
O jornalista Zuenir Ventura morreu aos 95 anos na terça-feira (22). Um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro, Zuenir construiu uma trajetória de mais de seis décadas e passou por algumas das principais redações do país.
Trabalhou em veículos como Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e O Globo, além das revistas Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Visão, Veja e IstoÉ.
Também atuou como escritor e professor universitário. Entre suas obras mais conhecidas estão “1968 – O Ano que Não Terminou”, publicado em 1988, e “Cidade Partida”, livro-reportagem sobre violência e desigualdade no Rio de Janeiro que recebeu o Prêmio Jabuti. Ele deixa a mulher, Mary Ventura, e os dois filhos, o jornalista Mauro Ventura e a editora Elisa Ventura.
Entre muitas histórias de Zuenir, uma das mais curiosas envolve o jornalista Hélio Fernandes, irmão de Millôr e dono da Tribuna da Imprensa.
No início dos anos 60, Zuenir ocupava a chefia da redação do jornal de Hélio. Uma greve de jornalistas foi deflagrada em razão do atraso no pagamento dos salários. Entre os profissionais, porém, circulava a informação de que havia dinheiro em caixa para quitar os vencimentos.
Com a paralisação, Zuenir precisou trabalhar na edição praticamente sozinho. Ao relatar a situação a Hélio, segundo o próprio Zuenir, ouviu do novo proprietário uma sugestão: demitir os jornalistas grevistas. O episódio contribuiu para a saída de Zuenir, poucos dias depois.
A partir daí, o relacionamento entre os dois foi marcado por ressentimentos, provocações e indiretas. A animosidade chegou a tal ponto que virou uma pegadinha armada com Elio Gaspari, amigo de Zuenir e então diretor-adjunto da Veja.
A tinta marrom
Em 1987, morreram o poeta Carlos Drummond de Andrade e os jornalistas Cláudio Abramo e Sandro Moreira. Ao comentar as mortes em um artigo, Hélio Fernandes bateu em Zuenir.
Escreveu que, “por mais que a Igreja diga que a morte não existe”, era triste saber que os melhores partiam enquanto permaneciam “calhordas completos como Adolpho Bloch, Roberto Marinho, Zuenir Ventura e tantos outros”.
Zuenir comprou por 480 cruzados uma lata de tinta a óleo marrom brilhante em uma loja da Rua Teixeira de Melo, próximo à Praça General Osório, em Ipanema. A lata tinha 3,6 litros.
Colocou-a no carro e seguiu em direção ao Jornal do Brasil, onde trabalhava. No caminho, na região da Lagoa Rodrigo de Freitas, avistou Hélio Fernandes caminhando na rota costumeira.
Estacionou o carro sobre a calçada, em frente ao muro do Estádio de Remo, criando uma espécie de corredor pelo qual Hélio teria de passar. Quando o inimigo se aproximou, atirou-lhe a tinta.
O episódio foi registrado pela Veja porque estava combinado com Gaspari. É uma das passagens mais insólitas da imprensa brasileira e também um retrato da intensidade das disputas pessoais e profissionais que atravessavam as redações.