O empate entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), com 50% dos votos válidos para cada um, não caiu do céu. É resultado de conjunto de fatores políticos, sociais e eleitorais que alteraram o rumo da campanha. Entre esses, a arrogância do PL, a precipitação de seus dirigentes e a dificuldade de Flávio de se desvencilhar da imagem de representante dos interesses patronais em eleição na qual os direitos dos trabalhadores estão no centro do debate. E, claro, do impulso que Lula vem ganhando nas ruas e nas redes nesta reta final da campanha.
A votação da redução da jornada e do fim da escala 6×1 no Senado1 expôs essa contradição. Flávio e seu partido votaram a favor, mas, antes, trabalharam para dificultar a realização da sessão. A explicação é simples: trata-se de pauta apoiada por ampla maioria da população, estimada em cerca de 70%. Nenhum senador bolsonarista quis assumir o custo político de votar abertamente contra reivindicação tão popular.
O recuo, porém, não apaga a resistência anterior. Flávio sequer compareceu à sessão que debateu e votou a proposta. Seu voto foi on-line, como quem procura atender à opinião pública sem se comprometer politicamente com a discussão. Votou a favor, mas manteve distância do debate — com dedos cruzados —, por assim dizer.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio e adversário histórico das pautas trabalhistas e do movimento sindical, também não compareceu. A ausência dele foi eloquente. O senador, que já esteve à frente de iniciativas de flexibilização das relações de trabalho, preferiu não se expor em votação na qual a rejeição à proposta poderia cobrar preço elevado nas urnas.
Pauta dos trabalhadores impõe limites
O episódio revela problema central para a candidatura do PL. A redução da jornada e o fim da escala 6×1 não são bandeiras que possam ser descartadas com discursos contra o governo ou com a defesa abstrata dos interesses empresariais. São reivindicações concretas de milhões de brasileiros que querem mais tempo para a família, o descanso, o estudo e a vida.
A direita sabe disso. Por essa razão, seus parlamentares se viram diante de escolha incômoda: contrariar a demanda popular ou votar a favor, ainda que a medida desagrade a setores empresariais. Optaram pelo segundo caminho. Mas o voto favorável, isoladamente, não apaga o histórico de resistência nem resolve as contradições de candidatura que precisa falar aos trabalhadores enquanto busca sustentação em setores patronais.
Lula, por sua vez, tem condições de transformar a pauta em instrumento de mobilização. Não basta reivindicar a aprovação da proposta: é preciso explicar o que a redução da jornada representa na vida cotidiana de quem trabalha, destacar a importância da luta coletiva e mostrar quem historicamente se colocou ao lado dos trabalhadores e quem tentou barrar seus avanços.
Salto alto cobra a conta
A recuperação de Lula também tem relação com o clima de vitória antecipada que tomou conta da campanha de Flávio. Depois do primeiro turno, parte de seus aliados passou a agir como se a eleição estivesse resolvida. A confiança excessiva transformou-se em arrogância, e a arrogância, em erro político.
Waldemar da Costa Neto, presidente nacional do PL, ofereceu exemplo eloquente dessa precipitação ao anunciar Rogério Marinho como candidato à Presidência do Senado contra Davi Alcolumbre. Antes mesmo de conquistar a Presidência da República, o grupo já se comportava como se tivesse poder suficiente para reorganizar o comando do Congresso.
A mensagem foi clara: para a cúpula do PL, a vitória de Flávio parecia tão certa que já era hora de distribuir cargos e projetar o poder futuro. O problema é que eleição não se ganha por antecipação, muito menos com declarações que alimentam a percepção de arrogância e desrespeito às instituições e aos demais atores políticos.
A política tem dessas coisas. O salto alto compromete a capacidade de enxergar a realidade, e o adversário que parecia derrotado volta a ocupar o centro do jogo.
Lula encontrou o caminho da reação
O empate não significa que Lula já venceu, assim como a vantagem anterior de Flávio não assegurava a vitória do senador. Significa que a disputa voltou a ficar aberta e que a campanha petista conseguiu interromper o avanço do adversário.
A mobilização social, a defesa dos direitos trabalhistas, a exposição das contradições do bolsonarismo e os erros da campanha do PL compõem esse movimento. A eleição deixou de ser marcha aparentemente inevitável de Flávio para se transformar em disputa voto a voto.
Lula ainda precisa converter a recuperação nas pesquisas em votos. Para isso, terá de ampliar o diálogo com os indecisos, mobilizar quem não compareceu ao primeiro turno e reforçar a defesa da democracia, dos direitos sociais e do trabalho digno.
Flávio, por sua vez, terá de explicar porque seu partido tentou dificultar a votação de pauta apoiada pela maioria da população, enquanto seus principais aliados evitavam o plenário. Não basta votar a favor quando a opinião pública está olhando. É preciso demonstrar coerência quando os interesses econômicos pressionam em sentido contrário.
A eleição de 25 de outubro está aberta. O empate é sinal de que a arrogância não substitui votos, que a opinião pública impõe limites e que os trabalhadores não são figurantes na disputa pelo poder. A virada de Lula ainda precisa ser confirmada nas urnas, mas uma coisa já mudou: o clima de já ganhou do PL perdeu força, e a campanha petista voltou a ter motivos para acreditar na vitória.
________________
1 PEC 221/19 aprovada em 2 turnos pelo Senado por 75 a 1 foi promulgada pelo Congresso nesta sexta (16) e transformada na EC (Emenda à Constituição) 141/26.