O caso do Nobel Daniel Gajdusek e a rede de proteção dos abusadores

Daniel Carleton Gajdusek

POR F. PONCE DE LEÓN, do blog Poesia Contra a Guerra

A mais recente edição da revista The New Yorker trouxe um artigo da jornalista Rachel Aviv, ‘The children a scientist took home’ (‘As crianças que um cientista levou para casa’), no qual ela relata o trágico e vergonhoso caso de Daniel Carleton Gajdusek (1923-2008), pediatra, virologista laureado (Nobel de 1976) e… pedófilo contumaz.

O vergonhoso referido acima fica por conta do silêncio e da conivência de muitos colegas (outros laureados, inclusive) diante dos crimes em série que o virologista estadunidense estava a cometer.

A carreira de Gajdusek como cientista inclui a identificação do agente etiológico (príons) de uma doença neurodegenerativa – fatal e até então misteriosa – chamada kuru.

A doença, hoje controlada, já foi comum em certas tribos da Oceania. Já a carreira dele como pedófilo inclui episódios com crianças trazidas da Nova Guiné e mantidas por ele nos EUA entre os anos 1960 e 1990. Nos anos 1980, ele foi investigado pela ‘polícia federal’ dos EUA, o FBI. Anos depois ele seria detido e preso, chegando a cumprir pena de um ano de reclusão.

Em 1998, quando saiu da prisão, o próprio Gajdusek se comparou ao escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900). (Sob a acusação de ter praticado ‘atos homossexuais’, classificados como crime pela legislação britânica da época, mesmo em casos envolvendo adultos, Wilde permaneceu encarcerado entre 1895 e 1897.)

Assim que saiu da prisão, Gajdusek foi embora do país. Foi morar na Europa, estabelecendo residência em Amsterdã. Segundo Aviv, dois meses antes de morrer, em 2008, ele anotou em seu diário (tradução livre; ênfase minha): “Levei a minha pedofilia de longa data para a minha carreira médica e fui bem-sucedido em ambas, com raras exceções. Sem protetores, eu jamais teria sido bem-sucedido”.

A expressão sem protetores me faz pensar não só na burocracia acadêmica, mas também em gente que o incensava, incluindo outros laureados, bajuladores de olho no Nobel e graúdos da divulgação científica, como o neurologista Oliver Sacks (1933-2015) e o físico Freeman Dyson (1923-2020), além de autoridades políticas, como a primeira dama da Jamaica e o presidente de Israel.

O artigo de Aviv (em inglês) é de livre acesso (ao menos por enquanto) e pode ser lido aqui. Um breve resumo da reportagem (também em inglês) pode ser visto abaixo:

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