida da vida real que entra na semana decisiva da eleição.
Marcos Verlaine – Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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