A grande imprensa aponta para o governo, mas esquece de mencionar os juros, as bets e o parlamento que ajudaram a quebrar as famílias.
Luís Delcides – Advogado e jornalista
A famosa frase de John Adams, citada na carta ao leitor da revista Veja, de que “os fatos são teimosos”, poderia ser um excelente ponto de partida para um debate honesto sobre a situação econômica do Brasil. O problema, caro leitor, é que a seletividade com que esses fatos são apresentados revela muito mais sobre uma estratégia política do que sobre um compromisso com a verdade.
Sim, a conta chegou. Mas quem realmente a emitiu? A narrativa construída pela revista, e replicada por setores da grande mídia, tenta colocar nas costas do governo federal e de suas políticas de incentivo ao consumo a total responsabilidade por um cenário de endividamento e recuperações judiciais. É uma tese cômoda e, acima de tudo, conveniente em um ano eleitoral. Ela serve a um propósito claro: pavimentar o caminho para uma oposição que, historicamente, sempre preferiu o remédio amargo do ajuste fiscal para os pobres e o afrouxamento das regras para os ricos.
No entanto, “fatos teimosos” insistem em contradizer essa simplificação grosseira. O artigo menciona, quase como uma nota de rodapé, que gigantes do varejo como a Casas Bahia também sofreram com a concorrência do e-commerce e, crucialmente, com o “dinheiro sugado pelas bets”.
No entanto, aonde está a discussão aprofundada sobre a explosão desse mercado de apostas que, impulsionado por uma legislação permissiva e pela falta de regulação adequada, drenou bilhões de reais das famílias brasileiras, muitas delas já fragilizadas financeiramente?
E a autocrítica da própria mídia, que por muito tempo tratou o fenômeno como uma nova e inofensiva fonte de entretenimento, glamourizando apostadores e normalizando o vício?
A afirmação de que “a população começou a se endividar em níveis altíssimos” por ter sido “estimulada a consumir” ignora o contexto mais amplo e perverso. Ignora que, durante a pandemia, o governo federal, sim, tentou construir pontes de socorro com o auxílio emergencial, enquanto o parlamento, movido por outros interesses, muitas vezes atuou como um freio, travando medidas que poderiam ter protegido a renda e o emprego. Ignora que a desorganização financeira das famílias é também fruto de uma política de juros estratosféricos, que o Banco Central, com sua autonomia formal, mantém como um martelo sobre a cabeça do trabalhador, sufocando qualquer tentativa de recuperação.
Portanto, o que vemos na carta da Veja não é um “debate público responsável e realista”, como ela mesma propõe. O que se presencia é uma operação psicológica eleitoral em andamento. Para compreendermos sua mecânica, é útil a análise de Rey Aragon sobre um caso paralelo, mas que revela a mesma lógica: a operação em torno de Fábio Luís Lula da Silva. Aragon descreve com precisão a “assimetria temporal da percepção”, onde “a Justiça precisa de contexto; a disputa eleitoral precisa de impacto. (…) aquilo que juridicamente continua sendo hipótese pode adquirir, pela repetição e pela associação, a aparência psicológica de fato consumado”.
Essa é a mesma engrenagem que transforma uma reportagem de capa sobre endividamento em um martelo político contra o atual governo. Fragmentos de uma realidade complexa (recuperações judiciais, endividamento das famílias) são selecionados, destacados de seu contexto mais amplo (juros altos, bets, omissão legislativa) e comprimidos em uma única narrativa: “a conta das escolhas econômicas erradas”. A operação, como bem define Aragon, “não precisa fabricar a realidade. Precisa intervir na arquitetura pela qual fatos reais adquirem significado político”. E o significado político desejado é um só: culpar o governo Lula, isentando outros atores igualmente responsáveis.
O texto de Aragon também destaca como a linguagem se torna um instrumento de associação psicológica: “Investigado em tratativas envolvendo uma empresa relacionada a pessoas também investigadas no caso do INSS’ descreve uma situação complexa. ‘Lulinha no escândalo do INSS’ produz outra realidade cognitiva”. Da mesma forma, a carta da Veja opera com uma compressão perigosa: “estímulo ao consumo governamental” vira “causa única do endividamento”, e “endividamento e recuperações judiciais” vira “culpa exclusiva do PT”. A repetição dessas associações, como alerta Aragon, “apaga a origem da informação, [e] a suspeita deixa de parecer notícia e começa a parecer memória”.
A mídia predatória, utilizando seu poder de influência, constrói essa narrativa de medo e fatalidade, emoldurando a crise como um produto exclusivo do atual governo. O objetivo é intimidar o eleitor, pintar um cenário de caos iminente e, assim, condicionar o voto a uma alternativa que, no passado, já mostrou a qual preço se fazem seus “ajustes”. A “guerra psicológica contemporânea”, nas palavras de Aragon, “não precisa substituir os fatos pela mentira. Pode ser mais eficiente quando conquista o poder de selecionar os fatos, antecipá-los, associá-los e determinar o momento em que serão percebidos”.
É uma irresponsabilidade tremenda. Não se pode, em sã consciência, isentar o parlamento de sua culpa, ou a mídia de seu papel em fomentar bolhas especulativas e vícios, para, no final, apontar o dedo para o Palácio do Planalto e dizer: “A culpa é sua”. A conta que chegou não é apenas a do endividamento. É a conta da omissão legislativa, da regulação frouxa, da cobertura tendenciosa e da tentativa de manipular o sentimento popular em benefício de um projeto de poder. É a conta de uma operação que, como bem descreveu Aragon, “usa informação produzida pelo próprio Estado para atingir, antes do devido processo, o centro político de um projeto nacional”.
O debate responsável exige honestidade. Exige que se diga: estamos todos endividados — famílias, empresas e o próprio Estado —, mas as razões para isso são complexas e multifacetadas. Reduzi-las a um único culpado é um desserviço à nação e uma ofensa à inteligência do povo brasileiro, que merece mais do que espantalhos em um ano de decisão.
A conta da irresponsabilidade de uns não pode ser paga com o voto amedrontado de todos. Uma sociedade só escolhe livremente, conclui Aragon, “quando também consegue compreender como aquilo que orienta sua escolha foi produzido, selecionado e colocado diante dela”. É essa autonomia cognitiva que está em jogo.