Presidente defende processamento de minerais estratégicos no Brasil, anuncia investimentos em inteligência artificial e indústria de defesa e relata conversa com Trump sobre tarifas e guerras
Da Redação
O Presidente Lula afirmou, nesta sexta-feira (21), em Belo Horizonte, que pretende condicionar futuras parcerias sobre minerais críticos e terras raras à transformação desses recursos dentro do Brasil. Em ato de campanha na Praça da Estação, ele defendeu a produção nacional de chips e baterias, anunciou uma nova fase de investimentos em educação e tecnologia e pediu votos para Patrus Ananias ao governo de Minas Gerais.
As declarações foram feitas durante comício transmitido ao vivo, cuja íntegra serviu de fonte para esta matéria. O ato reuniu o vice-presidente Geraldo Alckmin, Janja, o candidato a governador Patrus Ananias, o candidato a vice Jarbas Soares e as candidatas ao Senado Marília Campos e Áurea Carolina, além de dirigentes partidários, parlamentares, artistas e representantes de movimentos sociais.
Em um discurso que combinou balanço de governo, propostas para um quarto mandato e referências à conjuntura internacional, Lula reservou espaço central à soberania sobre os recursos minerais. Minas Gerais, estado que concentra reservas relevantes, foi apresentado como um território decisivo para a política de reindustrialização.
“A gente não quer vender minério para vocês e comprar chip. A gente não quer vender minério e comprar bateria para carro elétrico. A gente quer fazer a bateria aqui, quer fazer os chips aqui para gerar emprego de qualidade para o nosso povo”, declarou.
Lula disse que o Brasil está disposto a estabelecer acordos com China, Estados Unidos, França, Itália e outros países, desde que as parcerias incluam processamento industrial e agregação de valor no território brasileiro.
“Nós queremos repartir com o mundo esses nossos minerais, mas eles têm que ser transformados no Brasil e ter o valor agregado colocado dentro do Brasil”, afirmou.
Minerais críticos entram no centro da campanha
O presidente relacionou a exploração das terras raras à produção de semicondutores, equipamentos eletrônicos, baterias, veículos elétricos e tecnologias de defesa. Esses minerais são utilizados em cadeias industriais de alto valor, o que elevou a disputa internacional pelo controle das reservas e da capacidade de processamento.
Lula fez uma comparação com a exportação histórica de matérias-primas brasileiras e disse que o país não deve repetir, com os minerais críticos, um modelo em que vende recursos naturais por preços menores e depois importa produtos industrializados mais caros.
A proposta foi reforçada por Patrus Ananias. O candidato ao governo de Minas Gerais afirmou que o estado não pode permanecer apenas como fornecedor de matéria-prima.
“Não pode ser assim com as terras raras e não será. Não pode ser assim com o lítio, com o nióbio e com outras riquezas do nosso querido estado de Minas Gerais”, declarou Patrus.
Segundo ele, um eventual governo estadual buscará parceria com o governo federal para industrializar os recursos minerais em Minas Gerais, respeitando as exigências ambientais. “Nós não podemos continuar exportando matéria-prima e comprando depois a matéria-prima industrializada quatro, cinco ou dez vezes mais cara”, afirmou.
Patrus defendeu que o mesmo princípio seja aplicado à produção agropecuária, com estímulo à agroindústria e à transformação dos produtos dentro do estado.
Inteligência artificial e controle dos dados
Lula afirmou que uma de suas prioridades para o próximo mandato será ampliar a capacidade brasileira de desenvolver tecnologias digitais próprias. Ele defendeu a formação de engenheiros, matemáticos e profissionais especializados em inteligência artificial.
“O Brasil não vai ficar dependendo nem da China, nem dos Estados Unidos para fazer a sua inteligência artificial”, disse.
O presidente também citou o Redata, programa encaminhado ao Congresso Nacional para estimular a instalação de centros de processamento de dados no país. Segundo Lula, o objetivo é transformar o Brasil em um destino internacional para novos data centers e, ao mesmo tempo, assegurar maior controle nacional sobre as informações produzidas por cidadãos, empresas e instituições brasileiras.
“Nós não queremos deixar os dados do povo brasileiro na mão dos americanos, dos chineses ou dos russos. Têm que ser nossos dados para a gente poder criar a nossa inteligência artificial”, afirmou.
A declaração situa os dados como recursos estratégicos para o treinamento de sistemas de inteligência artificial. A capacidade de armazenar, processar e proteger essas informações passou a ocupar espaço semelhante ao de setores tradicionalmente relacionados à soberania, como energia, petróleo, defesa e telecomunicações.
Lula vinculou essa estratégia ao que chamou de uma “revolução energética”. O governo pretende atrair data centers, mas o crescimento desse setor deverá exigir ampliação da oferta de eletricidade e regras sobre localização, consumo de água, proteção ambiental e segurança das informações.
Indústria de defesa e proteção das riquezas
Outro compromisso anunciado foi o aumento dos investimentos na indústria de defesa. Lula argumentou que o tamanho das fronteiras terrestres e marítimas brasileiras exige capacidade tecnológica, monitoramento e produção nacional de equipamentos.
“Vamos também investir na defesa para a gente tomar conta da nossa riqueza”, declarou.
O presidente associou a política de defesa à proteção dos minerais críticos, das reservas de petróleo e das águas sob jurisdição brasileira. Ele citou uma visita recente a uma instalação de exploração petrolífera em águas profundas e afirmou que a receita obtida com a produção deverá ser usada para enfrentar problemas sociais e ampliar os investimentos nacionais.
Para Lula, o petróleo pode financiar a transição do país para uma economia mais avançada tecnologicamente. O presidente voltou a descrevê-lo como um “passaporte para o futuro”, desde que seus recursos sejam aplicados na redução das desigualdades e na modernização da economia.
Conversa com Trump durou uma hora e meia, diz Lula
Durante o comício, Lula afirmou que conversou por uma hora e meia, nesta sexta-feira, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo o brasileiro, o diálogo tratou das tarifas impostas a produtos nacionais, do combate ao crime organizado e das guerras em curso.
Lula disse ter contestado os argumentos utilizados pelo governo norte-americano para justificar a taxação. De acordo com o relato feito no palanque, Trump teria reconhecido a necessidade de avançar nas negociações e solicitado ao secretário de Comércio dos Estados Unidos que procurasse o representante brasileiro responsável pelo tema.
“Presidente Trump, a taxação que vocês fizeram ao Brasil é uma taxação não só irreal, como foi feita com base na mentira”, contou Lula, ao reproduzir o que disse na conversa.
O presidente brasileiro afirmou que está disposto a cooperar com os Estados Unidos no combate às organizações criminosas, mas rejeitou qualquer intervenção externa em assuntos nacionais.
“Se você quer combater o crime organizado, vamos combater o crime organizado. A Polícia Federal quer combater o crime organizado. Nós queremos prender esses bandidos. Agora, nós queremos trabalhar juntos. O que nós não queremos é interferência no Brasil”, declarou.
Lula também relatou conversas recentes com o presidente da China, Xi Jinping, e com o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Segundo ele, os contatos tiveram como assunto a busca de saídas diplomáticas para os conflitos internacionais.
Ao falar da conversa com Trump, Lula disse ter sugerido que o norte-americano recebesse Xi e Putin para uma negociação. “O mundo está precisando de paz, não está precisando de guerra”, afirmou.
“Se a gente não se respeitar, ninguém respeita a gente”
Lula apresentou sua atuação diplomática como parte de uma política externa baseada na autonomia do Brasil. Ele relembrou sua participação na reunião do G7 realizada em Évian, na França, em 2003, e disse que, naquela ocasião, decidiu dialogar em condições de igualdade com os dirigentes das maiores economias do mundo.
“Esses caras são mais importantes do que eu? Quem deles já passou fome? Quem deles teve que andar dois mil quilômetros de pau de arara para não morrer de fome?”, questionou.
O presidente afirmou que sua experiência como trabalhador e migrante nordestino lhe permitia apresentar aos governantes estrangeiros uma realidade social que eles não conheciam.
“Eu sou mais eu, porque são eles que têm que aprender comigo. Eles precisam conhecer o meu mundo”, declarou.
Para Lula, a política externa depende da capacidade do país de reconhecer sua própria importância. “Se a gente não se respeitar, ninguém respeita a gente. Se você quiser respeito, você tem que se respeitar”, disse.
Educação como próximo salto
Ao falar das propostas para um novo mandato, Lula afirmou que o país precisa superar uma etapa concentrada no acesso aos serviços básicos e iniciar um “salto de qualidade”, tendo a educação como prioridade.
O presidente prometeu ampliar universidades, institutos federais e escolas de tempo integral. Segundo ele, a jornada ampliada deverá combinar disciplinas tradicionais com atividades artísticas, educação ambiental, formação tecnológica e ações de prevenção à violência contra as mulheres.
“O salto de qualidade começa por resolver definitivamente a questão da educação nesse país”, declarou.
Lula disse que sua insistência no tema está relacionada à experiência pessoal de não ter concluído os estudos regulares. “Eu tenho obsessão pela educação porque não tive chance de estudar. Pelo fato de eu não ter tido chance, eu quero que todo mundo tenha”, afirmou.
O presidente defendeu igualdade de condições entre estudantes de diferentes origens sociais. “Eu quero que o filho do pobre tenha a mesma oportunidade que o filho do rico para estudar onde ele quiser”, disse.
Ao abordar a expansão do ensino superior, Lula afirmou que a demora do Brasil para criar universidades esteve vinculada à exclusão de indígenas, negros e trabalhadores pobres do acesso ao conhecimento. Para ele, a ampliação das instituições federais modificou uma estrutura que reservava a formação universitária às famílias de maior renda.
Patrus promete recuperar saúde e educação
Patrus Ananias concentrou seu discurso nos compromissos para um eventual governo em Minas Gerais. O candidato disse que a saúde pública foi abandonada pela atual administração estadual e prometeu restabelecer a integração entre o governo federal, o estado e os municípios.
“Se o estado não faz a sua parte, quebra a corrente, e a saúde de Minas está abandonada”, afirmou.
Patrus criticou o uso de sistemas automatizados para decidir transferências de pacientes e procedimentos médicos. Segundo ele, decisões sobre pessoas enfermas precisam envolver análise profissional e responsabilidade humana.
O candidato também prometeu fortalecer a educação pública, ampliar a oferta de creches, escolas técnicas e institutos federais e recuperar a Universidade Estadual de Montes Claros e a Universidade do Estado de Minas Gerais.
Patrus defendeu valorização salarial e diálogo permanente com professores, médicos, enfermeiros e demais servidores. “Nós precisamos de profissionais na educação e na saúde bem remunerados, dignamente reconhecidos e que tenham com o governo uma relação permanente de diálogo”, declarou.
Dívida estadual e privatizações
O candidato afirmou que o próximo governo receberá uma dívida superior a R$ 200 bilhões. Patrus usou a situação fiscal para defender uma parceria com Lula que permita alongar a dívida e preservar recursos para saúde, educação, cultura e recuperação das estradas.
Ele também prometeu manter a Companhia Energética de Minas Gerais sob controle estadual e discutir a retomada da Companhia de Saneamento de Minas Gerais, caso a privatização da Copasa seja efetivada.
“Nós vamos garantir que a Cemig continue no estado de Minas Gerais. Nós vamos rediscutir a reestatização da Copasa, mas não será um passe de mágica”, disse.
Patrus reconheceu que uma eventual retomada da empresa exigiria tempo, recursos e análise jurídica. Como medida inicial, afirmou que cobrará da empresa privatizada o cumprimento integral das obrigações contratuais.
“Água, saneamento básico e luz elétrica são serviços públicos fundamentais, que promovem direitos, a vida, a segurança e o bem-estar das pessoas”, declarou.
Marília e Áurea defendem duas mulheres no Senado
As candidatas Marília Campos e Áurea Carolina apresentaram a eleição de duas mulheres para o Senado como parte da estratégia para ampliar a base parlamentar de Lula e conter o avanço da extrema direita.
Marília afirmou que pretende representar os municípios e atuar como porta-voz das mulheres. Ela lembrou que, em mais de dois séculos de existência do Senado, Minas Gerais elegeu apenas uma mulher para a Casa.
“Eu quero ser eleita senadora para representar a luta das mulheres, mas não apenas para representar, porque, quando ocupamos espaços de poder, nós transformamos”, declarou.
A candidata citou 177 feminicídios registrados em Minas Gerais em 2025 e pediu o fortalecimento das políticas de prevenção, atendimento e proteção. “Parem de matar as nossas mulheres”, afirmou.
Áurea Carolina disse que a disputa pelo Senado terá papel decisivo na preservação das instituições democráticas. Segundo ela, grupos de extrema direita pretendem conquistar maioria na Casa para pressionar tribunais e instituições.
“Eles querem repetir o 8 de janeiro de 2023 dentro do Senado, e nós não vamos deixar”, declarou.
Áurea também defendeu maior controle sobre a atividade mineradora e a destinação de parte da riqueza produzida pelo setor às cidades afetadas. “Nós precisamos enfrentar a máfia da mineração”, afirmou.
A candidata relacionou o desenvolvimento industrial à geração de empregos qualificados, à proteção ambiental e à reparação dos territórios que convivem com os impactos da extração mineral.
Enfrentamento ao feminicídio
A violência contra as mulheres apareceu nas falas de Lula, Janja, Marília Campos e Áurea Carolina. O presidente defendeu que a prevenção comece nas creches e escolas, com o ensino de que meninos e meninas possuem os mesmos direitos.
“Mulher não nasceu para apanhar de marido”, afirmou Lula. “Mão foi feita para trabalhar e para fazer carinho, nunca para bater, nunca para ser violento.”
Lula também relacionou a educação profissional feminina à independência financeira. Segundo ele, uma mulher não pode ser obrigada a permanecer em um relacionamento por depender de alimentação ou moradia.
“Uma mulher com profissão não só vai ganhar mais, ela vai ganhar uma coisa sagrada: a independência dela”, declarou.
Janja destacou a participação feminina na eleição de 2022 e afirmou que as mulheres deverão voltar a desempenhar papel central na campanha. Em sua fala, homenageou mineiras como Conceição Evaristo, Helena Greco, Adélia Prado e Dilma Rousseff.
“Nós, mulheres, somos as guardiãs da democracia. Em 2022, fomos a força decisiva para eleger o Presidente Lula”, afirmou.
Alckmin destaca investimentos federais em Minas
O vice-presidente Geraldo Alckmin declarou apoio a Patrus Ananias e apresentou dados sobre os investimentos federais em Minas Gerais. Segundo ele, o Programa de Aceleração do Crescimento destinou R$ 107 bilhões ao estado.
Alckmin também citou a ampliação do Mais Médicos, a retomada do Farmácia Popular, o Agora Tem Especialistas e medidas voltadas à indústria automotiva. De acordo com o vice-presidente, a redução tributária para modelos de entrada contribuiu para aumentar em 38% as vendas de veículos sustentáveis produzidos no estado.
“O Brasil quer ir para a frente com Lula presidente”, disse.
Lula pede quarto mandato
No encerramento, Lula pediu votos para Patrus Ananias, Marília Campos, Áurea Carolina e os candidatos da coligação à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa.
O presidente afirmou inicialmente que venceria a eleição, mas corrigiu a frase para atribuir a decisão aos eleitores. “Eu vou ganhar essas eleições. Eu vou ganhar uma ova. Quem vai ganhar são vocês, porque o poder está no dedinho de vocês”, declarou.
Lula disse que pretende disputar um quarto mandato para aprofundar as políticas de educação, reindustrialização, tecnologia e distribuição de renda. A campanha em Minas Gerais, pelo teor dos discursos, deverá combinar temas estaduais, como a dívida pública, a situação dos serviços e as privatizações, com uma discussão nacional sobre soberania econômica.
Na proposta apresentada em Belo Horizonte, a riqueza mineral deverá financiar uma indústria instalada no país, capaz de produzir chips, baterias e tecnologias próprias. A definição de como isso será executado, quais contrapartidas serão exigidas das empresas e como os impactos ambientais serão controlados deverá ocupar espaço relevante no debate eleitoral.