O bolsonarismo sobrevive sem Bolsonaro, mas não sem Lula
por Francisco Fernandes Ladeira
À primeira vista, o título deste artigo soa paradoxal. Afinal de contas, como o bolsonarismo, principal movimento da extrema direita tupiniquim, poderia sobreviver sem seu ídolo máximo, mas não sem seu principal inimigo? O argumento aqui desenvolvido é esse mesmo.
Explico. Apesar de agrupar o que há de mais repugnante na sociedade brasileira, o bolsonarismo não tem um projeto próprio de país – a não ser, é claro, entregar nossas riquezas ao imperialismo estadunidense. Não se trata de indivíduos unidos por uma ideologia em comum. Muitos membros dessa seita política, inclusive, não são necessariamente fascistas, são apenas estúpidos mesmo.
Para entender o que unifica o bolsonarismo, podemos recorrer a Freud, mais precisamente à obra “O mal-estar na civilização”. Segundo o pensador austríaco, é mais corriqueiro que determinados grupos tenham coesão a partir de um inimigo em comum do que em relação a um certo objetivo. Dito de outro modo, as pessoas tendem a se agrupar muito mais em torno do ódio do que no amor.
É a mesma lógica que opera, por exemplo, no engajamento sobre uma postagem nas redes sociais. Os algoritmos que reforçam discórdias na internet nada mais fazem do que replicar sentimentos que estão presentes na humanidade desde tempos imemoriais. Daí que surgem os haters e a cultura do cancelamento (o “ódio do bem” identitário).
Como o bolsonarismo é inerentemente um movimento de ódio — ao professor, à mulher, ao homossexual, ao comunista, ao pobre, à inteligência etc. — não é difícil concluir que sua viabilidade se deve ao ódio personalizado na figura de Lula. Isso significa que a extrema direita brasileira pode seguir sem o “amor a Bolsonaro”, mas não sem o mantra “E o Lula? E o PT”.
Por outro lado, alguém pode mencionar que o bolsonarismo já encontrou novos inimigos – o STF, o “globalismo”, os “comunistas imaginários”, a “ideologia de gênero” – e que, portanto, não dependeria exclusivamente de Lula. No entanto, nenhum desses alvos tem a centralidade simbólica, a carga histórica e a capacidade de mobilização emocional que Lula possui. O antipetismo genérico pode até se manter, mas perde o foco que dá coerência ao discurso. É Lula quem transforma o ódio difuso em identidade coletiva.
A desistência de Flávio Bolsonaro em participar do debate entre presidenciáveis promovido pela Rede Globo (posteriormente cancelado) corrobora a hipótese levantada neste artigo. Evidentemente, o temor em debater com Renan Santos também estava por trás da decisão do candidato do PL. Porém tudo indica que o que mais pesou foi a impossibilidade de a Rede Globo exibir durante o debate o púlpito vazio com o nome Lula e de os outros candidatos poderem dirigir perguntas ao presidente (mesmo com sua ausência).
Sem a possibilidade de tecer críticas e ataques ao candidato petista, a campanha de Flávio Bolsonaro perde a sua razão de existir. Por isso, não faria sentido participar do debate. Mais claro do que isso, impossível.
Se a esquerda brasileira se preocupa sobre como será seu desempenho eleitoral no pós-Lula, o bolsonarismo parece ter motivos para ter igual preocupação, ao menos para cargos majoritários, sobretudo a presidência da República. Na ausência do ódio unificador a Lula, o bolsonarismo corre o risco de se transformar em um amontoado de malucos dispersos, sem um discurso em comum.
E aqui retornamos ao paradoxo do título: o bolsonarismo sobrevive sem Bolsonaro, mas não sem Lula, pois é Lula, e não Bolsonaro, quem fornece o inimigo que o mantém vivo. Sem Lula, o bolsonarismo não morre necessariamente, mas perde o alicerce que o mantinha unido. Talvez se transforme em outra coisa – fragmentada, errática, eventualmente violenta –, mas já não será o mesmo movimento. É uma ironia interessante: a extrema direita brasileira depende, para sua coesão, da existência do principal líder da esquerda. Enquanto Lula existir politicamente, o bolsonarismo terá seu combustível. Quando ele faltar, restará saber se o ódio encontrará outro nome ou se dispersará no vazio.
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Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFMG) – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor do livro “Palestina na geopolítica global pós-2023: narrativas e contranarrativas” (Editora CRV)
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