“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”: Lula responde à pressão dos EUA e faz da soberania o eixo de seu discurso na ONU

Da Redação

Presidente brasileiro abriu nesta terça-feira a 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas com uma defesa da soberania, críticas à interferência estrangeira nas eleições e ao uso unilateral do poder pelas grandes potências. Sem citar Donald Trump nominalmente, Lula rejeitou a ideia de uma América Latina subordinada aos Estados Unidos, afirmou que o Brasil não precisa de porta-aviões estrangeiros para combater o crime organizado e defendeu cooperação contra armas e lavagem de dinheiro. O discurso também passou pela crise da ONU, guerras, Pix, big techs, apostas e eleições brasileiras.

Luiz Inácio Lula da Silva chegou à tribuna das Nações Unidas nesta terça-feira, 22 de setembro, com um discurso preparado para falar de multilateralismo e soberania. Em pouco mais de 20 minutos, transformou esses dois conceitos diplomáticos numa resposta direta ao ambiente político criado nos últimos meses pela relação entre Brasil e Estados Unidos.

A frase que concentrou essa mensagem veio quando o presidente tratava da América Latina: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém.” Lula não pronunciou o nome de Donald Trump naquele momento, mas o contexto tornou o destinatário político evidente. A declaração ocorre depois de o governo americano recuperar a Doutrina Monroe como referência para sua estratégia hemisférica e ampliar a presença militar dos Estados Unidos na região.

A frase provocou aplausos no plenário. Ao longo da intervenção, segundo registros da cobertura em Nova York, Lula foi interrompido outras vezes por manifestações da plateia. Isso não deve ser confundido com apoio formal da Assembleia Geral às posições brasileiras — aplausos em plenário não constituem votação ou resolução da ONU —, mas marcou alguns dos momentos de maior repercussão do pronunciamento.

O discurso teve uma característica que o diferenciou de intervenções brasileiras anteriores: política internacional e acontecimentos domésticos apareceram quase sem separação. Lula falou da crise das Nações Unidas, das guerras e do Conselho de Segurança, mas também das eleições brasileiras de outubro, do crime organizado, do Pix, das apostas, das plataformas digitais e da jornada de trabalho.

Tudo foi organizado em torno de uma mesma ideia: decisões fundamentais sobre o Brasil devem permanecer sob autoridade das instituições e da população brasileira.

“Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para a maior integração entre vizinhos”, afirmou Lula. Em seguida, vinculou diretamente soberania e democracia: “A democracia brasileira pertence aos brasileiros.”

Era uma formulação diplomática, mas pronunciada a menos de duas semanas do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, marcado para 4 de outubro, e num momento de forte tensão com Washington.

A resposta brasileira à nova política hemisférica de Washington

A frase sobre o “quintal” ganhou ainda mais peso porque Trump discursaria na mesma Assembleia Geral pouco depois de Lula.

O governo americano vem recuperando explicitamente a Doutrina Monroe como referência de sua política para o Hemisfério Ocidental e ampliando operações militares contra organizações que classifica como narcoterroristas. Nesta terça-feira, o próprio Trump declarou na ONU que os Estados Unidos estão reafirmando seu poder no hemisfério e que poderão utilizar sua capacidade militar para defender aquilo que Washington considerar seus interesses nacionais vitais.

É nesse ambiente que precisa ser compreendida a resposta brasileira.

Lula não afirmou que os Estados Unidos estejam preparando uma intervenção militar no Brasil. Também não existe evidência pública de uma operação desse tipo em preparação. O que o presidente fez foi rejeitar antecipadamente qualquer concepção segundo a qual segurança regional permitiria subordinar a soberania dos países latino-americanos às decisões de Washington.

O ponto ficou ainda mais explícito quando Lula chegou ao crime organizado.

“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas”, afirmou. “Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime.”

A passagem toca diretamente numa das divergências mais recentes entre Brasília e Washington.

Os Estados Unidos classificaram PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. O governo brasileiro rejeita essa caracterização e sustenta que as duas facções devem ser combatidas como organizações criminosas dentro da legislação brasileira, com cooperação internacional contra tráfico de armas, narcotráfico e lavagem de dinheiro.

Lula não minimizou a dimensão do problema. Disse que o Brasil está preparado para enfrentar organizações que aterrorizam comunidades e reconheceu a insatisfação da população com a violência. O ponto de divergência está no instrumento utilizado.

A posição apresentada na ONU foi: cooperação internacional, sim; transferência da responsabilidade pela segurança brasileira para forças estrangeiras, não.

Lula acrescentou que já entregou pessoalmente ao presidente americano uma proposta de cooperação para combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior. A passagem é relevante porque mostra que o discurso não propôs simplesmente romper a cooperação de segurança com Washington. A divergência é sobre os limites e a natureza dessa cooperação.

Esse talvez tenha sido um dos pontos mais concretos do pronunciamento.

De um lado, Washington vem aproximando combate ao narcotráfico e ação militar. Do outro, Brasília procura manter o tema dentro de uma estrutura de investigação criminal, inteligência, controle financeiro e cooperação entre Estados.

A diferença não é apenas retórica. É uma divergência sobre como enfrentar organizações transnacionais e até onde uma potência pode projetar força militar sobre outros países.

“O momento mais crítico das Nações Unidas”

Antes de chegar à América Latina, Lula havia aberto o discurso com uma avaliação dura sobre a própria organização diante da qual falava.

“Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas”, declarou.

O presidente afirmou estar movido pela “indignação” diante da incapacidade da organização de impedir guerras e criticou diretamente o Conselho de Segurança. Para Lula, a credibilidade da ONU está em seu nível mais baixo e sua capacidade de proteger populações sem poder militar tornou-se insuficiente diante das crises atuais.

A crítica acompanha uma posição antiga da diplomacia brasileira.

O Conselho de Segurança continua estruturado fundamentalmente segundo a distribuição de poder surgida depois da Segunda Guerra Mundial. Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido ocupam as cinco cadeiras permanentes e possuem poder de veto. África e América Latina continuam sem representantes permanentes.

O Brasil defende há décadas uma reforma do órgão e reivindica maior representação de países em desenvolvimento.

No discurso desta terça, entretanto, Lula associou essa velha reivindicação a um diagnóstico mais urgente: a paralisia do Conselho diante de guerras estaria reduzindo a legitimidade de todo o sistema multilateral.

“Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel”, afirmou.

Isso não significa que o Conselho tenha deixado de funcionar. Ele continua aprovando resoluções, mantendo missões, administrando sanções e realizando reuniões sobre conflitos internacionais. A crítica brasileira concentra-se especialmente nas crises em que interesses das grandes potências entram em choque e o veto impede decisões mais abrangentes.

Lula resumiu o momento como uma escolha entre “multilateralismo e unilateralismo”, “democracia ou extremismo” e “soberania ou subordinação”.

Foi a partir dessa moldura que o restante do pronunciamento avançou.

Da soberania internacional às eleições brasileiras

A eleição de outubro entrou diretamente no discurso.

Lula afirmou que o processo eleitoral brasileiro deve transcorrer sem interferência externa e declarou que o governo não permitirá que atores internos ou externos atentem contra a vontade expressa pelos eleitores. A preocupação com uma possível ingerência estrangeira já vinha sendo discutida pelo governo antes da viagem a Nova York e havia sido confirmada à Reuters por um assessor presidencial.

O presidente também levou à tribuna temas que fazem parte da disputa política interna brasileira.

Falou sobre o fim da escala 6×1, defendeu medidas contra a indústria das apostas, mencionou políticas de valorização do salário mínimo e abordou o combate ao feminicídio.

A presença desses assuntos deu ao pronunciamento uma dimensão doméstica incomum.

Mas foi o Pix que produziu uma das referências mais diretas às tensões econômicas entre Brasil e Estados Unidos.

Lula afirmou que o país não cederá a pressões para privatizar seu sistema de pagamentos instantâneos.

O Pix tornou-se uma das questões na relação comercial com Washington porque autoridades americanas levantaram questionamentos sobre práticas brasileiras envolvendo serviços digitais e meios de pagamento. Para Brasília, entretanto, o sistema administrado pelo Banco Central tornou-se infraestrutura pública essencial para a economia nacional.

Ao colocar o tema numa fala sobre soberania, Lula retirou o Pix do terreno exclusivamente técnico.

O sistema de pagamentos apareceu como exemplo de uma questão maior: quem determina a organização da infraestrutura econômica brasileira.

O mesmo raciocínio surgiu quando o presidente abordou plataformas digitais.

Lula defendeu regras para big techs e inteligência artificial e argumentou que empresas tecnológicas não podem operar fora das legislações nacionais. Também relacionou a regulação à proteção de crianças, mulheres e produtores de conteúdo.

Essa agenda está entre os pontos de atrito entre governos, empresas americanas de tecnologia e diferentes países que procuram ampliar a regulação das plataformas.

Gaza, Ucrânia e a “falência da política”

A segunda metade do discurso ampliou novamente o foco para as guerras.

Lula voltou a defender soluções diplomáticas para a Ucrânia e criticou o prolongamento do conflito. Em relação ao Oriente Médio, condenou as ações israelenses em Gaza e a ocupação da Cisjordânia, usando a expressão “genocídio” para caracterizar o que ocorre em Gaza.

Essa caracterização é a posição expressa pelo presidente brasileiro e é objeto de disputa política e jurídica internacional. Israel rejeita a acusação de genocídio e afirma que suas operações têm como objetivo organizações armadas e são realizadas em resposta a ameaças de segurança.

Lula colocou esses conflitos dentro de sua crítica mais ampla à incapacidade das instituições internacionais.

Sua formulação foi de que a guerra representa uma “falência da política”. A saída defendida pelo Brasil continua sendo a diplomacia, mesmo quando as partes envolvidas possuem posições aparentemente inconciliáveis.

O presidente também voltou a criticar o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba e defendeu a autodeterminação dos países latino-americanos.

É justamente nessa parte do pronunciamento que a frase sobre o “quintal” deixa de funcionar apenas como resposta a Trump e passa a resumir uma concepção histórica da política externa brasileira: países latino-americanos não deveriam ser tratados como extensões estratégicas de uma potência externa.

Essa posição não significa que os governos latino-americanos concordem entre si. As diferenças sobre Venezuela, Cuba, Estados Unidos, segurança regional e política econômica são profundas. O discurso brasileiro apresentou uma proposta para as relações regionais, não a descrição de um consenso continental.

Lula falou de frente para uma disputa que Trump explicitou minutos depois

A sequência protocolar dos discursos tornou o episódio especialmente significativo.

O Brasil tradicionalmente abre o Debate Geral. Os Estados Unidos, como país anfitrião, falam em seguida. Assim, Lula deixou a tribuna pouco antes de Donald Trump apresentar sua própria leitura da posição americana no hemisfério.

Isso permitiu que duas concepções aparecessem diante da mesma Assembleia praticamente em sequência.

Lula afirmou que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”, rejeitou ingerências e disse que não precisa de porta-aviões estrangeiros para garantir sua segurança.

Trump, em sua intervenção, reafirmou o poder dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental e falou na possibilidade de recorrer à capacidade militar americana para defender interesses considerados vitais por Washington.

A comparação não exige transformar os dois pronunciamentos num confronto pessoal. Ela revela uma divergência política objetiva sobre soberania, segurança e exercício do poder no continente.

Lula propõe que cooperação entre países seja realizada preservando a autoridade dos Estados sobre seus territórios.

Trump vem construindo uma estratégia hemisférica na qual Washington reivindica maior margem para agir contra organizações e ameaças que identifica como perigos para os Estados Unidos.

O significado dessa diferença aumentou porque a discussão deixou de ser puramente teórica.

Os Estados Unidos já realizam operações militares antidrogas no Caribe e no Pacífico, classificaram organizações latino-americanas como terroristas e vêm ampliando acordos de segurança com governos da região. É nesse cenário, e não num debate abstrato sobre história diplomática, que Lula utilizou a expressão “quintal”.

O discurso desta terça-feira acabou sendo, portanto, mais amplo do que a intervenção que o governo brasileiro havia antecipado antes da Assembleia.

O multilateralismo permaneceu no centro. A reforma da ONU permaneceu no centro. As guerras e a desigualdade também.

Mas a soberania transformou-se no fio que amarrou política externa, eleições, segurança, economia digital e relações com Washington.

O Brasil quer cooperação para combater o crime, disse Lula, mas não pretende entregar a terceiros a responsabilidade de proteger suas fronteiras. Quer relações econômicas com outros países, mas rejeita pressões sobre instrumentos nacionais como o Pix. Quer integração latino-americana, mas sem a lógica de áreas de influência. Quer uma ONU capaz de agir, mas considera que sua atual estrutura de poder precisa ser reformada.

Pode-se concordar ou discordar dessas posições; o discurso, porém, tornou explícito o diagnóstico apresentado pelo governo brasileiro.

Para Lula, a crise internacional de 2026 não é apenas uma disputa entre países. É uma disputa sobre quem tem o direito de estabelecer as regras pelas quais os países serão obrigados a viver.

Foi por isso que a frase mais curta de seu pronunciamento acabou condensando praticamente toda a intervenção.

Diante da Assembleia Geral, Lula não citou Trump pelo nome.

Não precisou.

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”

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