O Brasil além dos polos 

Wagner Gomes 

Apresentar a eleição presidencial como um duelo entre democracia e bolsonarismo aponta uma questão real, mas não encerra o debate sobre o Brasil. A defesa das instituições é indispensável. Também são indispensáveis o combate à corrupção, a responsabilidade com o dinheiro público e a capacidade de governar. Nenhum desses compromissos dispensa os demais. Neste segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro representam campos que fizeram da rejeição ao adversário um de seus principais instrumentos de mobilização. Há diferenças importantes entre eles, seus projetos e suas responsabilidades. Reconhecê-las não obriga ninguém a conceder imunidade à crítica a qualquer dos lados. O legado de Jair Bolsonaro ultrapassa a retórica agressiva e os conflitos institucionais. Sua condenação pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado e outros crimes impede que a ameaça democrática seja reduzida a uma invenção publicitária. Flávio, porém, é quem disputa a Presidência. Cabe examiná-lo por suas propostas, suas escolhas e pela disposição de estabelecer limites entre o interesse público e os interesses políticos de sua família. Lula, por sua vez, precisa responder tanto pelo desempenho de seu governo quanto pelo histórico do partido que lidera. Os escândalos do mensalão e da Lava Jato deixaram marcas profundas na confiança pública. As condenações de Lula na Lava Jato foram anuladas por decisões que reconheceram a incompetência do juízo de Curitiba; no caso do triplex, houve também o reconhecimento da suspeição de Sergio Moro. Respeitá-las, contudo, não impede a cobrança de responsabilidade política pelos episódios de corrupção ocorridos durante governos petistas. Os movimentos recentes da campanha acrescentam outra preocupação: a consistência dos compromissos apresentados ao eleitor. Lula passou a defender a redução da maioridade penal para crimes hediondos. Flávio anunciou apoio ao fim da escala 6×1 depois de criticar a proposta. Mudar de posição pode revelar aprendizado, negociação ou conveniência. O eleitor merece conhecer as razões da mudança, seus custos e suas consequências. Promessa eleitoral precisa sobreviver ao encerramento da apuração. Enquanto as campanhas disputam quem deve ser mais temido, o país continua exigindo respostas para problemas que nenhuma palavra de ordem resolve: baixa produtividade, dificuldades na educação, violência ainda elevada, serviços públicos deficientes e o peso dos impostos sobre famílias e empresas. A crítica séria precisa reconhecer avanços onde existam e cobrar resultados onde faltem. Negar qualquer melhora porque ela ocorreu sob um adversário é reproduzir o sectarismo que se pretende combater. O patrimonialismo também merece uma cobrança que atravesse fronteiras partidárias. O Estado perde sua finalidade quando cargos, verbas e decisões se tornam instrumentos de proteção pessoal, acomodação de aliados ou perpetuação de grupos no poder. O dinheiro público não pertence ao vencedor da eleição. Neste segundo turno, a escolha está limitada a dois candidatos. A construção de uma alternativa exigirá trabalho para além desta votação: organização, propostas viáveis e lideranças dispostas a prestar contas. Tampouco basta chamar-se de centro; moderação sem integridade e competência pode ser apenas outra maneira de ocupar o poder. O voto deve resultar da avaliação de propostas, trajetórias e riscos concretos. Não precisa carregar devoção nem conceder absolvição. Quem vencer terá o direito de governar dentro da Constituição e o dever de aceitar fiscalização. Nenhum adversário é ruim o bastante para tornar seu oponente imune à crítica. 

Wagner Gomes- Articulista

Artigo Anterior

Campanha de Lula vê posição sobre maioridade como estratégia para esvaziar Flávio; entenda

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!