O Agro, o sapo e o escorpião, por Milton Pomar

O Agro, o sapo e o escorpião

por Milton Pomar

A aposta do Agro brasileiro no candidato pró-Estados Unidos (EUA), no 1º turno das eleições, lembra a fábula do sapo e do escorpião, porque o candidato da extrema-direita que tentaram eleger é adepto do lema da ditadura militar “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. E quem é do ramo sabe que o Agro dos EUA é “o” concorrente do Agro brasileiro há mais de 40 anos. Detalhe: espera-se em 2026 que as exportações do Agro do Brasil superem as do Agro dos EUA pela primeira vez na história, com US$180 bilhões contra US$177,5 bilhões.

Concorrente desleal, diga-se de passagem: muito antes do “tarifaço”, conseguido pelo candidato da extrema-direita com o presidente Trump, contra os produtos brasileiros exportados para lá, os EUA taxaram em 415 dólares a tonelada do suco de laranja de São Paulo, para encarecer o produto e assim dificultar ao máximo a concorrência com o suco de laranja da Flórida. Taxaram também a carne de frango, encarecendo o produto do Brasil, para não concorrer com o dos EUA.

Quem mais compra produtos do Agro brasileiro no mundo é a China, há 18 anos. Ano passado, de tudo que o Agro exportou, a China comprou quase 33%. Foram US$55,3 bilhões de produtos do Agro exportados para a China (e US$11,4 bilhões para os EUA). A China diminuiu a importação de carne bovina, para estimular a produção interna. Impôs cotas aos exportadores, em vigor a partir de 2026. O Brasil, que era o maior exportador de carne bovina para a China, recebeu cota de 1,1 milhão de toneladas, e os EUA de 164 mil toneladas.

Após exportações de apenas US$15 bilhões em 2018, Trump negociou e obteve da China enorme aumento das importações agrícolas dos EUA, atingindo US$35 bilhões em 2020 e US$38 bilhões em 2022. Com os ataques de Trump à China, desde a sua posse no segundo mandato, em janeiro de 2025, a importação chinesa de produtos agrícolas dos EUA despencou para US$8,4 bilhões. Em maio de 2026, a China negociou importar US$ 17 bilhões de produtos agrícolas a mais dos EUA, elevando para até US$ 30 bilhões anuais.

Governo Lula abriu mercados

Parte considerável do aumento das exportações do Agro brasileiro para a China e muitos outros países tem a ver com a atuação combinada dos ministérios da Agricultura e das Relações Exteriores (através dos adidos agrícolas) e da ApexBrasil, durante os governos Lula, na abertura de centenas de novos mercados, via participação em feiras e muitas visitas e reuniões. Por isso, hoje o Agro brasileiro tem muitas novas opções, na própria China, e também no Vietnã, Paquistão, Irã, e em outros países da Ásia e da África, para exportar carnes (bovina, suína e de frango), grãos, celulose, açúcar e outros produtos, inclusive alguns novos, como gergelim, sorgo e DDGS (proteína extraída do milho utilizado para fabricar etanol).

Tudo isso foi realizado sempre com os EUA na nossa cola, já que os exportadores do Agro deles são atuantes na política, porque dependem do governo federal para exportarem mais para a China e obterem subsídios governamentais que lhes proporcionam a competitividade necessária para superar o Brasil, a Argentina e outros países concorrentes e assim realizarem seus lucros.

Independência ou subordinação

Sabendo-se a tragédia que a extrema-direita está causando mais uma vez na Argentina, dessa vez pela eleição de um presidente e maioria parlamentar subordinados aos interesses dos EUA, o Agro brasileiro tem diante de si o dilema do sapo em diálogo com o escorpião. Para contribuir com essa reflexão, é didático saber o que recomendaram para o presidente os EUA os seus analistas militares agrícolas, no documento “A China tem Alimentos Suficientes para ir à Guerra? Indicadores Práticos para as Forças Armadas e Formuladores de Políticas dos EUA”, de autoria do major Jamie Critelli e do capitão Gustavo Ferreira, da Reserva do Exército dos EUA.

Após análise detalhada da produção, consumo e importação de alimentos na China, eles afirmam, nas Conclusões (pág. 21), que “Não obstante, se os EUA quiserem explorar essa fraqueza de modo eficaz como parte de uma política econômica mais ampla, terão de trabalhar em estreita colaboração com outros países para forjar uma coalizão contra a China. Por exemplo, caso os EUA queiram realmente interromper as importações chinesas de gêneros alimentícios cruciais, como rações animais, um simples bloqueio marítimo pode não ser suficiente.”

Nesse caso, recomendam candidamente que “Esse esforço também deve envolver mecanismos de compensação que incentivariam o Brasil, a Argentina ou a Ucrânia a abster-se temporariamente de exportações agrícolas para a China (grifo nosso). Isso é algo particularmente importante porque a China é um grande mercado de exportação para todos esses países. A implementação de tais políticas envolveria a participação de uma ampla gama de partes interessadas, como o Departamento de Estado, Departamento de Agricultura, Escritório do Representante Comercial dos EUA, especialistas acadêmicos e grupos industriais.”

Simples assim: “abster-se temporariamente de exportações agrícolas para a China”. No caso do Agro brasileiro, que vendeu quase 100 milhões de toneladas de soja (85) e milho (13,8) para a China em 2025, essa “abstenção” implicaria fazer o que com a safra produzida? (Queimá-la, como o governo Vargas fez com o café brasileiro, de 1931 a 1945?)

E na safra seguinte, deixaríamos de plantar quase 80% da área, caso se mantivesse o bloqueio dos EUA à China? E o que o Agro do Brasil fará com toda a sua imensa capacidade instalada?

Aliás, essa lógica de recomendar aos outros “abstenção temporária de exportações” certamente incluirá o Irã, grande desafeto dos EUA e principal destino do milho do Brasil exportado em 2025, com US1,98 bilhão. No total, o Irã importou US$2,92 bilhões de produtos agropecuários do Brasil em 2025, mais do que a Índia.

Quem conhece os EUA sabe que, se nos subordinarmos a eles, a ferroada mortal no Agro brasileiro virá, porque é da sua natureza. Ainda mais quando precisam inventar um inimigo externo para diminuir a insatisfação do seu eleitorado com os seus muitos problemas internos.

Milton Pomar é professor, geógrafo, mestre em “Estado, Governo e Políticas Públicas” e autor do livro “O sucesso da China socialista”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “

Artigo Anterior

Nunes Marques recebe equipes de Lula e Flávio para discutir condutas no 2º turno

Próximo Artigo

Primeiro-ministro britânico vê interferência russa no Brexit e busca acordo com a UE

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!