“O Brasil foi roubado”
por Gustavo Tapioca
A prisão preventiva do argentino Fernando Cerimedo, determinada pela Justiça boliviana, não interessa apenas à investigação da tentativa de feminicídio de sua ex-companheira, Nadia Beller, atingida por três tiros. Interessa também à eleição presidencial brasileira.
Na manhã desta segunda-feira, 24 de agosto, Jamil Chade e Cleber Lourenço revelaram no ICL Notícias que integrantes do Palácio do Planalto temem uma ofensiva internacional de desinformação destinada a interferir na reta final da disputa presidencial. A preocupação está voltada para uma rede que atravessa Brasil, Argentina, Honduras, Estados Unidos e Israel — e na qual Fernando Cerimedo aparece ligado a Eduardo Bolsonaro e a operadores do trumpismo.
O temor do governo olha para o que pode acontecer nas próximas semanas. Mas, para compreender o risco, é preciso voltar ao que já aconteceu.
Em 2022, Cerimedo espalhou a mentira de que a eleição havia sido roubada. Seu material circulou entre militares, integrantes do Gabinete do Ódio e auxiliares de Jair Bolsonaro, alcançou milhões de brasileiros e ajudou a embasar a contestação eleitoral apresentada pelo PL.
Agora, celulares, computadores, documentos, equipamentos de comunicação e registros financeiros ligados ao argentino estão nas mãos das autoridades bolivianas. Talvez nada revelem. Mas poderão ajudar a esclarecer quem financiou, abasteceu e orientou suas operações políticas em diferentes países.
A máquina de Trump
O Intercept Brasil definiu Fernando Cerimedo como o “Steve Bannon latino”. A comparação é reveladora. Como Bannon, ele não atua apenas como marqueteiro eleitoral: organiza a guerra cultural, constrói redes transnacionais e transforma a desinformação em instrumento de poder. Mas acrescentou a essa função a infraestrutura tecnológica de outro personagem decisivo do trumpismo: Brad Parscale.
Responsável pela operação digital da campanha de Donald Trump em 2016 e gerente da campanha de reeleição em 2020, Parscale voltou ao ecossistema trumpista com a Campaign Nucleus, plataforma que integra dados, comunicação e gerenciamento político, e outras tecnologias baseadas em inteligência artificial.
A lógica é localizar, classificar e alcançar cada eleitor com a mensagem mais eficiente, no momento e na plataforma adequados. O grande comício passou a caber dentro do celular.
“O Brasil foi roubado”
Fernando Cerimedo é consultor político, empresário da comunicação digital e um dos fundadores do portal La Derecha Diario. Desde 18 de agosto, está preso na Bolívia, acusado pelo Ministério Público de ser o autor intelectual da tentativa de feminicídio de Nadia Beller. A Justiça determinou 180 dias de prisão preventiva.
Em 4 de novembro de 2022, cinco dias depois da derrota de Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva, Cerimedo realizou a transmissão Brazil Was Stolen — “O Brasil foi roubado” —, acompanhada simultaneamente por mais de 415 mil pessoas.
Apresentou como estudo técnico um material que utilizava comparações enganosas para sugerir diferenças suspeitas entre os resultados de modelos novos e antigos das urnas. As alegações eram falsas, mas o objetivo político era explosivo: colocar sob suspeita a vitória de Lula.
Naquele momento, bolsonaristas acampavam diante dos quartéis e pediam intervenção militar. Nos bastidores, integrantes do governo Bolsonaro e militares discutiam maneiras de impedir a posse do presidente eleito.
As mentiras de Cerimedo levou milhares de bolsonaristas à invasão das sedes dos Três Poderes e a baderna do 8 de janeiro: a tentativa de golpe contra o Estado Democrático de Direito que incluía, no Punhal Verde Amarelo, a “tomada do poder” e o assassinato de Lula e Alkmim, já empossados, e o ministro Alexandre de Moraes.
“Fraude comprovada! Acabou para Lula!!!”
A Polícia Federal revelou posteriormente que a live das mentiras não permaneceu isolada nas redes. No próprio dia 4 de novembro de 2022, o tenente-coronel Guilherme Marques Almeida, então lotado no Comando de Operações Terrestres do Exército, encaminhou o link a Mauro Cid com a hashtag #BrazilWasStolen. Depois, voltou a enviar o material: “Fraude comprovada! Acabou para Lula!!!”
Segundo a Procuradoria-Geral da República, Tércio Arnaud Tomaz, integrante do Gabinete do Ódio, baixou a transmissão de aproximadamente uma hora, produziu uma versão de oito minutos e 59 segundos e a enviou a Mauro Cid com uma palavra: “resumo”.
A circulação funcionava nos dois sentidos. O material saía do Brasil, Cerimedo o transformava em comunicação pública e a transmissão voltava, resumida e distribuída entre militares, assessores e militantes. A operação atravessava fronteiras.
As 415 mil pessoas que acompanharam a live eram apenas o primeiro círculo da propagação. Levantamento do Intercept mostrou que vídeos golpistas sobre a eleição de 2022 alcançaram mais de 21 milhões de visualizações no YouTube em apenas dez dias. A transmissão de Cerimedo foi reproduzida por canais da extrema direita e impulsionada por influenciadores como Nikolas Ferreira. A mentira já havia atravessado o país.
A engrenagem do golpe
O relatório final da Polícia Federal concluiu que o material divulgado por Cerimedo ajudou a embasar a representação apresentada pelo PL ao Tribunal Superior Eleitoral para tentar invalidar votos registrados em parte das urnas. O TSE rejeitou a contestação e multou o partido em R$ 22 milhões por litigância de má-fé.
Em novembro de 2024, a PF indiciou Cerimedo por suspeita de participação em organização criminosa, tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Foi o único estrangeiro entre os 37 indiciados.
A PF não conseguiu determinar se Cerimedo participava conscientemente da conspiração ou funcionava como vetor internacional da desinformação. Sua transmissão, porém, cumpriu uma função objetiva: ajudou a alimentar a narrativa de que Bolsonaro não havia perdido. A eleição teria sido roubada.
Eduardo, Parscale e Mar-a-Lago
As relações com o bolsonarismo não eram apenas ideológicas. A Agência Pública identificou que a campanha de Eduardo Bolsonaro pagou, em 2022, uma quantia não especificada, a Giovanni Larosa, funcionário ligado ao La Derecha Diario no Brasil.
Semanas antes da live, Cerimedo e sua equipe organizaram uma viagem de Eduardo a Buenos Aires. Apresentada como missão parlamentar, a agenda teve forte conteúdo eleitoral e incluiu encontros com Javier Milei e Victoria Villarruel.
A relação continuou depois das investigações. Em fevereiro de 2026, durante a Hispanic Prosperity Gala, realizada em Mar-a-Lago, Eduardo chamou Cerimedo de “bravo argentino” e lhe entregou o prêmio de “consultor político do ano”. O argentino celebrou vitórias na Bolívia e em Honduras, defendeu a “batalha cultural” contra a esquerda e agradeceu à Numen Publicidad.
O local não é um detalhe. Mar-a-Lago é um dos centros políticos e simbólicos do trumpismo. Foi ali que Eduardo Bolsonaro premiou Cerimedo, o operador que ajudara a desacreditar a eleição brasileira.
Em 23 de julho de 2026, dois dias depois de Flávio Bolsonaro utilizar informações falsas para questionar as urnas diante de embaixadores, Cerimedo participou de nova transmissão com Eduardo Bolsonaro. Retomou alegações já refutadas e afirmou que bastaria manipular “5% ou 10% das máquinas para trocar o resultado, nada mais”. Quatro anos depois, voltava ao mesmo terreno: fabricar desconfiança sobre as urnas.
O Intercept afirmou que a prisão de Cerimedo poderá retirar do bolsonarismo um importante operador de redes e perguntou quem financiava seus serviços. A origem do dinheiro permanece como pergunta, não como conclusão.
A infraestrutura
Em março de 2025, Cerimedo anunciou que representaria na América Latina tecnologias da Campaign Nucleus e da EyesOver, empresas comandadas por Parscale. A parceria também se materializou na Numen, empresa de marketing político associada ao argentino.
Na Bolívia e em Honduras, Parscale fornece ferramentas de dados destinadas a identificar e alcançar segmentos específicos do eleitorado. Cerimedo resumiu ao New York Times o papel do americano: “Brad colocou toda a infraestrutura com a qual eu trabalho.”
A reportagem do ICL mostrou que, na eleição de Honduras, Cerimedo trabalhou com operadores ligados a Trump. Durante a cerimônia em Mar-a-Lago, o próprio argentino agradeceu a Parscale pela tecnologia e pela equipe colocadas à disposição de suas operações na região.
Honduras apresenta, assim, um exemplo recente do funcionamento da infraestrutura que une operadores latino-americanos à máquina eleitoral trumpista.
A influência de Cerimedo não se limitou às campanhas. O vice-presidente da Bolívia, Edmand Lara, afirmou que o argentino participou de reuniões do gabinete, exerceu poder de decisão e interferiu na escolha de integrantes do governo. Embora trabalhasse diretamente para o presidente Rodrigo Paz, não ocupava cargo oficial e, segundo o próprio governo, era remunerado com “recursos externos” cuja origem não foi esclarecida.
A infraestrutura digital não serve apenas para vencer eleições. Seus operadores podem penetrar os governos que ajudaram a eleger.
A intervenção mudou de endereço
Servidores podem estar fora do país. Dados podem ser processados a milhares de quilômetros. Algoritmos identificam públicos suscetíveis. A inteligência artificial produz conteúdos, influenciadores distribuem, bots amplificam e milhões de celulares completam a operação.
Glauber Rocha sintetizou a revolução cinematográfica dos anos 1960 numa frase: “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.”
Hoje, bilhões de pessoas carregam uma câmera na mão. Mas as ideias que chegam até elas podem ser selecionadas por máquinas, organizadas por plataformas e impulsionadas por operações que o eleitor não enxerga.
Em 2022, Fernando Cerimedo ajudou a espalhar a falsa narrativa de que a eleição havia sido fraudada. Em 2025, tornou-se parceiro latino-americano das tecnologias eleitorais do homem que construiu parte fundamental da máquina digital de Donald Trump. Em 2026, reapareceu ao lado de Eduardo Bolsonaro atacando as urnas.
Preso, Cerimedo pode ter saído temporariamente do tabuleiro. A máquina, entretanto, não saiu.
Ainda não se pode afirmar que Parscale, Cerimedo ou suas empresas participam formalmente da campanha de Flávio Bolsonaro. Mas sabemos que a infraestrutura existe, atravessou fronteiras e já foi utilizada em eleições latino-americanas. Sabemos que Cerimedo continuou ligado ao bolsonarismo. E sabemos o que aconteceu depois da última derrota de Jair Bolsonaro. Por isso, a pergunta decisiva não é apenas quem vencerá em 4 de outubro de 2026.
É quem operará a máquina destinada a convencer milhões de brasileiros de que o vencedor não venceu.
Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.
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